Um Rio Desaparecido

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Haverá alguém vivo ainda que se lembre do rio Trapiche, com foz na enseada de Búzios? Creio que todos já morreram. Em 1934, o engenheiro Hildebrando de Araujo Góes escrevia: “Após o rio S. João, a costa é baixa, alagadiça e arenosa. Nesse trecho, notam-se, ao sul, apenas, as embocaduras dos rios Una e Trapiche.” (Saneamento da Baixada Fluminense. Rio de Janeiro: Ministério da Viação e Obras Públicas, 1934, p. 64). Ou mal ou bem, os rios São João e Una ainda existem. Ambos passaram por transformações deformadoras o longo dos anos e continuarão passando. Talvez, no futuro, ambos tenham o mesmo destino do Trapiche.

No mesmo relatório, à página 149, o engenheiro ainda registra: “Rio Trapiche. – Nasce em Campos Novos, correndo a SE do Estado. Depois de curso aproximado de 20 km, lança suas águas no Oceano, cerca de 4 quilômetros ao sul da foz do Una.” Procurem-no minuciosamente. Quem o encontrar ganhará um prêmio. Ele não existe mais. Seu curso final foi ocupado pela Marina de Búzios, entre o mar e uma estrada que desvia a RJ-102 da íngreme ponte do canal da marina para um trecho a sua retaguarda. Buscou-se, com o desvio, segurança para as pessoas que viajam. Nosso mundo só valoriza as pessoas, não mais a natureza, a grande esquecida, mas presente como um fantasma.

Esse desvio separa a grande marina dos remanescentes do rio, como se pode ver na imagem abaixo. Podemos observar, entre a estrada e o mar, a pujante rede geometrizada de canais no lugar do trecho final do pequenino rio. Atrás da estrada, existem fragmentos de banhados formados pelo rio e ainda água que verte dessa parte para o canal. Na ponta sul da marina, estende-se um estreito canal que chega ao aeroporto da cidade.

Trapiche1 Transformação do curso final do rio Trapiche na Marina de Búzios. Observar a geometrização do sistema hídrico e, a montante da estrada, remanescentes do rio (←). Fonte: Google Earth, fevereiro de 2017

Hoje, a Marina de Búzios encanta quem mora nela ou quem visita o famoso balneário “descoberto” por Brigitte Bardot. Mas quem sai à procura do que restou do rio Trapiche com olhos de turista educados pela propaganda despreza a paisagem. Só mesmo o olhar desapegado dos contemplativos – cientistas ou não – vê que ainda pulsa um pouco de vigor ecológico nesse estiolado panorama. Há água, há brejo, há invertebrados, há aves pululando ali, mais até que na marina.
Nesta, aparecem, como prova de resistência, poucos exemplares subdesenvolvidos de mangue branco, alguns guaiamuns e vários do pequeno caranguejo chama-maré. As margens íngremes construídas para o lazer não permitem a recolonização do ínfimo estuário por plantas exclusivas de manguezal.

Trapiche2 Visão geral da Marina de Búzios, antigo estuário do rio Trapiche, no sentido estrada-mar. Foto do autor.

Por que a vegetação típica de estuários da zona intertropical não mais ocorre? Porque as marés altas chegam ao talude da estrada, mas não conseguem alcançar os remanescentes do rio Trapiche. O desnível é muito grande, maior que a amplitude das marés. A água doce passa por baixo da estrada através de um bueiro, mas a água do mar não consegue o mesmo em sentido contrário. E o pior é que os sistemas hídricos do interior de Búzios foram transformados em caixa de esgoto. Quando chove mais que o normal, a caixa transborda para o mar transportando o esgoto. Nos cursos de Barrinha, Manguinhos, Marina e Una, a água fica preta nas enchentes.

Trapiche3 O que restou do rio Trapiche, acima da estrada de acesso a Búzios. Foto do autor.

Nenhuma pessoa do povo ou do governo em qualquer nível pleitearia a extinção da marina e a restauração e revitalização do rio Trapiche. Não direi que ele está perdido para sempre porque sempre é um tempo muito longo. Se desaparecermos da face da terra um dia, pode acontecer de o rio recuperar seu antigo leito. O poeta latino Horácio dizia que podemos afastar a natureza, mas que ela volta sempre. Ele viveu antes da Modernidade, que acredita transformar a natureza a seu bel prazer impunemente.

Os mais lúcidos sabem que a marina tem uma dívida impagável com o rio Trapiche e que nunca vai quitar o seu valor completo. É possível, contudo, compensar os danos mesmo que de forma incompleta.

trapiche4 Manilha subdimensionada para escoar água do que restou do rio Trapiche em direção ao canal da Marina de Búzios. Foto do autor.

No meu entendimento, três ações poderiam ao menos ser praticadas para minorar os danos ao pequenino rio:

1- Cessar o lançamento de esgoto nos sistemas hídricos do interior de Búzios com saneamento básico e com tratamento terciário, isto é, quase total. Assim tratadas, as águas residirias poderiam ser lançadas ao mar sem causar poluição. Seria uma ação que extrapolaria o próprio rio Trapiche e que beneficiaria a cidade inteira. Afinal, Búzios ainda atrai muitos turistas.

2- Transformar todos os banhados na retaguarda da marina em áreas protegidas de valor paleontológico (sempre que necessário) e ecológico (em todos os casos). As figuras jurídicas são muitas. A escolha delas nasceria de ampla discussão de sociedade e autoridades.

3- Criar dentro da marina área no seu final para o enraizamento de plantas de manguezal e para o retorno de crustáceos.

Arthur Soffiati é historiador ambiental e pesquisador do Núcleo de Estudos Socioambientais da UFF/Campos

 

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