Transformações das paisagens nativas do Rio de Janeiro (I)

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Economia e política na destruição dos ecossistemas nativos

No século XVI, o francês Jean de Léry manteve diálogo com um velho índio tupinambá altamente ilustrativo sobre a distância de representações mentais entre os mundos europeu e ameríndio. O missionário calvinista relatou o diálogo no seu livro: “Uma vez um velho perguntou-me: Por que vindes vós outros, mairs e perós (franceses e portugueses), buscar lenha de tão longe para vos aquecer? Não tendes madeira em vossa terra? Respondi que tínhamos muita, mas não daquela qualidade, e que não a queimávamos, como ele o supunha, mas dela extraíamos tinta para tingir, tal qual o faziam eles com os seus cordões de algodão e suas plumas. Retrucou o velho imediatamente: e porventura precisais de muito? – Sim, respondi-lhe, pois no nosso país existem negociantes que possuem mais panos, facas, tesouras, espelhos e outras mercadorias do que jamais podeis imaginar e um só deles compra todo o pau-brasil com que muitos navios voltam carregados. – Ah! retrucou o selvagem, tu me contas maravilhas, acrescentando depois de bem compreender o que eu lhe dissera: Mas esse homem tão rico de que me falas não morre? – Sim, disse eu, morre como os outros. Mas os selvagens são grandes discursadores e costumam ir em qualquer assunto até o fim, por isso perguntou-me de novo: e quando morrem para quem fica o que deixam? – Para seus filhos se os têm, respondi; na falta destes para os irmãos ou parentes mais próximos. – Na verdade, continuou o velho, que, como vereis, não era nenhum tolo, agora vejo que vós outros mairs sois loucos, pois atravessais o mar e sofreis grandes incômodos, como dizeis quando aqui chegais, e trabalhais tanto para amontoar riquezas para vossos filhos ou para aqueles que vos sobrevivem! Não será a terra que vos nutriu suficiente para alimentá-los também? Temos pais, mães e filhos a quem amamos; mas estamos certos de que depois da nossa morte a terra que nos nutriu também os nutrirá, por isso descansamos sem maiores cuidados.

Embora admirando o espírito cristão dos tupinambás, Léry não deixa de considerá-los pobres selvagens (Viagem à Terra do Brasil. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1961). No entanto, este diálogo mostra com clareza a diferença ou – talvez mesmo – o antagonismo entre uma economia de subsistência e uma economia de mercado. Os ameríndios, assim como a maioria das sociedades de todos os continentes, extraíam da natureza o suficiente para atender às necessidades básicas do ser humano: alimentação, saúde, moradia, vestimenta, educação, cultura, trabalho e lazer. Na condição de sociedades frias, como as considera Lévi-Strauss, esses povos desconheciam as noções de progresso, desenvolvimento, trabalho subordinado a patrão, dinheiro. Para eles, o presente não diferia do passado nem o futuro se distinguia do presente.
Já os europeus estavam na segunda fase da economia de mercado, a da implantação do modo de produção capitalista. Eles foram a única sociedade do planeta a passarem de um sistema de circulação de mercadorias produzidas por outros modos de produção para um sistema de produção para o lucro. Assim, seu interesse na América e em todo o mundo era a exploração da matéria prima para a produção destinada a uma economia de mercado. Daí a preocupação com o futuro, com o acúmulo de riquezas, com o “progresso”, com a herança, com a propriedade privada. Enquanto os nativos olhavam para a natureza e viam nela uma fonte de recursos essenciais, os europeus viam nela uma fonte de acumulação de capital. Por outro lado, os europeus descontentes com esta economia formulam utopias para ultrapassá-la, mostrando a outra face da moeda, mas também ansiosos com o futuro e com o progresso.

A destruição significativa de ecossistemas terrestres, aquáticos continentais e aquáticos marinhos é fruto da economia de mercado que se instalou na América, a partir de Colombo, mesmo que de forma incipiente. A arma mais poderosa que os nativos usavam contra a natureza era o fogo, cujo controle poderia ser perdido. Todos os biomas brasileiros, no século XVI, são considerados íntegros pelos cientistas. As ações dos povos nativos sobre eles não passavam de arranhões no tecido superficial. O bioma atlântico tinha 100% de sua extensão quando Américo Vespúcio desembarcou em Cabo Frio ou quando Pero de Góis tentou implantar uma estrutura produtiva na Capitania de São Tomé. Hoje, conta apenas, no seu todo, com cerca de 10%. Aconteceu o mesmo com os campos nativos do norte fluminense, com as restingas, com os manguezais, com os rios e lagoas.

Cabe, agora, uma análise mais aprofundada dessa destruição.

1- Ecossistemas aquáticos continentais

Mais difícil que cruzar o Oceano Atlântico da Europa para a América, foi, para os europeus, penetrar no território americano. As barreiras natural e indígena explicam por que a colonização, por mais de um século, restringiu-se à costa. Sergio Buarque de Holanda (Monções. 2ª edição. São Paulo: Alfa-Ômega, 1976) comenta que, inclusive, as técnicas e as tecnologias de navegação dos europeus, capazes de vencer os oceanos até numa viagem de circunavegação, como a de Fernão de Magalhães e Sebastião Elcano, entre 1519 e 1522, não era capaz de vencer os grandes Rios Amazonas, Parnaíba, São Francisco, Paraíba do Sul e da Prata, que tanto impressionaram Gabriel Soares de Souza (Tratado descritivo do Brasil em 1587. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1938). Os europeus, então, valeram-se, nos primeiros tempos, das técnicas e tecnologias desenvolvidas pelos ameríndios.

Ainda no século XVII, André Martins da Palma (Representação sobre os meios de promover a povoação e desenvolvimento dos Campos dos Goitacases em 1657. Revista Trimensal do Instituto Histórico, Geográfico e Etnográfico do Brasil, tomo XLVII, parte I. Rio de Janeiro: Laemmert, 1884) propõe a navegação do Paraíba do Sul apenas entre a foz e seu primeiro desnível, onde, futuramente, erguer-se-á a redução de São Fidélis. No século XVIII, os jesuítas e seus escravos promoveram um salto de qualidade no domínio de rios e lagoas, efetuando a limpeza dos cursos d’água para navegação e drenagem de terras alagáveis e alagadas. Embora não simpatizando com a ordem inaciana, o miliciano cartógrafo Manoel Martins do Couto Reis não consegue esconder sua admiração pela obra dos missionários no norte fluminense e na Real Fazenda de Santa Cruz, que ele administrará anos depois da expulsão da Ordem do Império Português por determinação do Marquês de Pombal. Chamou a atenção do cartógrafo o trabalho de drenagem por canais que os padres realizaram na Fazenda, cabendo a ele restaurar aquela obra (Memórias de Santa Cruz. Seu estabelecimento e economia primitiva: seus sucessos mais notáveis, continuados no tempo da extinção dos denominados Jesuítas, seus fundadores, até o ano de 1804. Revista Trimestral de História e Geografia ou Jornal do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, tomo quinto, 3ª ed. Rio de Janeiro: Laemmert, 1886).

No século XIX, a necessidade de escoar a produção do interior para a costa levou à abertura de vários canais de navegação. O mais famoso deles foi o Canal Campos-Macaé, que pretendia ligar Campos à Baía do Rio de Janeiro, mas só conseguiu chegar a Macaé. Além dele, foram abertos os canais da Onça, do Nogueira, de Cacimbas e outros menores (SOFFIATI, Arthur. Os canais de navegação do século XIX no norte fluminense. Boletim do Observatório Ambiental Alberto Ribeiro Lamego nº 2. Campos dos Goytacazes: CEFET Campos, jul/dez 2007).

As mudanças econômicas correspondentes à Segunda Revolução Industrial substituíram os pequenos engenhos movidos à energia muscular humana e animal pelos grandes engenhos centrais e usinas. Novos polos urbanos se desenvolveram além do Rio de Janeiro, de Niterói e de Petrópolis. O extrativismo madeireiro, o crescimento da agropecuária, a urbanização e a necessidade de drenagem levaram os governos imperial e republicano, provincial e estadual a constituir comissões de saneamento da Baixada Fluminense.

Em relatório célebre, Hildebrando de Araujo Góes (Saneamento da Baixada Fluminense. Rio de Janeiro: Comissão de Saneamento da Baixada Fluminense, 1934), dividiu a Baixada Fluminense em quatro regiões: Baixada dos Goitacases, Baixada de Araruama, Baixada da Guanabara e Baixada de Sepetiba. Essas planícies fluviomarinhas acumulavam água de chuva e de cheias, impedindo a expansão da agropecuária e da urbanização, sendo vistas, além disso, como focos de endemias. Góes escreveu que, para dominá-las, foram criadas doze comissões de saneamento entre 1883 e 1933. Nesta segunda data, instituiu-se a Comissão de Saneamento da Baixada Fluminense pelo governo federal, já indicando uma forte presença do Estado na economia inaugurada pelo governo de Getúlio Vargas.

A CSBF começou a operar em 1935, depois de minucioso levantamento das áreas a serem atacadas. O sucesso em retilinizar rios e drenar lagoas foi tão grande que, em 1940, a Comissão foi substituída por um órgão de âmbito nacional: o Departamento Nacional de Obras e Saneamento. A ecofisionomia das quatro planícies do Estado do Rio de Janeiro mudou completamente. Poucos rios e lagoas não sofreram intervenção do DNOS, beneficiando a agropecuária, a indústria e as unidades urbanas, mas afetando profundamente os ecossistemas aquáticos continentais de superfície e a economia pesqueira.

No fim dos anos de 1970 e início de 1980, eclodiram vários movimentos de pescadores contra as obras do DNOS na Lagoa Feia, na Lagoa do Campelo e no Farol de São Tomé, assim como protestos de organizações não governamentais e de cientistas por intervenções do órgão nas lagoas da Barra da Tijuca e de Niterói. Começou a crise do DNOS, que será extinto em 1990, logo no primeiro pacote de medidas do presidente Fernando Collor de Mello (SOFFIATI, Arthur. O nativo e o exótico: perspectivas para a história ambiental na Ecorregião Norte-Noroeste Fluminense entre os séculos XVII e XX. Rio de Janeiro: IFCS/UFRJ, 1996, dissertação de mestrado e Uma instituição mítica da república brasileira. Revista Brasileira de Estudos Urbanos e Regionais vol. 7, nº. 2. Rio de Janeiro: ANPUR, novembro de 2007). Por mais de uma década, a partir de então, o legado do DNOS ficou abandonado e foi apropriado por proprietários rurais, associações de classe e prefeituras, até ser assumido oficialmente pelo Instituto Estadual do Ambiente (INEA).

O desmatamento vem aumentando o processo de erosão e de assoreamento (sedimentação) de rios e lagoas. A agropecuária, a industrialização e a urbanização produzem poluição e eutrofização (superalimentação) dos ecossistemas aquáticos continentais. Nas áreas de planície, praticamente todos os rios e lagoas sofrem estes problemas. As lagoas da Barra da Tijuca foram encurraladas pela expansão urbana e passam por um processo de morte nos últimos quarenta anos, o que mudou radicalmente a aparência rural da região, tão bem registrada por Armando Magalhães Corrêa (O sertão carioca. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1936). A Lagoa Rodrigo de Freitas parece um reservatório artificial. O mesmo destino assola as lagoas da Baixada de Cabo Frio. Em 100 anos, a Lagoa Feia passou de 370 km2, em 1900, para 170 km2, em 2000.

paisagenstransformadasrj1 Lagoa de Juturnaíba depois das obras do DNOS. Acervo do autor

Porém, o ecossistema de água doce mais afetado do estado é o Rio Paraíba do Sul, cuja bacia está dividida pelos Estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Intenso foi o processo de desmatamento, ocupação agropecuária, industrialização e urbanização de suas margens. Dele depende a população do município do Rio de Janeiro e de vários de seus vizinhos, por meio da transposição de grande volume de suas águas para o sistema Lajes-Guandu. Sucessivas barragens foram construídas no curso principal e em seus afluentes, mudando profundamente seu regime hídrico e empobrecendo sua biodiversidade. Já na década de 1950, os engenheiros Edgard Teixeira Leite (O Rio Paraíba na economia fluminense. Rio de Janeiro: s/e, 1954) e Léo Ferraz Alves (Aspectos sanitários no aproveitamento dos recursos hidráulicos do Paraíba. Rio de Janeiro: Clube de Engenharia do Brasil, 1955) alertaram sobre os perigos de barragens e de derivações na bacia do Paraíba do Sul. O resultado das barragens foi a sensível redução das descargas líquida e sólida no baixo curso, rompendo a relação de equilíbrio entre o rio e o mar e provocando acentuado processo de erosão na foz (COSTA, Georgiane e NEVES, Claudio Freitas. O estuário do rio Paraíba do Sul. Anais do X Simpósio Brasileiro de Recursos Hídricos. Gramado (RS): Associação Brasileira de Recursos Hídricos, 10-14/11/1993).

paisagenstransformadasrj2Rio Paraíba do Sul na foz. Notar desmatamento e assoreamento. Acervo do autor paisagenstransformadasrj3Desmatamento em floresta atlântica úmida. Acervo do autor

2- Mata Atlântica úmida e estacional

Antes mesmo que a Coroa portuguesa concebesse e implantasse uma estrutura de colonização do Brasil, a supressão da vegetação nativa já havia começado com o corte de árvores de pau-brasil, empregando-se os povos nativos. Como se trata de uma espécie típica da Mata Atlântica, uma floresta tropical complexa e megadiversa, o pau-brasil (Caesalpinia echinata) não se encontrava em conjuntos homogêneos, como são as lavouras. Para se extrair um exemplar dele, árvores de outras espécies acabam sendo derrubadas e abandonadas (SOUZA, Bernardino José de. O pau-brasil na história nacional, 2ª ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1978). No Rio de Janeiro, o pau-brasil rendeu uma atividade extrativista muito intensa nas atuais regiões dos Lagos e Norte Fluminense.

Mas a atividade que inaugurou um desmatamento em larga escala foi a cana-de-açúcar, escolhida para iniciar a colonização do Brasil por já ser um cultivo conhecido dos portugueses, por se adaptar ao clima e ao solo da costa brasileira e por ter grande aceitação no mercado europeu. No Rio de Janeiro, o cultivo da cana foi praticado no entorno da Baía de Guanabara e no Norte Fluminense. A tentativa de fundar um núcleo colonial português por Pero de Góis e por Gil de Góis na extremidade norte da Capitania de São Tomé malogrou. No século XVII, havia cana e engenhos no recôncavo da Baía do Rio de Janeiro, enquanto o gado localizou-se na planície fluvial do Rio Paraíba do Sul, no norte fluminense (GABRIEL, Adelmo Henrique Daumas e LUZ, Margareth da (Orgs.); FREITAS, Carlos Roberto B.; SANTOS, Fabiano Vilaça dos KNAUS, Paulo; SOFFIATI, Arthur (notas explicativas) e GOMES, Marcelo Abreu. Roteiro dos Sete Capitães. Macaé: Funemac Livros, 2012).

Até o século XVIII, apenas a mata atlântica do sopé costeiro da Serra do Mar havia sido derrubada para cultivo, pastagem, engenhos e fundações urbanas. As partes altas afiguravam-se ameaçadoras para os europeus e seus descendentes, pois eram consideradas “Sertão de Índios Brabos”, o mesmo valendo para a Serra da Mantiqueira e para a parte serrana do Rio Paraíba do Sul. Não sem razão, a cartografia mostrava essas áreas como vazios (LEÃO, Manoel Vieira. Carta topográfica da Capitania do Rio de Janeiro feita por ordem do Conde de Cunha, Capitão General e Vice-Rei do Estado do Brasil por Manoel Vieira Leão, Sargento Mor e Governador da Fortaleza do Castelo de São Sebastião da Cidade do Rio de Janeiro em o ano de 1767. Rio de Janeiro: Biblioteca Nacional/seção de iconografia e COUTO REIS, Manoel Martins do. Descrição geográfica, política e cronográfica do Distrito dos Campos Goitacás que por ordem do Ilmo e Exmo Senhor Luiz de Vasconcellos e Souza do Conselho de S. Majestade, Vice-Rei e Capitão General de Mar e Terra do Estado do Brasil, etc se escreveu para servir de explicação ao mapa topográfico do mesmo terreno, que debaixo de dita ordem se levantou. Rio de Janeiro: manuscrito original, 1785).

A partir de então, iniciou-se acentuado processo de desmatamento no noroeste fluminense, entre as Serras da Mantiqueira e do Mar. Os Rios Paraíba do Sul, Muriaé, Pomba e Paraibuna favoreceram o acesso à região. O objetivo era a obtenção de lenha e de madeiras nobres. Auguste de Saint-Hilaire, naturalista francês, condenou esta economia de rapina (Viagem pelo Distrito dos Diamantes e litoral do Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1974).

No século XIX, começou a escalada da Serra do Mar. Núcleos urbanos foram fundados em pontos altos, como Nova Friburgo, Petrópolis e Teresópolis. Contudo, o café foi o principal responsável pela destruição da Mata Atlântica no Rio de Janeiro, como mostra Warren Dean (A ferro e fogo: a história e a devastação da Mata Atlântica. São Paulo: Companhia das Letras, 1996). O ícone deste processo foi o maciço da Tijuca, que teve de ser reflorestado por iniciativa do governo de D. Pedro II, sob o comando do Major Manoel Archer (DRUMMOND, José Augusto. O jardim dentro da máquina: breve história da Floresta da Tijuca. Estudos Históricos nº. 2. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1988). José Augusto Pádua (Um sopro de destruição: pensamento político e crítica ambiental no Brasil escravista (1786-1888). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002) empreendeu belo estudo sobre a economia rural pragmaticamente praticada pelos barões do café e a economia proposta por intelectuais inspirados na Escola Fisiocrata.

Esgotado o solo por práticas agrícolas rudimentares e predatórias, os remanescentes de Mata Atlântica no Rio de Janeiro, no século XX, foram devorados pela industrialização e pela urbanização, seja na planície, seja na zona serrana. Calcula-se, hoje, que a mata úmida, no Estado do Rio de Janeiro, esteja reduzida à cerca de 12%, com os fragmentos maiores concentrando-se em áreas altas. Quanto à Mata Atlântica Estacional Semidecidual, restrita ao noroeste fluminense, restou dela apenas 0,5% do total de 100% em 1500. Os principais responsáveis pela destruição foram o extrativismo, a cafeicultura e a pecuária.

paisagenstransformadasrj4 Remoção de Mata Atlântica semidecidual (semi-seca). Acervo do autor paisagenstransformadasrj5Lavoura de cana em planície aluvial cortada pelo Rio Paraíba do Sul. Acervo do autor

3- Bioma Costeiro

O bioma costeiro recebeu a preferência dos povos nativos e dos europeus, pois se constitui de planícies, lagoas, rios com fluxo lento, vegetação baixa e grande biodiversidade, o que pode ser traduzido como terreno apropriado para construir habitações, prédios públicos, militares e eclesiásticos, além de fornecer alimento em abundância. Este bioma, situado entre a praia e a Mata Atlântica, foi o primeiro a sofrer os impactos ambientais da colonização portuguesa.

A- Vegetação de Planície Aluvial

Este tipo de vegetação é nativo e herbáceo. Ou seja, desenvolve-se pela própria natureza e tem aspecto graminoso. A vegetação de porte arbustivo e arbóreo encontra nestes campos o fator limitante da excessiva umidade, já que se trata de terrenos sujeitos a grandes alagamentos periódicos. Só nos pontos ligeiramente mais altos e em certas lagoas desenvolvem-se matas higrófilas e bosques de tabebuia (Tabebuia cassinoides), uma árvore resistente à umidade.

Segundo Warren Dean, a vegetação herbácea destes campos se deveu ao uso intensivo e constante pelos povos indígenas que neles habitavam, eliminando as florestas. Estudos recentes de palinologia (referente a pólen) mostram, contudo, que a vegetação original era mesmo herbácea (SOFFIATI, Arthur. A história ambiental de um campo nativo de planície. Anais do III Encontro da ANPPAS. Brasília: ANPPAS, 23 a 26 de maio de 2006). Os maiores e mais importantes deles concentram-se na planície fluvial do norte fluminense e foram usados, inicialmente, na primeira metade do século XVII, para a criação de gado (GABRIEL, Adelmo Henrique Daumas e LUZ, Margareth da (Orgs.); FREITAS, Carlos Roberto B.; SANTOS, Fabiano Vilaça dos KNAUS, Paulo; SOFFIATI, Arthur (notas explicativas) e GOMES, Marcelo Abreu. Roteiro dos Sete Capitães. Macaé: Funemac Livros, 2012). Esta atividade começou a alterar a paisagem nativa, sobretudo com a introdução de plantas exóticas para pasto, como os capins fura-chão, angola, guiné, elefante, pé-de-galinha (também conhecido como cidade) e braquiária. Contudo, a grande gramínea que provocou contundente transformação foi a cana-de-açúcar, inclusive expulsando em parte o gado para terras de tabuleiro. Atualmente, a agropecuária, a agroindústria sucroalcooleira e a indústria cerâmica são os maiores responsáveis pelos problemas ambientais da planície aluvial, esta última por extrair dela argila de boa qualidade.

B- Vegetação de Restinga

No Brasil, entende-se que restinga são extensos terrenos formados por areia depositada pelo mar junto ao continente. As mais expressivas restingas são as de Marambaia, na Baía de Sepetiba, a da Barra da Tijuca, a de Massambaba, na região dos Lagos, a de Jurubatiba e a de Campos. Nelas, desenvolve-se naturalmente uma vegetação de origem continental que desce da serra e tem suas espécies selecionadas por fatores limitantes, como pobreza do solo, salinidade do ar e ventos.

Para os povos nativos, a restinga apresentava interesse econômico por suas lagoas e por animais que podiam ser pescados e caçados. Para os europeus, o extrativismo vegetal era a principal atividade econômica. Extraídas as árvores para lenha, praticava-se (e ainda se pratica) uma agricultura de olerícolas, queimando-se a baixa fertilidade do solo desnudo. Em seguida, implantava-se uma pecuária extensiva e pobre. Havia ainda a extração de sal na Lagoa de Araruama. Alberto Ribeiro Lamego, numa concepção determinista, considerava as comunidades humanas instaladas na restinga fadadas à pobreza (Restingas na costa do Brasil. Boletim nº. 46. Rio de Janeiro: Ministério da Agricultura/Departamento Nacional da Produção Mineral/Divisão de Geologia e Mineralogia, 1940; e O homem e a restinga. Rio de Janeiro: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística/Conselho Nacional de Geografia, 1946).

A restinga da Barra da Tijuca passou por implacável desmatamento nos anos de 1970 para implantação do Plano Lúcio Costa, que substituiu a complexa vegetação nativa por uma área densamente urbanizada. Na restinga da região dos Lagos, o turismo avança rapidamente, exigindo a construção de casas de veraneio e de hotéis. A restinga de Campos, a maior de todas, passou primeiro por um processo intenso de desmatamento, que deu lugar à agropecuária. Agora, foi escolhida para a instalação de um complexo industrial-portuário de grande porte, com terminal de mineroduto e um estaleiro. Salvaram-se as restingas da Marambaia, campo de provas do Exército, e a restinga de Jurubatiba, a mais importante de todas pela ecodiversidade.

paisagenstransformadasrj6Restinga da Barra da Tijuca. A urbanização impactante ultrapassa em demasia a capacidade de suporte do ambiente. Foto de arquivo paisagenstransformadasrj7Mangue de Pedra com lixo plástico. Região dos Lagos. Acervo do autor

C- Costões Rochosos

Os costões rochosos são formações de pedra banhadas pelo mar em que se desenvolvem complexas relações de algas, vegetais e animais. Eles abundam no sul fluminense e na Região dos Lagos. Para os povos nativos, eles representavam fonte de alimentos. Atualmente, o turismo submarino e o comércio são seus inimigos, pois retiram pedaços de rochas, algas, estrelas do mar e ouriços do mar. A urbanização da costa também contribui sensivelmente para a destruição deste ecossistema com o despejo de esgoto e a mudança da qualidade físico-química da água do mar, bem assim com o despejo de resíduos sólidos.

D- Manguezais

De todos os ecossistemas aqui examinados, o manguezal é o que goza de pior reputação. Desenvolvendo-se em estuários, em lagoas costeiras e em praias com baixa energia oceânica, as plantas exclusivas de manguezal retêm sedimentos muito finos que formam lama. Como a oxigenação do substrato é muito baixa, a matéria orgânica decomposta nele propicia a produção de gás metano, que confere, ao ambiente, odores desagradáveis. Por esta razão, desde os primeiros tempos da colonização européia, eles foram considerados lugares de podridão. No entanto, os manguezais são salubres e desempenham papel ecológico dos mais relevantes: mitigam a erosão costeira, propiciam condições excelentes para a reprodução e o abrigo de animais aquáticos em fase jovem e produzem alimento transportado para o mar pelas marés. Os ameríndios, colonos brancos pobres e escravos retiravam deles grande parte de seu sustento.

Sendo desprezados por outros setores da sociedade, os manguezais foram considerados ambientes cujo único valor consistia em extrair lenha e madeira. Pedro Soares Caldeira foi uma das primeiras vozes no Brasil a reconhecer a importância dos manguezais. Ele escreveu uma série de artigos condenando a destruição dos manguezais da Baía de Guanabara (O corte do mangue. Breves considerações sobre o antigo e atual estado da baía do Rio de Janeiro, consequências da destruição da árvore denominada mangue, método bárbaro da pesca e decadência desta indústria. Rio de Janeiro: Tipografia Imp. e Const. de J. Villeneuve & C., 1884), enquanto o governo imperial valorizava a recomposição da Mata Atlântica no maciço da Tijuca.

Outro fator de destruição deste ecossistema é a urbanização, com todos os seus processos. Para crescimento do meio urbano, os manguezais do sul fluminense, da Barra da Tijuca e da Baía de Guanabara foram aterrados. Nestes aterros, erguem-se ruas e casas. De preferência, os pobres ocupam a área, como acontece com o manguezal do Rio Macaé. Pessoas atraídas pela ilusão de empregos gerados pela Petrobras e pela constelação de empresas que lhe dão suporte afluem de todo o Brasil. Não conseguindo postos de trabalho, elas buscam as áreas consideradas insalubres pelas classes média e alta, bem como pelos governos. A necessidade de renda leva-as à mendicância, à prostituição, ao tráfico de drogas e à violência.

Além do mais, a má fama do manguezal leva um núcleo urbano a escolhê-lo como área de sacrifício. Esgoto e lixo são jogados nele. Há ainda intervenções que estrangulam o manguezal e lhe causam estresse. Raros são os manguezais, no Rio de Janeiro, que escaparam deste destino, acentuado no período republicano com obras de saneamento e expansão urbana. Só a partir dos anos de 1970, o ecossistema passou a interessar mais aos cientistas, embora alertas sobre sua importância tenham sido feitos anos antes (FREISE, F. W. A importância da conservação dos mangues como viveiros de peixes. Anais do 1º Congresso Nacional da Pesca. Rio de Janeiro: Ministério da Agricultura/Divisão de Caça e Pesca, 1934).

Arthur Soffiati é historiador ambiental e pesquisador do Núcleo de Estudos Socioambientais da UFF/Campos

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