Transformações das paisagens nativas do Rio de Janeiro (III)

Transformações das paisagens nativas do Rio de Janeiro (III)
Transformações das paisagens nativas do Rio de Janeiro (III)

Transformações das paisagens nativas do Rio de Janeiro (III)Caminhada no circuito rural de Casimiro de Abreu/RJ (Divulgação)

O ecoturismo

O turismo é uma criação europeia do século XIX, não obstante existissem antes viajantes que se compraziam em visitar países estrangeiros, de preferência Itália e Grécia, considerados os berços da civilização ocidental. Como nova atividade econômica, ele nasceu elitista, privativo de uma minoria rica.

No século XX, a chamada indústria sem chaminé foi se massificando e permitiu que a classe média tivesse acesso a viagens e compras. Foi a fase do turismo assumidamente consumista e autofágico. Não se tratava de adquirir uma praia ou uma montanha, mas de sugar todos os prazeres proporcionados por elas, deixando para trás feridas profundas na natureza, lixo, esgoto e desolação. É este tipo de turismo que Joffre Dumazedier (Lazer e cultura popular. São Paulo: Perspectiva, 1976) analisa e exalta.

Estudiosos do turismo e agentes mais esclarecidos começaram a perceber o filão do ecoturismo. Jost Krippendorf (Sociologia do turismo: para uma nova compreensão do lazer e das viagens. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1989) expressa um paradigma de transição entre uma civilização dura e uma civilização suave. Mas ainda não se trata de teorizar sobre o ecoturismo como parte de um novo paradigma, a postular uma atitude de cuidado e de respeito aos ecossistemas na prática do lazer e do turismo, em ecossistemas nativos, transformados e antrópicos. Turismo ecológico passou, então, neste breve momento, a designar antes uma postura ética face a qualquer ecossistema do que viagens sem critério ecologista a ecossistemas selvagens. De certa forma, é o que tenta expressar Américo Pellegrini Filho (Ecologia, cultura e turismo. Campinas: Papirus, 1993).

A partir da década de 70, com a crítica radical dos ecologistas aos agressivos modos de vida desenvolvidos no ocidente e exportados para todo o planeta, os mesmos críticos propuseram outros paradigmas e outras práticas que se mantiveram fiéis ao espírito original. Outras até foram incorporadas durante a década de 1980 e chegaram aos dias atuais. Chegou-se mesmo a criar um decálogo em tom religioso, que foi amenizado por um pentálogo do ecoturista. Seus princípios são: 1- Da natureza nada se tira a não ser fotos, 2- Nada se deixa a não ser pegadas, 3- Nada se leva a não ser recordações, 4- Andar em silêncio e em grupos pequenos, 5- Respeitar uma distânciados animais, evitando gerar stress.

Algumas práticas são consideradas condizentes com o ecoturismo. As principais são:

1- Práticas com o exclusivo uso do corpo: caminhadas a pé por uma pessoa ou grupo delas com ou sem preocupações de estudo e sem pressa. O trekking, também conhecido como enduro a pé de regularidade, é uma modalidade de caminhar numa trilha pré-estabelecida por uma organização, com os integrantes das equipes recebendo uma planilha que contém os trechos a serem seguidos, suas velocidades e distâncias. Apresenta, portanto, um caráter competitivo. A observação de aves também procura evitar ao máximo qualquer veículo além dos pés e tem como objetivo a observação das aves em seu habitat natural, sem interferir no seu comportamento ou no seu ambiente. Pode se estender também para a fauna, de um modo geral, e para a flora.

2- Práticas com o uso do corpo equipado: o montanhismo consiste em escalar trechos difíceis de montanhas com equipamento e cuidados especiais de segurança. Dele deriva o rapel, que é a pratica de descer paredões com cordas e equipamentos adequados. Assim também a tirolesa, nome derivado de Tirol, que consiste em atravessar montanhas e vales, por meio de cordas, roldanas e equipamentos apropriados. Nesta categoria, podemos ainda incluir a espeleologia, que é a exploração de cavernas apenas para conhecimento, tomando-se todo o cuidado para não causar impactos ambientais.

3- Práticas com uso de animais: destaca-se a cavalgada para percorrer em montaria áreas abertas acidentadas ou não, causando nenhum ou mínimo impacto possível.

4- Práticas com o uso de veículos movidos por energia muscular humana: o cicloturismo é o mais conhecido e se desenvolve com o uso de bicicletas sem caráter competitivo.

5- Práticas aquáticas: a flutuação e o mergulho se destacam. A flutuação leva o turista a flutuar, usando roupas de neoprene, colete salva-vidas, máscara e snorkel num trecho de rio com baixa velocidade de correnteza para observar a fauna e a flora aquáticas. O mergulho volta-se mais para a zona costeira, não se confundido com pesca submarina por se limitar apenas à observação. O boiacross usa grandes boias redondas para descer corredeiras da classe II (leves) acompanhada por canoístas profissionais para garantir a segurança dos participantes. A canoagem é praticada com canoas para um ou dois tripulantes que descem trechos de rios com corredeiras usando equipamentos especiais. O rafting é uma variável da canoagem praticada em botes com capacidade para 5 a 7 pessoas conduzidas por um guia profissional e canoístas para garantir a segurança dos praticantes.

6- Práticas aéreas: o parapente (paraglider em inglês) consiste em voar com um aeroplano (aeronave mais pesada que o ar) de asa inflável e semelhante a um paraquedas, que não apresenta estrutura rígida, suspenso por linhas. Já a asa delta é o voo com um aeroplano sem amarras e sem motor em que o piloto se movimenta aproveitando as correntes de ar. O balonismo é o voo com balão inflado por gases leves.

Atualmente, com o incremento do desenvolvimento sustentável, que busca amenizar a fúria da economia de mercado em suas margens ou fora do seu núcleo duro, a predação está voltando. Quando os movimentos de defesa do meio ambiente dirigiram sua crítica ao turismo, desmascarando a ideia de que ele consistia numa atividade não predatória, numa indústria sem chaminés e sem fumaça, as empresas que o promoviam tentaram absorver o golpe criando o lema de que era preciso conhecer para respeitar, mesmo assim restringindo-o a áreas de proteção ambiental, que então se abriam como um novo campo de investimentos, como um rico e promissor filão. Então, turismo ecológico passou a ser uma expressão para burlar a vigilância dos movimentos de defesa do meio ambiente. A concepção consumista e predatória continuou fundamentalmente a mesma. Em grande medida, trocou-se apenas o rótulo da garrafa, mantendo-se o mesmo conteúdo. Depois de 30 anos de “turismo ecológico”, os ecossistemas fluminenses estão mais dilapidados ainda. Poucas pessoas e grupos observam os princípios originais do ecoturismo. Antes, as empresas de turismo ganhavam dinheiro vendendo a oportunidade de consumir corpos humanos (turismo sexual), alimentos, bens materiais e imateriais, como paisagens, edificações de valor cultural e centros construídos com este objetivo. Seu lema era conhecer para consumir, sem maiores preocupações em proteger a natureza e a cultura.

O ecoturismo deixou de ser uma atitude de respeito aos ecossistemas para se tornar a atividade turística praticada nos poucos ecossistemas nativos que restaram. Leva-se para eles toda uma visão consumista, tanto no que concerne à infraestrutura quanto no que toca à atitude do turista. Em vez de excursões com número reduzido de pessoas, que caminham a pé por trilhas, em silêncio, desejosos de conhecimento e de uma relação contemplativa com a natureza, procura-se instalar hotéis, restaurantes, bares, vias de acesso asfaltadas, portais, lojas etc. Se o turismo é praticado em ecossistemas rurais, passa a denominar-se turismo rural, mas com a mesma atitude. Nas cidades, o turismo voltado para o consumo de bens antigos é chamado de cultural (SOFFIATI, Arthur. Todo turismo deve ser ecológico. Jornal do Meio Ambiente. Rio de Janeiro: Rede CTA, junho de 1999).

No Estado do Rio de Janeiro, as práticas ecoturísticas mais comuns são a caminhadas pura e simples, a observação de aves, da fauna em geral e da flora, o montanhismo, o rapel, a cavalgada, o cicloturismo, o mergulho submarino, o parapente e a asa-delta. A canoagem, o boiacross e o rafting são praticados em menor escala, limitados principalmente pela escassez de rios acidentados e pela poluição.

Arthur Soffiati é historiador ambiental e pesquisador do Núcleo de Estudos Socioambientais da UFF/Campos

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