O manguezal num roteiro náutico do século XVI

Baía de Todos os Santos – Carta de Luís Teixeira
Baía de Todos os Santos – Carta de Luís Teixeira

Por Arthur Soffiati

O principal impulsionador da expansão marítima europeia a partir do século XV foi a obtenção de lucro. Contudo, a dominação e a conquista de territórios na África, América e Ásia exigiam mais que o desejo de enriquecimento estatal, grupal e individual. Se os europeus apostassem no México, por exemplo, usando apenas lanças, flechas e espadas contra os nativos sua derrota frente a eles seria fragorosa, como foi a dos escandinavos que alcançaram a América do Norte antes de Cristóvão Colombo. Eles chegaram até a fundar alguns núcleos europeus, como atestam marcas deixadas e que a arqueologia resgatou. Os europeus em massa também tentaram conquistar o oriente médio aos muçulmanos e perderam. O que lhes faltava para a conquista? Armas de fogo. Sem o canhão e o arcabuz, a expansão do século XV teria sido facilmente contida pelos nativos.

Muito ajudaram a produção cartográfica e os missionários, que ocidentalizavam os nativos convertendo-os ao cristianismo católico apostólico romano. Ao serem catequizados para uma religião, eles eram convertidos à civilização europeia, embora essa conversão nunca fosse total. Na verdade, não só corpos mestiços surgiram pelo cruzamento biológico, mas também mestiçagem cultural.

A atividade cartográfica europeia nos séculos XV e XVI foi intensa. Navegantes dos países ibéricos, italianos, holandeses, franceses e ingleses lançavam-se ao oceano Atlântico rumo às Índias a fim de conseguir as caras mercadorias orientais sem a intermediação de muçulmanos e venezianos. Esse monopólio foi rompido com a chegada de Vasco da Gama à Índia, em 1498 (“Descobrimento das Índias: o diário da viagem de Vasco da Gama”. Rio de Janeiro: Objetiva, 1998). Para tanto, ele se valeu de cartas náuticas e até da experiência de Ahmad Ibn-Majid, experiente navegador árabe (Chumovsky, T.A. “Três roteiros desconhecidos de Ahmad Ibn-Majid”. Lisboa: Comissão Executiva das Comemorações do V Centenário da Morte do Infante D. Henrique, 1960).

Vasco da Gama coroou um trabalho paciente e perseverante de vários navegantes portugueses no século XV, como mostra Jaime Cortesão em “Os descobrimentos pré-colombianos dos portugueses” (Lisboa: Portugália, 1966). Pouco a pouco, os lusos avançaram pela costa atlântica e índica da África até a viagem de Pedro Álvares Cabral, em 1500, que deve ser inserida no contexto europeu da ocidentalização do mundo a partir do Atlântico para fins mercantis.

A cartografia europeia conheceu um momento de esplendor no século XVI. Aos mapas-múndi da civilização greco-romana, foram elaborados novos mapas em que aparecia o continente americano. Alberto Cantino foi o primeiro a elaborar um mapa-múndi com a América, em 1502. Parece que ele plagiou mapas portugueses por meio de suborno. Navegadores cartógrafos desenhavam mapas com informações em primeira mão. Havia aqueles que se valiam de mapas já desenhados para acrescentar novas informações colhidas de outros cartógrafos. Havia também os cartógrafos que traçavam mapas falados, a exemplo dos retratos falados feitos pela polícia.

Houve poucos casos de navegadores que redigiam roteiros sem mapas ou acompanhados por mapas. Não devemos confundi-los com os diários de bordo, como o redigido por Antonio Pigafetta, que acompanhou Fernão de Magalhães na primeira viagem de circunavegação do mundo (“A primeira viagem ao redor do mundo”. Porto Alegre: L&PM, 1997) nem com o diário de Pero Lopes de Sousa, que fazia parte da tripulação do navio de Martim Afonso de Sousa, seu irmão, entre 1530-32 (“Diário de Navegação”. Cadernos de História, volume I. São Paulo: Parma, 1979).

Luís Teixeira é autor de um trabalho entre a cartografia e o diário de bordo. Ele redigiu um roteiro dos sinais que encontrou nas costas da América do Sul entre o cabo de Santo Agostinho e o estreito de Magalhães. Seu título original é “Roteiro de todos os sinais, conhecimentos, fundos, alturas e derrotas que há na costa do Brasil desde o cabo de Santo Agostinho até o estreito de Fernão de Magalhães”. Tendo sido encontrado na Biblioteca da Ajuda, em Lisboa, ele ficou conhecido como “Roteiro da Ajuda”. A obra integra um roteiro manuscrito da costa atlântica da América do Sul e treze cartas e plantas coloridas de núcleos urbanos. Consta também de uma carta naval da América do Sul com uma grande legenda em seu canto superior esquerdo.

Segundo Jaime Cortesão em outro livro (“História do Brasil nos velhos mapas”, 2 volumes. Rio de Janeiro: Ministério das Relações Exteriores, 1965) “… a carta geral de Luís Teixeira, que devemos datar de cerca de1586, representa não só um grande avanço sobre a carta de Bartolomeu Velho, mas ficou pertencendo ao número dos mais notáveis monumentos da cartografia portuguesa de Quinhentos.”

Para o almirante Max Justo Guedes, reconhecido especialista em cartografia, parece não haver dúvida de que o roteiro foi escrito pelo cartógrafo entre 1573 e 1578, acompanhado de desenhos de 1586. O conjunto de texto e mapas foi publicado no Brasil com o título simplificado de “Roteiro de todos os sinais na costa do Brasil” (Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1968) como homenagem ao quinto centenário de nascimento de Pedro Álvares Cabral. A publicação foi fac-similada, com a reprodução em letras atuais ao lado do original manuscrito, o que torna difícil a leitura por quem não conheça minimamente a grafia portuguesa do século XVI. Auxiliam muito os comentários de Max Justo Guedes.

Em dois momentos, Luís Teixeira topa com manguezais em seu roteiro. O primeiro foi na baía de Todos os Santos. Eis o que ele escreve: “Tem alguns baixos (…) e dela àBahia são três léguas a oeste/sudoeste e entrando nesta ponta que digo for ficando ao norte, verei que a terra da outra banda do sul são muitos mangues que parecem estar no mar e me irá fugindo a terra e escondendo-se.” (transcrevi para o português atual de modo facilitar a leitura). Max Justo Guedes comenta: “Diz o ‘Roteiro – DHN’: ‘corre a extremidade N da ilha Tinharé, denominada morro de São Paulo, que é alto, escarpado e termina por uma barreira que desce quase verticalmente sobre a terra baixa que se prolonga para o N e para o W… Pela sua posição e facilidade de reconhecimento é esse morro a melhor marca para quem demanda a baía de Todos os Santos, vindo do S; ele se destaca nitidamente da costa sobre a qual se projeta, por ser esta muito mais baixa e afastada para W.’”

Luís Teixeira deixa claro que o manguezal representa uma dificuldade para a navegação na medida em que esconde a terra. Por esse motivo, deveria haver mais registros dele nos roteiros escritos e na cartografia. Pela carta que o navegador deixou da baía de Todos os Santos, pode-se presumir que as árvores desenhadas junto à costa representem manguezais, mas não se pode afiançar com certeza a representação desse registro. Na carta anexa, Teixeira desenha árvores dentro do mar, reforçando a conclusão de que ele se refere a plantas de mangue. Particularmente, chama a atenção a ilha do Medo, logo acima da ilha de Itaparica, toda ela coberta de árvores. O medo adviria da sua cobertura por manguezal, que dificulta a identificação de terra.

Podemos fazer uma extrapolação para a cartografia ocidental da expansão europeia na África, Ásia e América. Embora a palavra que indica mangue e manguezal nas diversas línguas faladas e escritas na Europa seja diferente, árvores na orla de continentes e ilhas e no mar indicariam a presença de manguezais.

Passando em Ilhéus, Luís Teixeira escreve: “Que bom conhecimento tem muitosmangues rasteiros e baixos junto com o mar.” Max Justo Guedes e o ‘Roteiro – DHN’ (Marinha do Brasil. Roteiro do Brasil. Diretoria de Hidrografia e Navegação. Parte I, 1965; Parte III, 1958. Rio de Janeiro) apenas atentam para a topografia nos seus comentários: “São as elevações ao sul da ponta Tromba Grande, assim descritas no ‘Roteiro – DHN’: ‘Do cabo Tromba Grande até a foz do rio Cachoeira (Ilhéus) a costa… é alta e apresenta largas pontas talhadas a pique…’”.

Até a década de 1960, a Marinha parecia não se importar com os manguezais, que orlam a maior parte da costa brasileira e devem ser considerados importantes para a navegação. Na carta correspondente a Ilheus, as árvores não aparecem com a mesma abundância vista na carta da baía de Todos os Santos, mas certas áreas escuras na costa e nas ilhas podem indicar a presença de manguezais.

Ilhéus – Carta de Luís Teixeira
Ilhéus – Carta de Luís Teixeira

Luís Teixeira não foi o primeiro nem seria o último a redigir um roteiro de navegação para enriquecer a cartografia. No século XVII, encontraremos um roteiro semelhante escrito por Johannes de Laet durante a dominação holandesa do nordeste do Brasil, entre 1630 e 1654. O manguezal também aparecerá nele, mas de maneira mais breve.

*Arthur Soffiati é pesquisador e historiador ambiental 

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