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Krajcberg e o manguezal

No meu livro “O manguezal na história e na cultura do Brasil” (Campos dos Goytacazes: Faculdade de Direito de Campos, 2006), rastreei a influência do manguezal na vida econômica, política, social, jurídica, científica, educacional e artística do Brasil. Ao chegar nas artes, encontrei a figura de Frans Krajcberg, que morreu no dia 15 de novembro de 2017, com 96 anos.

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 Raízes. Desenho com nanquim de mangue vermelho

Krajcberg nasceu na Polônia em 1921. Ele e toda a família foi presa pelo Nazismo. Só ele escapou da morte. Transferiu-se para a Rússia, onde estudou engenharia e artes. Residiu na Alemanha e se transferiu para o Brasil em 1948. Dormiu em bancos de praça e nas praias. Participou da Bienal de São Paulo em 1951. Viveu entre Rio de Janeiro, Paris e Ibiza. Finalmente, em 1972, fixou-se num sítio de sua propriedade em Nova Viçosa, sul da Bahia.

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 Flor do mangue – 1965

Para o artista polonês, a Segunda Guerra Mundial podia ter acabado, mas a guerra da humanidade contra a natureza continuava. Lendo e ouvindo os depoimentos de Krajcberg, tenho a impressão de que ele nunca descobriu devidamente a origem desse divórcio entre homem e natureza. Então, atribuiu à natureza humana às agressões contra o ambiente, sobretudo às florestas.

K3A flor do mangue. Década de 1970

O artista polonês andava pelo Brasil à cata de raízes, caules, folhas, lianas restantes de queimadas e desmatamentos para usá-los em suas esculturas. Ele não procedia como Marcel Duchamp, que tomava objetos e os apresentava como arte, sem lhes fazer qualquer retoque. Era o que Duchamp chamava de “ready-made. Krajcberg trabalhava sobre a matéria vegetal que encontrava.

 

K4Escultura sugerindo mangue vermelho

Revendo algumas reportagens sobre o artista, encontrei-o ainda moço arrancando lianas e, com o machado em punho, cortando escoras de mangue vermelho para seus trabalhos.

Acho que ele começou percebendo arte na natureza e se apropriando dela para, a partir da década de 1970, usar restos de destruição para produzir uma arte de denúncia. Ele já estava residindo na sua casa em Nova Viçosa, construída sobre o tronco de um pequizeiro morto. Ali, ele se tornou conhecido internacionalmente.

Nova Viçosa erigiu-se nas proximidades do ponto em que Pedro Álvares Cabral aportou no futuro Brasil. A cidade localiza-se às margens de uma baía formada pela confluência dos rios Peruípe e Caravelas. Estuário na zona intertropical é local apropriado para o desenvolvimento de manguezal. Por mais repugnância que este ecossistema possa causar em leigos, a estranheza do mangue vermelho sempre chama a atenção das pessoas com suas ramificações caulinares parecendo aranha ou polvo nadando. Um europeu certamente se impressionará com um ambiente inexistente na Europa.

Não foi diferente com Krajcberg, que se utilizou das plantas de manguezal em suas imensas esculturas. Como não podia ser diferente, o mangue vermelho (“Rhizophora mangle”) exerceu fascínio sobre ele e o motivou a empregá-lo em suas obras, mesmo que, em algumas, apenas sugira sua morfologia.

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Mangue vermelho de Nova Viçosa

Conheci o artista na Rio 92, quando ele apresentou suas pinturas, suas esculturas e suas fotografias em três exposições em lugares distintos. Conversamos por pouco tempo. Ele me falou do seu fascínio pelo manguezal, que, para mim, brasileiro, era um ecossistema ainda pouco conhecido. Afundei os pés na lama do manguezal do rio Paraíba do Sul pela primeira vez em 1980. Participei de um encontro sobre manguezais em que conheci a professora Yara Novelli, especialista renomada no tema. Depois, juntei-me a um grupo de educadores em áreas de manguezal em 1992 e estive em várias cidades do Brasil discutindo o tema. Como provenho da área de ciências sociais e gosto de arte, o nome de Krajcberg sempre esteve presente nas minhas palestras.

Não lamento a morte dele, que estava com o organismo debilitado aos 96 anos. Todos nós somos mortais. Mais cedo ou mais tarde, chegará a nossa vez. A diferença é que a maioria das pessoas que partem deste mundo deixam apenas lembranças e saudades para família e amigos. Intelectuais, artistas e ativistas deixam uma vida e uma obra.

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Casa de Krajcberg em Nova Viçosa com o autor

Arthur Soffiati é pesquisador ambietal e historiador