Menu

Pequeno guia dos manguezais de Búzios

Como os animais terrestres se desenvolveram a partir de animais marinhos, as plantas terrestres também evoluíram de plantas aquáticas. Na primeira Era dos organismos pluricelulares – o Paleozoico –, as plantas não eram completas. Na era seguinte – Mesozoico –,grande parte delas, além de raízes, caule e folhas, passou a ter flores, frutos e sementes. Em torno de 60 milhões de anos, algumas dessas plantas mergulharam os pés na água salgada e se adaptaram a ela. Nasceram assim as plantas de mangue.

Foi um esforço grande. Elas buscaram a água salobra dos estuários. Desenvolveram raízes respiradoras junto a raízes nutridoras. Os cientistas deram às raízes respiradoras o nome de pneumatóforos. Elas se desenvolvem de baixo para cima, ao contrário das nutridoras, que se enterram no substrato para obter nutrientes. Nos pneumatóforos, há glândulas que absorvem ar quando emersas, ou seja, quando a maré está baixa. Essas glândulas chamam-se lenticelas.

buzios1tapete de pneumatóforos no Mangue de Pedra retendo lixo plástico

As espécies exclusivas de manguezal lidam com o problema do excesso de sal. Para sobreviverem, elas desenvolveram mecanismo que barram a entrada de sal no seu metabolismo ou o dilui ou o expele pelas folhas. Na costa brasileira, existem apenas seis espécies de mangue: o mangue vermelho está representado por três espécies, sendo que, no Sudeste, existe apenas uma (“Rhizophora mangle”); o mangue preto ou siribeira, com duas espécies, sendo a “Avicennia schaueriana” a que ocorre em Búzios; e apenas uma espécie de mangue branco (“Laguncularia racemosa”), que ocorre em todo o Brasil. Existe uma espécie denominada mangue de botão (“Conocarpus erectus”), que se associa ao manguezal em diversos lugares, não exclusiva desse ecossistema. Há várias outras espécies associadas. Mangue é a planta. Manguezal é o conjunto delas, formando um ecossistema com outras plantas não exclusivas e com animais.

Os manguezais se organizam de três formas. A mais comum é o manguezal ribeirinho, que se organiza na foz de rios que desembocam no mar. O encontro da água doce com a água salgada cria condições ideais para as plantas de mangue. Os manguezais de bacia crescem em pontos fundos de rios, e precisam se adaptar a um regime hídrico lento de circulação de água das marés. O manguezal de borda ou de franja cresce ao longo do litoral, em pontos em que a água marinha contém teor de sal mais reduzido e a energia do mar é mais baixa que em outros pontos. Há ainda manguezais enclausurados no interior de lagoas que eram, outrora, cursos d’água com foz no mar. Este tipo se assemelha aos manguezais de bacia.

Os manguezais produzem nutrientes para a vida marinha. Eles são transportados diariamente pelas marés. Criam também excelentes ambientes para a reprodução de espécies aquáticas de água doce e de água salgada. Eles ainda protegem a costa de ventos fortes e de ressacas, sendo suas plantas excelentes para absorver e armazenar gás carbônico, o principal gás do efeito-estufa.

Na linha de costa de Búzios, os manguezais tendem a ser de franja. Havia quatro cursos d’água na enseada formada a partir do rio São João. Dentro ou fora dos limites municipais de Búzios, o rio Una é o que conta com as três espécies de manguezal.

buzios2Aspecto do manguezal do rio Una

Abaixo dele, existia o rio Trapiche, cuja foz foi transformada na Marina de Búzios. Hoje conta com algumas plantas de mangue isoladas e com algumas espécies de caranguejo, notadamente o guaiamum, que resiste a impactos fortes.

buzios3Marina de Búzios, construída com o alargamento e o aprofundamento do rio Trapiche  

Mais abaixo, situa-se a foz do córrego de Manguinhos, com exemplares muito desenvolvidos de mangue branco e plântulas (exemplares ainda pequenos) de mangue preto e vermelho.

buzios4Aspecto da população de mangue branco domanguezal do córrego de Manguinhos

Mais abaixo ainda, no centro da cidade, desemboca o córrego de Barrinha, absorvido por um restaurante em seu estuário e com uma população bem desenvolvida de mangue branco.

buzios5Aspecto do manguezal do córrego de Barrinha. Visão da praia

Já a partir do rio Una, nota-se a tendência à formação de manguezais de franja em Búzios. A enseada interna apresenta salinidade e energia baixas, favoráveis a este tipo de manguezal. Na foz do próprio Una, uma população de mangue branco se alonga junto à costa.

buzios6Formação de manguezal de franja na margem direita do rio Una

Mais adiante, alguns exemplares magníficos de mangue siribeira anunciam a joia buziana de manguezal: o famoso Mangue de Pedra.

buzios7Exemplares de mangue preto nas imediações do Mangue de Pedra

Em todos os sentidos, o Mangue de Pedra é notável. Ele se estende por um trecho costeiro coberto de pedras e é alimentado por água doce, na sua retaguarda, que verte de magnífica colina da Formação Barreiras. O ambiente apresenta importância geológica, biológica e cultural.

buzios8Aspecto do Mangue de Pedra

Outro manguezal de franja expressivo desenvolveu-se na Ponta da Sapata, no lado interno da Enseada de Búzios. Nele, existem exemplares bem desenvolvidos de mangue branco e mangue preto.

buzios9Aspecto do manguezal da Ponta da Sapata

Por fim, até o momento, na Praia da Foca, já em mar aberto, no lado externo do promontório de Búzios, cresceu uma pequena população de mangue preto. Os cientistas consideram o mangue vermelho como o mais apropriado para ambientes pedregosos e coralinos. É curioso notar que, nos manguezais de franja de Búzios, não existe um exemplar sequer desta espécie de mangue.

buzios10População de mangue preto florindo na Praia da Foca

Todos os manguezais existentes nos domínios de Búzios carecem de proteção. Por mais que o ecossistema manguezal seja Área de Preservação Permanente (APP) pelo só efeito da lei, ele não é respeitado. Daí a necessidade de superpor uma figura de proteção, como a Unidade de Conservação (UC). Em face de sua importância natural e cultural, o Mangue de Pedra é o mais forte candidato a esta proteção especial. Ela pode ser criada pelo governo federal, estadual ou municipal. As expectativas se voltam para o governo municipal.

Arthur Soffiati é historiador ambiental e pesquisador do Núcleo de Estudos Socioambientais da UFF/Campos

Comentários  

+1 # Mangue de PedraPedro Caetano 07-02-2017 19:21
Ola! Parabéns pela matéria referente ao manguezal .Infelizmente nossos manguezais sofrem com a pressão imobiliária e a ganancia humana.



Pedro Caetano dos Santos
Projeto Preservar Manguezais de Caraguatatuba
Manguezal Berço Ameaçado
Apaixonados pelo Mangue
Responder | Responder com citação | Citar

Adicionar comentário


Código de segurança
Atualizar