Claro enigma – OPINIÃO | ARTHUR SOFFIATI

ARTHUR SOFFIATI
Plantei três espécies de mangue em garrafas pet a partir de suas sementes
(propágulos). Uma delas, a siribeira de folha estreita (Avicennia germinans), expele sal
pela parte de cima das folhas. Na minha casa, a semente se transformou numa bela e
sadia muda (plântula). Rego-a com água doce desde o plantio, mas as folhas
continuam expelindo sal em quantidade menor que a planta no seu ambiente nativo.
De onde viria o sal expelido pela muda da minha casa? Será que ele está presente na
água doce em proporções mínimas e dela a planta o extrai?
Os biólogos se interessam pelo manguezal apenas na sua condição de bosque
e na sua normalidade. Um pé de mangue apenas em ambiente natural não lhes diz
nada. A mim, diz muito. Se uma planta cresce em algum lugar, é sinal de que aquele
ambiente comporta um manguezal potencial. Um manguezal invisível que pode se
tornar visível.
No sul do Espírito Santo, existem córregos que cortam os tabuleiros e
alcançam o mar. Ou alcançavam no passado. A maioria está barrada. Vários se
tornaram secos. Outros perderam sua ligação superficial com o mar por não terem
mais força de enfrentá-lo. No entanto, em quase todos eles, existem plantas
exclusivas de manguezal. Num deles, a lagoa do Siri, desenvolveu-se um bosque
monodominante de mangue vermelho. Por que as outras espécies morreram ou se
resumiram a alguns exemplares esparsos apenas? O regime hídrico é irregular. A
lagoa fica vazia quando a barra é aberta mecanicamente. Se isso não acontece, o
nível da lagoa se estabiliza e afoga o sistema respiratório do mangue vermelho. Ele é
constituído por poros (lenticelas) nas ramificações do caule. Os poros estão se
deslocando para a parte emersa dessas ramificações. Nenhum biólogo está
interessado em estudar esse bosque ou me dar uma explicação.
Lagoa do Siri (ES). Na frente, bosque monodominante de mangue vermelho; no fundo, monocultura de coqueiros
Esse tipo de lagoa também existe nos tabuleiros e nas restingas do norte do
Estado do Rio de Janeiro. Numa delas – a de Buena –, uma empresa de mineração
barrou a foz com um alto dique para impedir a entrada das marés e para permitir a
acumulação de água doce com fins de lavagem do material minerado. No alto do
dique, foram instalados canos para que a água doce acumulada vertesse para o mar a
fio d’água, regulando assim o seu nível e volume.
Logo que a água doce começou a se acumular e a afogar o manguezal
formado apenas por mangue vermelho e branco, este – o branco – lançou
rapidamente uma touceira de raízes que deveriam crescer para baixo da terra e, de lá,
emitir raízes respiratórias (pneumatóforos), que rompem a superfície do substrato para
colher ar quando das marés baixas. Como as marés foram impedidas pela barragem e
a lâmina d’água afogou os poucos exemplares de mangue branco, eles lançaram
raízes acima do nível da água doce para que, delas, saíssem as raízes respiratórias,
permitindo, assim, sobrevida às plantas.

Lagoa de Buena (RJ). Exemplar de mangue branco emitindo pneumatóforo de raiz que normalmente cresce no subsolo
As atuais lagoas de restinga de Gruçaí, Iquipari e Açu também abriam suas
barras naturalmente com a força da água doce. Quando os sistemas hídricos foram alterados por obras de drenagem, as barras se estabilizaram e passaram a ser abertas
apenas de forma mecânica. Concluí que as três contavam com pelo menos três
espécies exclusivas de mangue. A terceira conta ainda com o mangue de botão
(Conocarpus erectus). Mas as três espécies sobrevivem com adaptações, como se
houvesse nelas um kit de sobrevivência embutido. As três mostram sinais de estresse.
Na primeira, resiste apenas o mangue branco. Na segunda, encontrei também poucas
árvores de mangue vermelho sofrendo de nanismo. Na terceira, a siribeira escasseia
pouco a pouco. O bosque de mangue vermelho junto à barra cresce de forma
acachapada. O mangue branco é encontrado em bosques expressivos em pontos
distantes da barra, já que a lagoa tem o formato comprido, pois se trata do que sobrou
do rio Iguaçu no seu trecho final. Mas o mangue branco sobrevive em condições de
estresse.
Lagoa do Açu: bosque de mangue vermelho com desenvolvimento anômalo
Lagoa do Açu: exemplar de mangue branco estressado por afogamento do sistema respiratório
Numa antiga carta, de 23/04/2001, a professora Yara Schaeffer-Novelli, uma
das maiores conhecedoras de manguezais no Brasil e no mundo, teve a gentileza de
me explicar esse tipo de manguezal: “Muitas vezes esses ‘fenômenos’ estão ligados à
formação de meandros capturados, fazendo com que o bosque de mangue – outrora
ribeirinho (em termos de energias subsidiárias) -, passa a ser um bosque
‘encapsulado’. O termo mais adequado seria mesmo bacia, pois, quanto às trocas
energéticas, esse bosque passa a exportar matéria orgânica dissolvida (e não mais
particulada) e a importação passa a ficar na dependência das drenagens terrestres,
chuvas e, quem sabe, um que outro transbordamento dos rios mais próximos.” Com
relação a comportamentos anômalos de manguezal, também encontrei um artigo de
Lugo, Cintrón e Goenaga (El ecosistema del manglar bajo tensión. Anales del
Seminario sobre el Estudio Científico e Impacto Humano en el Ecosistema de
Manglares. Cali, Colômbia: Unesco, 1980).
Pelo que entendi, um pequeno curso d’água em situação normal, com barra
aberta regularmente para o mar, permanente ou periódica, cria um estuário com
condições adequadas para o crescimento de um manguezal, por menor que seja.
Assim, ele funciona como um manguezal ribeirinho em que a matéria orgânica
derivada das árvores cai dos galhos, é particulada e exportada para o mar pelo vai e
vem das marés, transformado em alimentos para animais aquáticos de água doce,
estuarinos e de água salgada. No entanto, se a barra é fechada por alguma
intervenção natural ou antrópica, as marés não penetram mais no rio. A matéria
orgânica se dissolve pelo tempo em que fica no interior do curso d’água barrado e
alagoado. Quando a barra se abre mecanicamente ou a água do rio transborda para o
mar, essa matéria orgânica dissolvida cai na água marinha. Retenho esse
ensinamento há quase vinte anos. Porém, devo confessar que pensei no manguezal
encapsulado como um quarto tipo fisiográfico, ao lado do clássico manguezal
ribeirinho (o mais comum), o de bacia e o de franja ou borda.
Mas não é apenas a anomalia de manguezais encapsulados que encontro
como enigma. No rio Macaé, deparei-me com exemplares de siribeira com raízes
respiratórias emitidas há cerca de 4 metros do solo. O rio funciona normalmente.
Quando a maré sobe, a base das árvores fica afogada até que a maré baixe. Mostrei
esse fenômeno a minha saudosa amiga Norma Crud, que concluiu derivar a anomalia
de óleo de barcos pesqueiros e do aeroporto próximo. O óleo vai para o mar com a descida das marés, mas volta quando elas sobem, cobrindo as raízes respiratórias
normais. Não podendo mais respirar normalmente, a planta dispara o mecanismo de
sobrevivência, lançando raízes respiratórias bastante acima do nível das marés
(MACIEL, Norma Crud e SOFFIATI NETTO, Aristides Arthur. Raízes aéreas em
Avicennia germinans (L.) Stern. – Avicenniaceae, com emissão de subpneumatóforos.
Rio Macaé, Macaé, RJ, Brasil. Anais do IV Simpósio de Ecossistemas Brasileiros vol.
IV. São Paulo: Academia de Ciências do Estado de São Paulo, 1998).
Exemplar de siribeira no rio Macaé com raízes anômalas emitidas do caule
A siribeira de folha estreita (Avicennia germinans) tem seu limite setentrional de dispersão na Flórida, Estados Unidos, na latitude 29° 53' N, segundo os estudiosos
Jorge A. Jiménez e Ariel E. Lugo. Os mesmos autores situaram seu limite meridional no Espirito Santo, Brasil, na latitude aproximada de 23° S (JIMENEZ, Jorge A. e LUGO, Ariel E. Avicennia germinans (L) L. Black mangrove. United State Forest Service Silviculture n. 4, 1985). Mais tarde, um relatório da antiga Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente (FEEMA. Relatório técnico sobre manguezal. RT
1123. Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente: Rio de Janeiro, 1980) alargou esse limite para o rio Paraíba do Sul (21º 36’ S). Pesquisando os manguezais do norte do Estado do Rio de Janeiro, encontrei essa espécie no rio Macaé (22º 21’ S). Norma Crud fez o registro do novo ponto de distribuição meridional num artigo
(MACIEL, Norma Crud e SOFFIATI NETTO, Aristides Arthur. Novos limites para a
distribuição geográfica de Avicennia germinans (L.) Stern – Avicenniaceae e
Montrichardia arborecens (L.) Schott – Araceae, no Rio de Janeiro, Brasil. Simpósio de
ecossistemas brasileiros, 4., Águas de Lindóia, São Paulo, 02 a 07 de abril de 1998.
Anais. Águas de Lindóia, SP: ACIESP, 1998).
Caminhando poucos quilômetros ao sul, no rio das Ostras, não encontrei mais
a espécie. A partir desse rio (22º 32’), a espécie do gênero é a Avicennia schaueriana.
Andei perguntando a vários pesquisadores de manguezais ao sul do rio Macaé. Até
agora, a resposta tem sido unânime: Avicennia germinans não ocorre ao sul do rio
Macaé, mas a Avicennia schaueriana sim. Os especialistas se contentam em registrar
os limites, mas não em explicar os fatores limitantes das espécies.
Logo ao sul do rio das Ostras, encontrei árvores de mangue branco sobre um
costão rochoso. Elas estavam caídas por falta de substrato, mas ainda minimamente
enraizadas e vivas. Estavam florescendo e lançando sementes (propágulos) que
também germinavam em pequenas locas na pedra. Imaginei que uma ressaca lançou
as sementes no topo do costão. Algumas encontraram concavidades com um pouco
de terra e germinaram a ponto de se reproduzirem. Fiquei fascinado com o espetáculo.
Relatei-o a especialistas, mas eles não me deram atenção.
Mais ao sul, na Praia Rasa, em Búzios, existe um manguezal de borda ou de
franja (que se desenvolve em ilhas e praias sem que haja necessariamente uma fonte
de água doce na sua retaguarda). Trata-se do famoso Mangue de Pedra. Ensinam os
livros que as espécies mais encontradas nos manguezais de borda ou de franja fazem
parte do gênero Rhizophora, o popular mangue vermelho, por ter nas suas
ramificações do caule um bom suporte para ambientes hostis.
Na costa de Búzios, aliás, existem cinco manguezais. Três são do tipo
fisiográfico de borda: o mangue de pedra, o mangue da ponta da Sapata e o mangue
da praia da Foca. Em todos, as duas espécies são o mangue branco e a siribeira de
folha larga. No mangue da praia da Foca só existe a siribeira de folha larga e todos os
exemplares são pequenos porque o espaço é exíguo e a energia marinha é muito
forte. No Mangue de Pedra, estudos demonstram que existe uma cisterna em sua
retaguarda formada por uma colina da Formação Barreiras que lhe fornece água doce,
funcionando como um rio difuso. Por sua vez, os mangues da Barrinha e de
Manguinhos são tipicamente ribeirinhos, acompanhando as margens de dois córregos
diminutos e bastante adulterados.
Búzios. Mangue branco e mangue preto no Manguezal de Pedra
Mudando completamente de lugar, passo para a ilha de Marajó, que visitei em
outubro de 2018. Antes de comentar minha experiência com os manguezais do
estuário do rio Amazonas, creio que três observações devem preceder meus
comentários. Primeira: o manguezal é um típico ecossistema intertropical cujas
árvores apresentam maior desenvolvimento onde a energia solar é mais intensa.
Assim, no Equador, as árvores são incrivelmente altas. Segunda: nas proximidades do
Equador, a amplitude de marés é maior que em outras partes do planeta. Amplitude é
a diferença entre a maré baixa e a maré alta. No Maranhão, a amplitude chega a
alcançar 8 metros. Terceira: o rio Amazonas é o maior do mundo em extensão e em
volume. Assim, seu estuário (ponto em que a água doce se encontra com a água do
mar e se torna salobra) atinge dimensões descomunais e se revela muito complexo.
Além de se constituir de árvores altas, os manguezais ocupam extensas áreas
e se organizam na forma ribeirinha ou de bacia. Mas há também manguezais de
borda. Deve-se levar em conta, neste último tipo, que a borda das ilhas formadoras do
arquipélago de Marajó faz parte das margens do grande rio. Assim, a rigor, os
manguezais de borda são ribeirinhos.
Como as águas salobras se alastram por grandes áreas, os manguezais
encontram condições favoráveis a quilômetros da costa. A ilha é baixa, com o máximo
de 15 metros de altura. Existem depressões naturais onde a água das marés fica
presa, formando lagos. Os manguezais crescem nesses lagos. Quando as marés
recuam, a água fica represada. Não há tempo para que elas sejam evaporadas entre
duas marés altas. As plantas de mangue ficam, portanto, afogadas permanentemente.
Talvez esta característica explique a monodominância do mangue vermelho, que pode
deslocar seus poros respiratórios (lenticelas) acima do nível da água.
Ilha de Marajó. Bosque de mangue vermelho, formando um manguezal de bacia
O mangue vermelho também se dispõe na costa como um manguezal de
franja, quase sempre acompanhado da siribeira. A ocorrência do mangue branco é
pequena. Avistei-o com mais frequência nas margens de igarapés.
Ilha de Marajó. Manguezal ribeirinho com aparência de manguezal de borda
Nos amplos espaços da Amazônia, é difícil encontrar ambientes inicialmente
próprios para o desenvolvimento de manguezais que, ulteriormente, tornam-se impróprios.
O único caso que me pareceu anômalo foi o de uma siribeira isolada
emitindo raízes aéreas ao lado de raízes respiratórias.

Ilha de Marajó. Exemplar de siribeira com raízes respiratórias e raízes anômalas
Nos setores do imenso estuário onde as águas sofrem mais influência do rio,
dominam grandes populações de aninga, espécie associada ao manguezal e não
exclusiva dele.
Baía de Guajará. População de aninga (Montrichardia arborescens)
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