A humanidade e os manguezais antes do ocidente V: Civilizações africanas e Polinésia

Manguezal na Africa
Manguezal na costa atlântica da África

Por Arthur Soffiati

Na abordagem de civilizações anteriores ou exteriores à civilização ocidental cristã, da qual a Europa moderna emergiu, expandindo-se por todo o planeta a partir do século XV, os estudiosos costumam usar noções ocidentais para outros povos. Não existiram estados e impérios como os conhecemos no ocidente. Existe também muita confusão entre culturas paleolíticas e neolíticas com culturas civilizadas. Quase sempre se confunda também estado, império e cultura. Deixemos claro, pois, que cultura é a realidade mais geral. Podemos reconhecer uma cultura por suas manifestações mentais e materias. Aliás, a cultura é, antes de tudo, mental. As manifestações materiais expresam as mentalidades. Assim, os arqueólogos deveriam partir dos restos materiais para tentar a reconstituição, de forma mais ampla possível, da cultura material e desta para a reconstituição cultura mental.

Por mais que nos últimos cinquenta anos tenham sido publicados estudos sobre as civilizações africanas, elas continuam bastante desconhecidas[1]. A escravidão de negros africanos lançou sobre o continente a pecha de que negros escravizáveis não poderiam criar uma civilização. Existe também um fator de ordem cultural que dificulta o estudo das civilizações africanas: a interferência cristã dos primeiros tempos e a do islamismo a partir do século VII. É muito comum também pensar-se logo na civilização egípcia quando se fala em civilizações africanas. Para os fins desta parte, deixemos claro que: 1-  a civilização egípcia e seu satélite meroítico ou sudanês deixaram de ser criativos no século I da era cristã; 2- Cartago, como cidade independente da civilização siríaca (a Fenícia pertencia a essa civilização e colonizou vários pontos do Mediterrâneo), ao que tudo indica, colonizou pontos da África ocidental fora do Mediterrâneo e da Europa atlântica, como mostram os Périplos Hanon e de Avieno[2]. A civilização helênica, por meio do império romano também dominou o norte da África, mas não fez incursões profundas no continente.

Quanto aos manguezais, eles se arraigaram na costa índica da África entre o mar Vermelho e o trópico de Capricórnio e, na costa atlântica, na mesma latitude. As espécies da costa atlântica da África são quase as mesmas da costa da América. Infelizmente, as informações das culturas sobre manguezais são muito escassas, talvez por se tratar de um ecossitema muito familiar ou desprezado.

Civilizações da África oriental. Já tendo abordado as civilizações egípcia e meroítica, resta-nos a civilização cristã monofisista. Nos primeiros tempos do Cristianismo, houve muita discussão sobre a natureza de Cristo. Surgiram distintas interpretações. Para os seguidores do teólogo Ário, Jesus era totalmente humano e não Deus encarnado. Eutiques e seus seguidores sustentavam que Jesus apresentava apenas natureza divina, concepção que evoluiu para o monofisismo/miafisismo, segundo a qual as naturezas divina e humana de Jesus estão unidas de tal forma que não é possível distingui-las. Nestório, patriarca de Constantinopla, conseguiu muitos adeptos ao afirmar que as duas naturezas de Cristo estão separadas. O catolicismo, acreditando que as duas naturezas de Cristo – humana e divina – estão ligadas intrinsicamente pela união hipostática, ou seja, Jesus tem duas natureza, humana e divina ao mesmo tempo.

Pelos Concílios Ecumênicos de Niceia (325), Constantinopla (381), Éfeso (431), Calcedônia (451), segundo de Constantinopla (553), terceiro de Constantinopla (681), segundo de Niceia (787) toda essa discussão bizantina, que hoje não tem mais sentido, o catolicismo apostólico romano saiu vitorioso. Os nestorianos refugiaram-se no Oriente Médio, chegando até o Japão,  e os monofistas fixaram-se no Egito e na Etiópia. Posteriormente dividiram-se em várias igrejas independentes.

O nestorianismo hoje é representado pela Igreja Assíria do Oriente e pela Igreja Sírio-Caldeia do Oriente. Toynbee considerou o nestorianismo uma convicção cristã contida pelo islamismo em sua expansão[3].

O monofisismo, por sua vez, fixou-se no Egito e na Etiópia, tendo desenvolvimento próprio. Toynbee entende que o monofisismo sofreu fraco estímulo do islamismo e não cresceu, processo contrário ao sofrido pelo nestorianismo. Tanto este quanto o monofisismo mantiveram contato com manguezais, mas nenhuma planta deste ecossistema foi representada pelas duas tradições. O cristianismo, em seu humanismo acentuado, se importou muito pouco com a natureza. Todas as suas denominações são também indiferentes à natureza. Na Etiópia, o contato com os manguezais foi constante.

Concepção pictórica da ortodoxia etíope

 Civilizações da África ocidental. Sob essa denominação, Toynbee designa uma série de culturas sobrepostas no tempo e talvez relacionadas entre si, ainda não suficientemente conhecidas para uma análise individualizada de cada uma[4]. Parece que a matriz dessas civilizações foi a cultura de Nok, cuja existência se estendeu de 900 a. C. a 200 d. C. Entre tais civilizações, encontra-se a de Benin, que se alastrou por terras hoje correspondentes à Nigéria. Ela se desenvolveu antes da chegada dos muçulmanos e dos europeus, embora estes tenham ainda alcançado sua imponência. Sua arte manifestou-se na argila, no cobre e no Bronze.

Área ocupada pela civilização de Benin

A cultura Benin, difundida por uma grande área através de aldeias acabou se unindo num grande império conhecido como Benin ou Edo, tendo existido entre 1440 e1897. Foi um grande estado africano pré-colonial. A cidade de Ubini foi fundada em 1180, sinal de que a cultura benin já existia antes de europeus e islâmicos. Prova também que os povos africanos são capazes de criar culturas materiais complexas.

Na parte meridional, o império era banhado pelo oceano Atlântico onde desemboca o rio Niger. O comércio marítimo era intenso. Em área intertropical, os manguezais se desenvolviam pujantes. Contudo, não há registo nessa cultura desse ecossistema.

 

Três jovens: Civilização de Benin, século XVI ou XVII

A civilização de Gana não teve contato direto com o Atlântico. A do Mali estendeu-se até a costa africana. Sua arquitetura é monumental.

Arquitetura da civilização do Mali

 

Área de expansão da civilização do Mali

Civilização da África meridional. Nessa parte do continente, floresceu a grande civilização de Zimbabue. A arquitetura de pedra é a sua grande marca. Como, no passado, não havia fronteiras rígidas, o império de Zimbabue (1220-1450) deve ter alcançado as costas do Índico, onde atualmente existe o estado nacional de Moçambique. A civilização de Zimbabue deve ter mantido contato com manguezais.

Ruínas de pedra da civilização do Zimbabue

Civilização polinésia. Durante muito tempo, Arnold Toynbee classificou algumas civilizações como estagnadas. Diferentemente das civilizações abortadas e desenvolvidas, as estagnadas eram aquelas que deram uma resposta criativa ao desafio de um ambiente natural forte. Os dois exemplos mais conhecidos em sua obra eram as culturas dos esquimós e dos polinésios. No caso dos primeiros, o desafio a ser enfrentado por uma sociedade foi o frio do Ártico. A resposta foi a criação de equipamentos sofisticados para viver num ambiente hostil. Quanto aos polinésios, as pequenas ilhas, quase sempre vulcânicas e cercadas de corais, colocaram os grupos humanos diante do mar como fonte de alimentação. A resposta foi o desenvolvimento de uma arquitetura apropriada ao meio, embarcações adequadas para singrar a grande extensão do oceano Pacífico, a técnicas de navegação, de orientação e de pesca. Ele ainda classificou as culturas das estepes da Ásia central como resultante de um desafio natural que ao mesmo tempo estimula e paralisa. Do ponto de vista social, os desafios enfrentados pelos espartanos e pelos turcos otomanos também produziram respostas criativas que não puderam se desenvolver[5].

Sucede que as respostas criadas para responder ao desafio oferecido pelo ambiente continuavam existindo, o que levava as sociedades a lutar permanentemente contra ele. Assim, elas não podiam passar a estádios ulteriores. A concepção fascina, mas não há como sustentar, em história, que as sociedades consideradas estagnadas por Toynbee alcançariam patamares adiante. Não há como usar a condicional em história.

Manguezal nas ilhas Fiji – Polinésia

Os esquimós, os povos das estepes euroasiáticas, os espartanos e os turcos ocuparam regiões do planeta que não apresentam condições apropriadas para os manguezais. Não assim com os polinésios. As espécies de mangue fixaram-se nas pequenas ilhas e navegaram tanto quanto eles. Certamente, trata-se de um tipo de vegetação conhecida por eles. Mas não temos registros desse conhecimento, principalmente por desconhecerem eles a escrita e não desenharem cartas náuticas, já que seu conhecimento sobre navegação era passado de geração em geração pelo costume. A globalização parcial dos polinésios se estendeu da Nova Zelândia à Ilha de Páscoa.

Expansão dos polinésios

[1] O texto-base para a abordagem das civilizações africanas utilizado aqui é Vários autores. História geral da África, 3ª edição 8 volumes. São Paulo: Cortez; Brasília: UNESCO, 2011.

[2] Périplo de Hanão com estudo introdutório, tradução do grego e notas de Victor Jabuille. Lisboa: Editorial Inquérito, 1994; Avieno. Orla marítima. Introdução, tradução do latim e notas de José Ribeiro Ferreira. Coimbra: Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos da Universidade de Coimbra, 1985.

[3]TOYNBEE, Arnold Joseph. Estudio de la história, volumen III. Buenos Aires: Emecé Editores, 1961.

[4]TOYNBEE, Arnold Joseph. Um estudo da história. Brasília: Editora Universidade de Brasília/São Paulo: Martins Fontes, 1986.

[5] TOYNBEE, Arnold J. Estudio de la história volume III. Buenos Aires: Emecé, 1953.