Visitantes Ilustres do Litoral Brasileiro

Pinguim-de-Magalhães (Spheniscus magellanicus)


Os pinguins são aves marinhas perfeitamente adaptadas à vida na água. Durante sua evolução, suas asas modificaram-se e transformaram-se em nadadeiras, atuando como remos durante seus deslocamentos. Dessa forma, podem nadar com grande agilidade e rapidez, atingindo velocidades de até 40 km/h. Quando se deslocam no mar, saltam fora d’água como os golfinhos e aproveitam o espaço entre as ondas para diminuir o atrito com a água e também para respirar.

Existem 17 espécies de pinguins, mas ao contrário do que pensamos, nem todas habitam regiões frias. A maioria vive em latitudes onde não existe gelo no mar, como é o caso do pinguim-de-Galápagos (Spheniscus mendiculus), que vive exclusivamente nas Ilhas Galápagos, na latitude do Equador, isto é, na mesma latitude da região norte da Amazônia brasileira.

A costa brasileira recebe todos os anos, nos meses de inverno, visitantes ilustres que podem ser vistos com facilidade nas praias. São os pinguins, aves marinhas de pequeno porte, que acabam chamando a atenção das pessoas que passam por esses locais. Os pinguins são aves marinhas encontradas em regiões frias no extremo sul do Hemisfério Sul, como por exemplo, o litoral da Patagônia, no sul da Argentina, onde formam colônias reprodutivas de milhares de indivíduos. A espécie mais comum em nossas águas é o pinguim-de-Magalhães (Spheniscus magellanicus), encontrado desde o litoral sul até a costa do Estado Rio de Janeiro. Eles são encontrados ao longo de toda a costa da Patagônia, na Argentina, e nas Ilhas Malvinas (no Oceano Atlântico), além da Ilha de Santa Maria, no Chile (no Oceano Pacífico).

Todos os anos, nos meses de inverno, um grande número desses animais chega às praias das regiões sul e sudeste do Brasil, principalmente nas praias do Estado do Rio Grande do Sul e, com freqüência, nas praias do Estado do Rio de Janeiro. Esse fato ocorre principalmente nessa época do ano, devido à influência da forte Corrente das Malvinas, que carrega esses animais para longe da costa (em sentido sul-norte), quando os mesmos movem-se em direção ao mar à procura de alimento, se afastando dessa forma, de terra firme. Quando já estão muito longe da costa, esses animais, já bastante fracos e incapazes de nadar de volta, deixam-se levar pelas correntes, pois não tem força suficiente para nadar contra elas. Muitos chegam à costa brasileira, magros, debilitados e com poucas penas no corpo, decorrentes da falta de alimentação, de doenças e do grande esforço físico empregado na jornada que tiveram que enfrentar. Alguns ainda chegam com mordidas de tubarões e orcas, que encontram ao longo de sua área de travessia, entre o extremo sul do Hemisfério Sul e a costa brasileira.

Curiosidades

Praticamente todas as espécies de pinguins habitam regiões de água fria e, para reduzir a perda de calor quando estão na superfície da água ou submersos, possuem uma camada de gordura sob a pele e um espesso revestimento de penas, sob o qual se forma um bolsão de ar. Essa camada de gordura, além de agir como isolante térmico, também funciona como depósito ou reserva de energia, utilizada frequentemente durante os longos deslocamentos no mar e, eventualmente, durante os períodos de muda ou mudança de penas e incubação dos ovos. O que lhes confere realmente o isolamento hídrico e térmico é a impermeabilização das penas, lubrificadas com óleo retirado de uma glândula, chamada de glândula uropigiana, e espalhado pelo corpo com o bico. Todos os dias, após retornarem do mar, os pinguins fazem esse alisamento das penas, reforçando a impermeabilização e dessa forma, garantindo uma proteção para o corpo no próximo contato com a água fria, cuja temperatura média, por exemplo, na Antártica, é em torno de -0,5ºC.

Algumas espécies de pinguins são capazes de mergulhar a até 250 m de profundidade, e de ficar submerso por períodos de até 18 minutos, para capturar principalmente peixes, lulas e crustáceos.

Os casais se formam após um período de namoro de dois meses. A fêmea, então, deposita um único ovo, que é incubado pelo macho. Imediatamente após a postura, a fêmea, que já perdeu cerca de 20% de seu peso corporal, retorna para o mar. Como os casais de pinguins não constroem ninhos, o macho permanece todo o tempo ereto, conservando o ovo sobre seus pés, em contato com uma área do ventre que possui uma maior circulação sanguínea e sem penas, durante todo o período de incubação, que vai de 60 a 65 dias. A fêmea retorna do mar na semana de nascimento do filhote, trazendo alimento para o recém-nascido e substituindo o macho, que não se alimenta há 4 meses, tendo já perdido cerca de 40 a 45% de seu peso corporal. A partir dessa etapa, macho e fêmea se revezam nos cuidados com a alimentação e proteção do filhote.

Principais Ameaças

As populações atuais de pinguins variam imensamente de uma espécie para outra. A maior delas é a do pinguim-de-penacho-amarelo com cerca 23 milhões de indivíduos. As espécies mais ameaçadas vivem no Oceano Pacífico, nas costas da América do Sul e Ilhas Galápagos. Essas espécies, o pinguim-de-humboldt, com cerca de 8.500 indivíduos, e o pinguim-de-Galápagos, com apenas 500 exemplares, tiveram suas populações reduzidas em 75% nos anos de 1982 e 1983 devido aos efeitos do fenômeno climático El Niño, que provoca o aquecimento das águas do Oceano Pacífico.

Atualmente, as populações de diversas espécies de pinguins vêm sofrendo com uma série de ameaças, como a pesca excessiva praticada pelo homem, realizada em diversas áreas do Hemisfério Sul, que dificulta a recuperação dessas populações. De modo geral, em todo o Hemisfério Sul, onde vivem todas as espécies de pinguins, a competição cada vez mais acirrada entre o homem e a fauna resulta em uma diminuição gradativa das populações de todas as aves, mamíferos e, principalmente, dos peixes, crustáceos e moluscos, que constituem a base da cadeia alimentar nos oceanos. Outro problema que também causa uma alta taxa de mortalidade em diversas espécies de animais marinhos é o afogamento em redes de pesca e os anzóis de pesca utilizados em alto mar (espinhéis).

Marcelo Tardelli Rodrigues
Biólogo Marinho
Grupo de Estudo e Pesquisa de Cetáceos de Arraial do Cabo

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