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Martius e o mangue vermelho

MartiusMangueVermelho

Nos duzentos anos da chegada de Carl Friedrich Philipp von Martius ao Brasil, não se pode deixar de homenagear o grande autor de “A flora brasileira”, obra fundamental no conhecimento da botânica do país. Mais particularmente, o manguezal mereceu a atenção dele. Sobretudo o mangue vermelho.

Martius se insere no segundo momento do conhecimento científico do ocidente em processo de globalização. A primeira ocupa os primeiros tempos da expansão marítima europeia, entre o século XV e XVIII. Nesta fase, o conhecimento é bastante empírico e pragmático, ainda se valendo de autores da antiguidade greco-romana e de Marco Polo, viajante italiano que alcançou o extremo oriente na Idade Média. Por mais que cientistas como Piso e Marcgrave, no Brasil holandês, demonstrassem porte vigoroso, eles ainda se movimentam no clima da primeira fase do conhecimento europeu.

O segundo momento se estende da revolução científica do século XVII, com as figuras fundamentais de Francis Bacon, René Descartes, Isaac Newton e Galileu. Nas ciências naturais, destaca-se o nome de Linneu, criador da nomenclatura binária. Com ela, cada espécie vegetal ou animal recebe dois nomes. O primeiro indica o gênero e o segundo a espécie. Assim, os organismos se agrupam em famílias e grupos maiores por suas similaridades morfológicas. Martius pertence a este contexto da periodização científica ocidental.

Por fim, a terceira fase é a ecológica, estendendo-se até a atualidade. Agora, conquanto a classificação binária se conserve, a espécie é colocada no seu contexto ecológico, o que permite entender as relações que ela mantém com o meio.

Além de referir-se ao manguezal e ao mangue vermelho em seu diário “Viagem pelo Brasil”, que escreveu juntamente com seu colega Spix, ele dedica um capítulo ao mangue vermelho no volume I, parte I da sua monumental “Flora Brasiliensis. Esta obra ficou inacabada. Depois da morte de Martius, August Wilhelm Eichler e Ignatz Urban levaram-na adiante.

A descrição se encontra no capítulo XII (“A floresta marítima de árvores vivíparas perto de Ubatuba, na Província de São Paulo”) ilustrada por um bico de pena de Benjamin Mary. Segundo Martius, as espécies de mangue são talassófitos. Sobre o ecossistema manguezal, embora o conceito ainda não existisse, ele exclama: “Esta admirável forma de vegetação não possui apenas um lugar no Brasil, mas está espalhada por todas as bordas entre os limites dos trópicos e assim apresenta em todo lugar o mesmo aspecto, embora não se mantenha num lugar com as espécies.” O insigne naturalista sabe muito bem que o manguezal não é típico do Brasil, mas de todo o mundo costeiro marítimo intertropical. Com justeza, ele observa que, junto ao rio Amazonas e outros grandes rios, a diversidade de espécies vegetais aumenta.Melhor dizendo, aumenta a diversidade de espécies exclusivas do manguezal.

Não é de se estranhar que Martius tivesse sua atenção voltada para o mangue vermelho. De todas as espécies exclusivas de manguezal, as do gênero “Rhizophora” parecem as mais bizarras com suas escoras e com suas raízes aéreas. Este gênero se tornou o símbolo do manguezal em todo o mundo.

No seu estudo, o naturalista alemão recorre aos antigos, como Estrabão, Plínio e Quinto Cúrcio. Depois, passa em revista autores da globalização ocidental, como Oviedo, Clusius, Rocherfort, Plumier, Labat, Dampier, Ray, Sloane, Patrik Brown, Jacquin, Turpin etc. O autor tem um domínio completo sobre a literatura referente ao tema, ainda que apenas no plano da crônica. Ele apresenta referências bibliográficas hoje esquecidas pelos estudiosos. No seu levantamento, ele não omite Piso e Marcgrave, que denominam o mangue vermelho de guapara-iba, seu nome indígena. Acrescenta que “... todos expõem mais ou menos sobre esta árvore, que nas colônias francesas é chamada ‘paletuvier’, ‘paretuvier’ ou ‘manglier rouge’”, enquanto que, em obras inglesas, é chamada de ‘red mangrove’.

Martius observa que o substrato do manguezal é lamoso, mas parece não perceber que a lama é produzida pelo próprio manguezal: “esta forma de vegetação não aparece onde não há um local coberto por camada lamacenta, como por exemplo nas margens arenosas, nas pedras e nos rochedos.” Sobre essa lama, desenvolvem-se florestas características que os espanhóis chamam de manglares e os portugueses de manguezais. Nota que ela espalha desagradáveis odores.

No geral, ele adverte que “... quando, pela primeira vez, o Europeu se aproximar das margens dos trópicos, nada chamará a sua atenção senão a enorme abundância e fecundidade das frondes, e muito pouco daquela variedade e elegância das formas que costuma ser vista.” Ou “... o europeu que se aproximar até bem próximo destas florestas litorâneas, certamente verá uma floresta, cujos caules luzidios são vistos em forma de muitos arcos, da mesma forma que raízes que se sucedem como se fossem uma árvore única que parece abrir para todos os lados não só raízes, mas também ramos e folhas.”

Ele menciona um caso: “Herrerarelatou sobre quantas e quais doenças e sofrimentos, Alonso de Ojeda, forte e destemido explorador, e seus setenta companheiros suportaram na floresta litoral até a margem de terra firme, enquanto se defendendo da perseguição dos índios, se ocultavam nos densos esconderijos das árvores de mangue, durante os trinta dias em que, pulando de um arco a outro dos ramos, através da lama profunda, vagou em torno delas e perdeu a metade dos companheiros, durante todo o tempo que levou para sair até o litoral firme.”

Advertência semelhante havia sido feita pelo missionário capuchinho Claude d’Abeville, no século XVII, acerca do perigo que o manguezal representava para o navegador, pois, quanto mais perto da linha do Equador, mais desenvolvidas e emaranhadas são as árvores.

Embora Martius, como botânico, colocasse a descrição de uma espécie em primeiro lugar, convém lembrar que a primeira divisão do Brasil em províncias fitogeográficas foi dele. Essa divisão, aliás, aproxima-se muito das adotadas atualmente. Assim, antes de chegar ao mangue vermelho, ele vê o bosque: “... as espécies de árvores que formam essas pequenas florestas (...) se chamam pouco corretamente vivíparas. Em todo lugar são chamadas plantas vivíparas aquelas que são cortadas com todo o preparo para reproduzir (...) ou o embrião começa a se desenvolver e logo de início a parte da semente é bafejada pelo sopro da vida, sem que o pericarpo, do qual sai, seja afastado da árvore materna, ou germinará quando não estiver no pericarpo que, separado da planta, já caiu (...) isto é único e muito raramente encontrado na ordem das plantas.”

martiusEle nota, oportunamente, assim como acontece hoje, que o manguezal compreende poucas espécies: a “Rhizophora mangle” (com a qual o autor da “Florae Essequeboensis” distinguiu “Rh[izophora] racemosa”), a “Avicennia nítida” e “A. tomentosa”, “Conocarpus erectus”, “Laguncularia racemosa” e a “Bucida buceras”. E observa que as arvores vão de 15 a 40 pés de altura.

“A ‘Rhizophora mangle’ dos autores é chamada mungui, mangue ou mangui, numa língua de origem malásia, pelos portugueses e espanhóis do outro mundo.”
Anotações do autor sobre o mangue vermelho: “... a parte mais importante está no pericarpo que é mais ou menos soldado com o tubo inferior do cálice e uma só semente se desenvolve. O embrião germina no interior do fruto com o pericarpo fechado. Com a semente reclusa no fruto, ele aumenta até que, perfurado no seu vértice, cresce para fora. Quando atinge um certo crescimento, desprende-se e cai em direção do solo lamacento. Ali, em pouco tempo, deixa sair suas folhas para abrir pequenas penugens.”

A planta “... começa a emitir, da parte inferior, raízes estendidas obliquamente em todas as direções e se fixa no litoral lamacento. Estas raízes transformadas rapidamente em tronco formam arcos que enrolam entre si por causa do desenvolvimento das árvores.” Curioso notar que, no distante ano de 1817, Martius considera as ramificações em forma de arco como tronco, ou seja, como caule. E não como raiz, como até pouco tempo se pensou. Por outro lado, distingue as “longas raízes aéreas de seus ramos superiores.”

Então, seu olhar se volta para a fauna: “... em algumas regiões as raízes estão imersas na água de forma compacta são inteiramente cobertas de ostras.” “Cancer uça” L. (Gegacinus Lam.) – aparentemente o “Ucides cordatus” Linnaeus, 1763.

Revelando o espírito utilitarista do seu tempo, ele escreve: “... as vantagens que esta árvore maravilhosa traz para os homens são copiosas e não devem ser dsprezadas”, enumerando-as:

1- “... as densas valas das florestas dos mangues não somente protegem a terra da violência das ondas do mar e são afastadas pelos seus espessos e firmes movimentos, mas na verdade também desde aquele tempo, que recua desde a província maranhense (Claude d’Abeville) são vistas como barreiras, com as quais o litoral ficava protegido das invasões inimigas e parecia dificilmente poder ser atingido quando um exército armado penetrasse por via clandestina através das enorme extensões destas florestas.”

2- O tronco da “Rhizophora”, “É empregado para várias construções devido a sua firmeza e constância na água e de utilização menos provável nos lugares secos onde encontram-se amontoados.

3- “Os arcos das raízes são usados em vários trabalhos dos operários. A substância da casca amacia os couros, pois é claro contém uma grande quantidade de princípios tânicos ou de matérias utilizadas na curtição.” No Maranhão “... as florestas de mangue são abatidas anualmente, porque, se aqui e ali são abandonadas as árvores férteis, isto não redunda em nenhum prejuízo, em virtude da abundância e rapidez do seu crescimento.”

4- “A raiz das árvores é aplicada quente nas mordidas envenenadas do peixe niqui (“Cottus grunmes L.”), seda as dores causadas por elas e reconstitui o membro ferido, embora no início provoque dores na cabeça, segundo Piso, que ensinou que diante desta árvore tanto pela sua natureza quanto por tantas virtudes úteis e por causa do seu sistema especial de se propagar não deve ser desprezado o exemplo da providência divina (...) lemos no itinerário de Merolla que, próximo do Congo, um certo bispo atingido por uma doença, fez o sinal da cruz numa árvore desta espécie.”

Embora se interesse por descrever apenas o mangue vermelho, Martius menciona outrosgêneros encontrados em manguezais: “Seguiera”, “Licania”, “Terminalia”, “Dodonaea viscosa”, “Gustavia brasiliana”, “Annona palustris” e “A. paludosa”, “Machaonia brasiliensis”, “Cacoucia coccinea”. Quase todas não são exclusivas de manguezal.
Sobre a siribeira, ele registra que a “’Avicennia nítida”e “A. tomentosa” são conhecidas pelo nome tupi ‘cereiba’. “Laguncularia racemosa”, no Peru, foi chamada ‘montachiba’; na província de Caracas dizem que uma certa ‘mangle bobo’ parece ser a ‘mangle alba’, ‘white mangrove’ das Antilhas inglesas; entre os colonos franceses em Caiena, ela é chamada ‘palétuvier rouge’.

Arthur Soffiati é professor, pesquisador e historiador ambiental