Uma saída para Dirceu seria delatar Lula

 

Cunha já seria “carta fora do baralho” e é difícil entender que o ex-ministro do STF, Francisco Rezek, no parecer que Cunha usou para justificar o fato de não ter declarado a existência de bens no exterior, tenha ignorado as instruções, claríssimas, para o preenchimento da declaração do IRPF: “C) Bens e direitos situados no exterior. No campo Discriminação, informe o valor de aquisição constante no instrumento de transferência de propriedade na moeda do país em que estiverem situados. Informe, ainda, se na aquisição foram utilizados rendimentos auferidos originariamente em reais ou em moeda estrangeira”.

O esclarecimento dos escândalos de corrupção, que remontam aos governos FHC e, possivelmente, bem antes, estaria prejudicado porque preponderam duas posições: a lei do silêncio, do tipo que a Máfia usa, e o princípio definido por Nixon, o de “cortar as nossas perdas”.

Lula se antecipou e jogou nas costas de Dirceu a responsabilidade pela nomeação de Renato Duque para uma diretoria na Petrobrás, embora haja um ato falho, admitindo que antes de assinar qualquer nomeação decidia “aprovar ou não”. Dirceu sempre negou que tenha feito isso e não teria condições, agora, de voltar à PF e confirmar o que Lula disse. Só poderia fazer isso caso dispusesse de algum documento ou testemunhas que comprovariam a ocorrência de uma conversa entre ele e Lula antes da nomeação.

Consta haver delações que permanecem sigilosas. Não se saberia quem as fez ou o que teriam delatado. Isto basta para que muita gente esteja apreensiva, inclusive Lula, o que poderia reforçar a necessidade de fazer prevalecer a lei do silêncio. Mas, a desconfiança entre os atores envolvidos pode estar aumentando. É nesse contexto que se deveria entender o depoimento de Lula. Afinal, poderia ter confirmado a negação de Dirceu no caso de Renato Duque. Fez o oposto e foi além fazendo uma delação genérica citando “partidos políticos” e nomeando assessores diretos. Seu “etc.” é extensivo a todos os que tentarem envolvê-lo em algum ato ilícito. Foi o tipo de delação que tem a intenção de não deixar pedra sobre pedra. Lula fez o que certa vez denunciou, afirmando haver gente querendo “salvar a própria pele”. O “homem sem malícia” blindou-se. Seguiu o princípio do “cada um por si mesmo”, do “façam o que digo e não o que faço”.

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2016 irá começar, possivelmente, em março, com três contextos definidos: 1) Cunha seria afastado do cenário político, eliminando-se a hipótese da tentativa do impedimento da presidenta. Não levaria a nada, uma ascensão de Temer sendo uma incógnita em termos do que poderia conseguir com Aécio respirando atrás de seu pescoço; 2) Dona Dilma e sua turma teriam controle do Congresso, particularmente da Câmara de deputados, e teriam que se virar pelo avesso para enfrentar a crise econômica; 3) as três principais operações, a Lava-Jato, a Zelotes e a Acrônimo deverão prosseguir com uma redução tanto do silêncio como do limite que cada delator considera suficiente para se livrar de pena mais severa. Viu-se isso no caso do doleiro Youssef que também estaria envolvido nos dois últimos escândalos.

Superando, mesmo parcialmente, a crise política, expurgando do cenário gente como Cunha e Lula, particularmente, dedicando esforço na resolução de conflitos em bases menos emocionais e ideológicas, criando condições para solucionar as graves consequências da crise econômica e isolando a questão policial, talvez cheguemos ao final de 2016 em condições melhores das que, atualmente, podemos perceber.

Ernesto Lindgren
CIDADE ONLINE
27/12/2015

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