Magalhães Corrêa e os manguezais de baía de Guanabara

Pescador perto de mangue, ilustração
Pescador perto de um exemplar de mangue vermelho com propágulos. Desenho de Magalhães Corrêa

Por Arthur Soffiati

De todos os cronistas do Rio de Janeiro, Armando de Magalhães Corrêa foi o mais sensível ao mundo natural. José de Alencar, Machado de Assis, Lima Barreto, João do Rio, Gastão Cruls e Gilberto Ferrez são os mais conhecidos cantores da cidade. Por mais geniais que tenham sido, nenhum olhava para a natureza com tanta sensibilidade como Magalhães Corrêa. E ele tinha uma vantagem sobre os outros: também desenhava com primor. Assim, ele retrata a cidade, a baía de Guanabara e a ainda pouco explorada Barra da Tijuca, que ele chamava de sertão carioca.

Magalhães Corrêa escreveu e desenhou originalmente artigos ilustrados para a imprensa carioca, notadamente para o Correio da Manhã. Reunidas, essas crônicas resultaram em três livros: “Sertão carioca”, “Terra carioca” e “Águas cariocas”. Antônio Carlos Pinto Vieira reuniu e organizou as crônicas sobre a baía da Guanabara. Assim, chegou aos estudiosos e aos amantes do Rio de Janeiro, “Águas cariocas: a Guanabara como natureza” (Rio de Janeiro: Outras Letras, 2016). O livro nasce da reunião de crônicas da série ilhas da Guanabara.

Armando Magalhães Corrêa nasceu em 1889 e morreu em 1944. Seu trabalho é uma prova eloquente de que a cidade do Rio de Janeiro era mais bela, mais romântica e, no meu entender, melhor para se viver no tempo em que o cronista circulou por ela. Ainda alcancei o fim desse tempo. Ele participou da “Primeira Conferência Brasileira de Proteção à Natureza”, em 1934, embora escultor e desenhista. Não há impedimento. Qualquer pessoa com qualquer formação pode ser sensível à natureza.

Nas crônicas de “Águas cariocas”, ele contabilizou 85 ilhas e ilhotas dentro da baía da Guanabara e distribuídas entre o então Distrito Federal e o Estado do Rio de Janeiro. Por suas descrições, as ilhas eram lindas. Algumas contavam com prédios construídos e com assentamentos humanos onde moravam escritores, músicos e artistas.

Manguezal na Baia de Guanabara
Espécies de mangue encontrados na baía da Guanabara em registro de Magalhães Corrêa

Atento à natureza presente nas ilhas, Magalhães Corrêa é um dos poucos autores a ter olhos para os manguezais, ecossistema que, muitas vezes, passava despercebido de cientistas. Na crônica intitulada “Matamarítima”, publicada no “Correio da Manhã”, em 22 de março de 1936, ele escreveu:

“A mata marítima da Guanabara é formada por três variedades de mangues: mangue branco ou sapateiro (“Laguncularia racemosa”), da família das Combretáceas, árvore que chega a ter de seis a sete metros, cuja madeira serve para traves, caibros, vigotes, moirões, lenha e carvão; a sua casca contém 14% de tanino e 13% as folhas, servindo tudo para o curtume. O seu habitat é onde predomina a água salobra e nas embocaduras dos rios.”

desenho da floresta marítima por Magalhães Correa
A floresta marítima em bico-de-pena de Magalhães Corrêa

“O mangue amarelo ou siriba ou siruba (“Avicennia tomentosa”), da família das Verbenáceas. Siriúba, corruptela de siri-yba – árvore dos siris, cresce nos mangues onde abundam os caranguejos (“Ucides cordatus”) que por ela sobem; também é encontrada nos alagados e mesmo penetrando pelos rios adentro.A altura regula a da precedente, dando madeira que se aproveita em construção naval, carpintaria, boa lenha e carvão; as folhas são taníferas que servem para o curtume”.

Não cobremos precisão do artista. Apenas observemos que o caranguejo trepador de árvores de mangue é o aratu (“Goniopsis cruentata”) e não o uçá. O mangue siriba ou siribeira da baía da Guanabara recebe o nome científico de “Avicennia schaueriana” atualmente. Sua distribuição começa no rio das Ostras, Estado do Rio de Janeiro, e se estende até o limite sul dos manguezais, em Santa Catarina.

Tronco de mangue desenho de Magalhães Correa
Aratus no tronco de mangue vermelho, por Magalhães Corrêa

“O mangue vermelho ou verdadeiro (“Rhizophora mangle”) da família das Rizoforáceas, o nome vem do seu principal gênero “Rhizophora”, “rhiza” do grego raiz e “fero”, trazer, por causa do grande número de grossas raízes adventícias (…) Árvore de 15 metros de alto, no máximo; contém cinco vezes mais tanino que a casca do carvalho. A casca produz 31%, os frutos 16%, tanto uma como a outra servem para o curtume.Os frutos são comestíveis; fermentados dão uma bebida espirituosa, apreciada pelos nossos índios.Fornece matéria corante parda e, com sais de ferro, forma tinta preta preciosa. Tinge de marrom escuro e preserva as redes de pesca. A madeira é empregada em construção civil, dá ótima lenha e carvão, e é usada na defumação do pescado. É adstringente”.

Embora o cientista Frederico W. Freise tenha feito uma defesa enfática da sua importância para a pesca na “Primeira Conferência Brasileira de Proteção à Natureza”, o manguezal não era devidamente considerado pela comunidade científica. Magalhães Corrêa tem uma sensibilidade tão aguda para os manguezais quanto Pedro Soares Caldeira em fins do século XIX. Ambos defendem um tipo de ecossistema não apenas desprezado na época, como também evitado e repelido por sua fama de insalubridade.

Lendo a crônica de Magalhães Corrêa sobre a mata marítima, nota-se que ele vê o manguezal de forma utilitarista, sobretudo como fornecedor de madeira e de tanino. Seria pedir demais que seu olhar fosse, na década de 1930, semelhante ao de Caldeira, na década de 1880 porque a visão desse jornalista do século XIX é ímpar.

Folhas de mangue vermelho desenho de Magalhães Corres
Detalhes de folhas, flores e propágulos de mangue vermelho em bico-de-pena de Magalhães Corrêa

Prosseguindo, Magalhães Corrêa lembra que “… em 1887, um decreto proibia a sua [do manguezal] derribada com severas penalidades. Na República, o Decreto n° 56, de 24 de novembro de 1893 ‘proíbe, em todos os domínios da municipalidade do Distrito Federal, o corte ou destruição, por qualquer modo, realizado nas árvores denominadas ‘mangue’, e dá outras providências. O Decreto n° 14.596, de 31 de dezembro de 1920 – Artigo I°, parágrafo primeiro, determinava: ‘Uma faixa de 33 metros ao longo da costa e das margens dos rios atingidos por maré, na qual será absolutamente proibida, sob qualquer forma, a utilização do mangue’”. Tratava-se de uma legislação bastante genérica que considerava mais os terrenos de marinha que os manguezais. Ela não foi observada. Nem mesmo a legislação mais recente, que defende os manguezais em si, é respeitada.

E ele encerra sua crônica, alertando para uma situação que conhecemos muito bem: “Atualmente vai tudo raso, em nome do turismo e do progresso, sem consultar os interesses locais, natureza do terreno e sem mesmo respeitar o refúgio da nossa fauna guanabarina, já tão perseguida. (…) do Retiro Saudoso a Benfica numa extensão de 10 quilômetros, destruído em parte pela Prefeitura, para despejo do lixo da cidade.” Esse é o quadro que observamos hoje nos manguezais da orla e das ilhas da baía de Guanabara, só que muito mais acentuado.

Arthur Soffiati é pesquisador e historiador ambiental