Trump vai se dar mal

Os chineses e japoneses, por exemplo, sabem que se ele sobretaxar em 35% o preço do aço que exportam para os EU, quem vai sofrer são as indústrias dependentes do produto. As automobilísticas e da linha branca, por exemplo, vão reclamar e, como castigo, China e Japão poderão aumentar em 10% o preço do aço. Trump terá que engolir em seco e aquelas indústrias irão pagar, sem a sobretaxa. A Ford já avisou que a decisão pode causar desemprego. Só se sobretaxa produto importado se o país importador é capaz de produzir a quantidade que precisa.

Situação idêntica acontece no acordo com México e Canadá, NAFTA. Trump está incomodado com a fabricação de componentes de informática no México, o que reduziu o número de empregos nos EU. Não conseguirá alterar o acordo simplesmente porque as montadoras dos equipamentos, mundo afora, não aceitarão que os componentes não mais sejam produzidos no México e na China, principalmente, para acalmar Trump, que tem uma percepção distorcida da globalização.

Sobre isso Cristine Lagarte, diretora-gerente do FMI, já se manifestou avisando ao mundo que as teses defendidas por Trump são uma ameaça ao comércio internacional. Ou seja, Trump é um perigo para o mundo, falou bobagem e está avisado de que o mundo não se curvará e, se quiser, poderá conduzir os EU para um isolamento, mas pagará caro se não respeitar os acordos comerciais em vigor.

No que diz respeito a OTAN, se os EU quiserem sair, que saiam. A Alemanha já avisou que estão se preparando para evitar a investida da Rússia que se entusiasmou com a ameaça de Trump. A Europa, com ou sem a Inglaterra, não irá abrir as pernas para uma eventual investida russa nos moldes do que aconteceu nas décadas de 1930 e 40. O mais provável é que a Inglaterra retorne à Comunidade Européia se surgirem indícios de que a Rússia pretende se expandir para o oeste contando com o isolacionismo norte-americano.

É possível que a retomada dos bombardeios em Alepo, pelos russos, tenha ocorrido com a aprovação de Trump dada durante a conversa com Putin em 09/11. É muita coincidência. Os ataques colocam em risco os 300 soldados americanos que assessoram os rebeldes na Síria. Trump, portanto estaria facilitando a reconquista da Síria por Assad. Este, em troca, se juntaria aos russos numa investida contra o Estado Islâmico. Na outra ponta. Trump daria apoio aos iraquianos na retomada de Mossul e Rakka. Essa, quem sabe, seria a “estratégia secreta” de Trump para liquidar o Estado Islâmico. Findo isso é bem provável que Trump retire os assessores do Iraque, da Síria e do Afeganistão, mas terá que arcar com a responsabilidade das consequências.

Para Trump o ideal é manter os EU isolados, vendendo armas e aguardando que o mundo se exploda. O que espera é não ser incomodado, esquecendo que será essa condição que fará dos EU um peixe num barril, inteiramente vulnerável aos ataques do Irã, da Coréia do Norte e do Estado Islâmico que se consolidaria diante da fragilidade do Iraque e da Síria.

Não bastará que Trump diga “Parem” sobre o racismo que aflorou nos Estados Unidos. Depois que assumir se não tomar medidas concretas, verá uma reação que o lembrará da segunda metade da década de 1960. E, pior, os estados se negarão a participar da caçada dos três milhões de imigrantes ilegais que ameaça deportar, criando para ele condições que dificultarão sua capacidade de governar. Ficará a um passo de um impeachment.

Ernesto Lindgren
CIDADE ONLINE
16/11/2016

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