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Nasce um Manguezal na Ogiva

O Manguezal da OgivaO Manguezal da Ogiva cresce na área das antigas salinas Ypiranga I e II (Papipress)
Nasce um Manguezal?

Não sou um cientista da natureza, mas um historiador ambiental que, desde 1980, estuda as relações das sociedades humanas com a natureza não humana. Na condição de eco-historiador, necessito de conhecimentos de geologia, hidrologia e biologia para compreender as reações dos diversos ecossistemas aos impactos causados pela ação humana coletiva.

Estudei os manguezais da Região dos Lagos e notei diferenças neles, sobretudo entre os de Búzios e os da dilatada lagoa de Araruama. Na grande enseada de Búzios, a salinidade é baixa e a energia do mar é fraca. Nessa enseada, encontramos manguezais na foz dos rios São João e Una, onde a salinidade é mais baixa ainda pelo aporte de água doce dos rios. O encontro da água doce com a água salgada forma, na foz dos rios, o que se conhece por estuário. Nesse ponto, desenvolvem-se manguezais ribeirinhos. No estuário desses dois rios, existem as três espécies exclusivas de manguezal do Sudeste: o vermelho (Rhizophora mangle), o branco (Laguncularia racemosa) e o preto (Avicennia schaueriana).

Entre o rio Una e a ponta da Sapata, há uma tendência à formação de manguezais de franja, tipo de manguezal que cresce na costa sem a presença nítida de uma fonte de água doce em sua retaguarda. O exemplo mais notável é o famoso Mangue de Pedra, que, tendo formação típica de mangue de franja, conta com abastecimento de água doce, vertendo na base de uma colina de tabuleiros.

Na face de Búzios voltada para mar aberto, encontrei apenas uma pequena população de mangue preto na Praia da Foca. A alta salinidade e a forte energia oceânica não permitem manguezais maiores. Entrando no canal de Itajuru, a salinidade aumenta e o impacto das ondas e das marés diminui. Os manguezais assumem outra configuração fisionômica. Eles passam a ser manguezais de bacia, pois se desenvolvem ao redor de águas mais profundas. As espécies mais comuns são o mangue preto e o mangue de botão (Conocarpus erectus). Há também o aumento de espécies vegetais associadas e invasoras. Mesmo o mangue de botão não é uma espécie exclusiva de manguezal. O exemplo mais conhecido é o do manguezal de Porto dos Carros, teoricamente protegido pelo Parque Ecológico Dormitório das Garças Walter Bessa Teixeira.

mangueOgiva2Manguezal na Ogiva (Antônio Ângelo/Convés)

Agora, chega-me a notícia de que, numa grande área de salineira desativada, na margem esquerda do canal de Itajuru, um manguezal se formou. Em vários portos, pelo que vejo, ele já assumiu porte adulto. Uma das caraterísticas notáveis do mangue branco e do mangue preto são as raízes respiratórias, raízes que crescem do subsolo para a superfície para respirar. Tecnicamente, essas raízes recebem o nome de pneumatóforos. Junto ao pé do mangue preto, elas apresentam um aspecto alto e cerrado, prova de que as plantas alcançaram a fase adulta.

Arthur Soffiati é historiador ambiental e pesquisador do Núcleo de Estudos Socioambientais da UFF/Campos 

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