Uma declaração de amor

(13 de Agosto de 2013)

Minha primeira visita ao Rio Una evocou-me o Rio Paraíba do Sul. Esse contato inicial restringiu-se apenas ao curso final. Que semelhança esse trecho poderia ter com o Paraíba do Sul? Em princípio, apenas o manguezal, existente no estuário de ambos, como era de se esperar, pois ambos se lançam no mar.

No mais, tudo é diferente. O Paraíba do Sul é um sistema hídrico muito maior que o Una, uma pequena bacia. Os maiores rios em torno dos quais constituiu-se a Capitania, a Província e o Estado do Rio de Janeiro, pela costa, estendem-se dos Rios Itabapoana ao Una, passando pelo Guaxindiba, Paraíba do Sul, o extinto Iguaçu, Macaé, das Ostras e São João. No interior, correm os Rios Paquequer, Piabanha, Pomba, Grande e Muriaé. Abaixo do Una, só existem rios de pequena extensão, como os que desembocam nas lagoas da Região dos Lagos, na Baía de Guanabara, na Baía de Sepetiba e na Baía da Ilha Grande.

Logo na primeira visita, foi fácil perceber que, tanto a Bacia do Paraíba do Sul quanto a Bacia do Una tinham sofrido grandes alterações produzidas pelo Departamento Nacional de Obras e Saneamento (DNOS). No seu estirão final, sobre a Planície dos Goitacases, o Paraíba do Sul apresenta uma singularidade: ele se bifurca em dois subsistemas. O primeiro é o do Paraíba do Sul propriamente dito. O segundo é o da Lagoa Feia. Ao mesmo tempo em que os subsistemas começam a se afastar um do outro, a partir da localidade de Itereré, ponto de encontro entre a Zona Serrana e a planície, eles voltavam a se encontrar, outrora, pelas linhas naturais de drenagem, pelo Córrego do Cula e pelo Rio Doce ou Água Preta.

Esses dois complexos subsistemas formaram-se sobre o mar, com sedimentos transportados por ambos depois da máxima transgressão marinha, em 5.100 anos antes do presente (AP). Já o Rio Una tinha sua foz no ponto atual quando essa transgressão ocorreu. No sistema Paraíba do Sul, o DNOS promoveu a construção de diques em ambas as margens do Rio Paraíba do Sul e o ligou ao subsistema Lagoa Feia por oito canais primários, regulados por comportas junto ao rio, uma intrincada rede de canais secundários, terciários e outros que perfazem cerca de 1.400 quilômetros.

Na Bacia do Una, praticamente todos os rios foram retilinizados. Inclusive, abriu-se um canal ligando um afluente do Una ao Rio São João. Assim, a Bacia do Una foi muito mais alterada que o baixo curso do Paraíba do Sul, guardadas as devidas proporções e singularidades.

Bacia do Baixo Paraíba do Sul depois das obras empreendidas pelo DNOS. Revista Saneamento

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Rio Una canalizado pelo DNOS. Batimetria do Rio Una.

Havia, porém, outro traço comum às duas bacias com o qual só vim a atinar recentemente. O Sistema Paraíba do Sul, no seu trecho final, construiu uma imensa planície fluviomarinha que foi revestida por formações vetais nativas pioneiras de influência fluvial, de influência marinha (de restinga) e de influência fluviomarinha. As formações pioneiras de influência fluvial apresentam fisionomia herbácea e arbustiva. Ocorrem tanto em terrenos secos, mas sujeitos a inundações, quanto em áreas permanentemente alagadas. As formações pioneiras de influência marinha costumam ocorrer em restingas e podem ter aspecto herbáceo, arbustivo e arbóreo. Finalmente, as formações pioneiras de influência fluviomarinha nada mais são do que os manguezais.

Tomando por base vários autores, Claudio Belmonte de Athayde Bohrer, Heloisa Guinle Ribeiro Dantas, Felipe Mendes Cronemberger, Raul Sanchez Vicens e Sandra Fernandes de Andrade examinaram as formações vegetais nativas da Região dos Lagos, conjunto dos mais importantes do Brasil, em “Mapeamento da vegetação e do uso do solo no Centro de Diversidade Vegetal de Cabo Frio, Rio de Janeiro, Brasil” publicado em “Rodriguésia” 60 (1), em 2009. Deixarei para outra ocasião o comentário desse artigo. Por ora, basta dirigir o foco para a Bacia do Una.

Formações vegetais nativas da Região dos Lagos. Notar como a formação pioneira de influência fluvial (assinalada em verde) corresponde à Bacia do Una. Bohrer, Dantas, Cronemberger, Vicens e Andrade. Mapa modificado pelo autor.

Quais os tipos de vegetação nativa encontrados no seu âmbito? Exatamente as que existem no baixo curso do Paraíba do Sul. Na maior parte da Bacia do Una, predomina, desde a regressão marinha iniciada a partir de 5.100 AP, a formação pioneira de influência fluvial com algumas colinas revestidas por florestas aluviais. No Sistema Paraíba do Sul, as florestas aluviais são mais encontradas no Subsistema da Lagoa Feia.

Banhado formado pelo Rio Macabu em sua embocadura na Lagoa Feia. Formação pioneira de influência fluvial e floresta aluvial (direita)

Na Região dos Lagos, as formações pioneiras de influência marinha estão separadas por serem estreitas as áreas de restinga. Na Bacia do Una, encontra-se importante restinga com vegetação arbórea que deve ser preservada a todo custo. A vegetação arbustivo-herbácea de restinga situa-se, principalmente, na faixa arenosa que formou as lagoas da Região dos Lagos e nas dunas. Por fim, o manguezal situa-se na foz do Rio Una e arredores, como é o caso do Mangue de Pedra.

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Formação de influência marinha, zona herbácea, na Restinga de Paraíba do Sul, a maior do Estado do Rio de Janeiro.

 

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Manguezal do Rio Una.

O primeiro ecossistema nativo do Baixo Paraíba do Sul a sofrer fortes impactos foram as formações pioneiras fluviais, suprimidas primeiro pela pecuária e depois pela lavoura de cana. Na Região dos Lagos, o ecossistema nativo mais devastado foram também os campos nativos. No mapa abaixo, fica claro que a agropecuária e arboricultura são as principais atividades responsáveis pela formação de ecossistemas antrópicos. Mais uma semelhança entre as Bacias do Baixo Paraíba do Sul e do Una.

Formações vegetais nativas da Região dos Lagos e uso do solo atualmente. A Bacia do Una está circundada com linha vermelha. Bohrer, Dantas, Cronemberger, Vicens e Andrade. Mapa modificado pelo autor.

Parece que os eco-historiadores têm uma inclinação masoquista, ao se dedicarem à destruição de ambientes nativos e à sua substituição por ecossistemas transformados e antrópicos.

(*) Arthur Soffiati é historiador ambiental e pesquisador do Núcleo de Estudos Socioambientais da UFF/Campos

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