Tentei chorar, mas não consegui

A imagem do corpo do menino Aylan Kurdi (3 anos) em uma praia da Turquia gerou comoção geral ao ganhar o mundo, esta semana, via imprensa e internet. Além das fotos tiradas de vários ângulos, cartunistas e artistas refizeram a cena com um olhar mais poético para ilustrar uma tragédia que tem se repetido quase que diariamente nos últimos anos. Nos noticiários, um dos debates refere-se à linha editorial adotada. Os veículos deveriam ou não publicar uma imagem “tão forte”? Entre os argumentos favoráveis, encontra eco o de que é preciso comover (e outras variantes, como chocar, sensibilizar) para que uma atitude seja tomada. Na era das redes sociais, a linha editorial dos veículos é o que menos importa para se alcançar a coletividade, pois sem filtro ou tratamento, os assuntos – de preferência os mais chocantes – ganham o mundo com uma velocidade inquestionável.

Ao tentar refletir um pouco e não parecer tão dura diante da imagem, deixei correr meus pensamentos, sem nenhuma pretensão ou compromisso acadêmico, ao passado – às minhas origens de descendente de imigrantes europeus cristãos e, por que não, do nosso continente (do africano e asiático também).

O que vemos hoje, são milhares de seres humanos que partem de países “pobres” ou empobrecidos, assolados pela fome, guerra e outras tragédias, em busca de um lugar ao sol nos países de “primeiro mundo”. Movidos pela esperança, submetem-se a todo tipo de sofrimento e humilhação para tentar chegar ao “paraíso”, sim, pois é esta a memória coletiva que a maioria de nós, reles mortais, tem dos países que estão no topo da pirâmide do desenvolvimento dito como social, cultural e, acima de tudo, econômico. Ao fazer o caminho inverso dos colonizadores, encontram todo tipo de barreiras, entre elas naturais (distância e a fúria do mar), culturais, diplomáticas e, a mais cruel, a humana.

Lembrando das aulas de história, na era das grandes navegações e da “descoberta” de novas terras, os colonizadores, oriundos de países “desenvolvidos”, chegaram chegando aos novos territórios, impondo – geralmente por meio de violência – sua superioridade, cultura, religião, enfim, domínio. Nativos das colônias de povoamento ou de exploração foram subjugados em prol das necessidades (questionáveis) da Coroa. À frente dessa jornada, estavam ingleses, franceses, portugueses, espanhóis, enfim, europeus.

Posteriormente, para fazer prosperar a nova terra, os navios negreiros e os vapores conduziram milhares de escravos e imigrantes (meus antepassados estavam entre eles). Sabemos que não viajaram de primeira classe, tampouco fizeram selfies dos cruzeiros oceânicos. Pela precariedade da viagem, muitos saíram dos seus países de origem sem jamais terem pisado na terra prometida. Depois, com um povo (ou mão-de-obra) já formado, trouxeram suas máquinas e fábricas poluentes para promover o desenvolvimento local.

Agora, séculos depois, a mesma humanidade tenta fazer o caminho contrário. Partem da África, Ásia, América Latina em busca de um futuro, pois o sofrimento tronou-se tamanho ao ponto de um náufrago declarar “que diferença faz morrer lá ou morrer no mar” (Sinan Nabir, refugiado sírio de 51 anos). E o que encontram pela frente? Portões fechados, ironicamente, nos mesmos países que um dia vieram até nós. Uma das coisas mais hilárias que ouvi num dos noticiários é que o ingresso maciço de imigrantes muçulmanos nos países europeus abalaria a “fé cristã”. Hipócritas, não foram vocês que mataram milhares em nome de Deus no passado? E não é esse mesmo Deus que manda amar ao próximo como a nós mesmos? Apenas uma fé vazia, construída em cima da tradição, sem obras, e que já está morta há muito tempo, residindo apenas dentro de luxuosos templos, vai ruir com a chegada de praticantes de outras doutrinas.

Confesso, não derramei uma lágrima pelo menino Aylan – e gostaria que não me apedrejassem por causa disso. Creio que comoção e ativismo digital não resolvem problemas, ainda mais aqueles tão complexos quanto ao que está além da chocante imagem do corpinho estendido na praia. É necessário que a ONU, FMI, UNICEF e os blocos econômicos dos países desenvolvidos se posicionem, pois quando foi interessante, vieram até nós com seus “espelhos”, como diz Renato Russo em “Índios”.Mais do que aceitar os refugiados, seria interessante que eles nunca precisassem ter saído de suas pátrias. E para finalizar:

“Quem me dera, ao menos uma vez, ter de volta todo o ouro que entreguei a quem conseguiu me convencer que era prova de amizade se alguém levasse embora até o que eu não tinha.

Quem me dera, ao menos uma vez, esquecer que acreditei que era por brincadeira que se cortava sempre um pano-de-chão, de linho nobre e pura seda.

Quem me dera, ao menos uma vez, explicar o que ninguém consegue entender: que o que aconteceu ainda está por vir e o futuro não é mais como era antigamente.

Quem me dera, ao menos uma vez, provar que quem tem mais do que precisa ter quase sempre se convence que não tem o bastante e fala demais por não ter nada a dizer.

Quem me dera, ao menos uma vez, que o mais simples fosse visto como o mais importante. Mas nos deram espelhos e vimos um mundo doente.

Quem me dera, ao menos uma vez, entender como um só Deus ao mesmo tempo é três e esse mesmo Deus foi morto por vocês – é só maldade, então, deixar um Deus tão triste.

Eu quis o perigo e até sangrei sozinho. Entenda – assim pude trazer você de volta pra mim, quando descobri que é sempre só você que me entende do início ao fim.

E é só você que tem a cura para o meu vício de insistir nessa saudade que eu sinto de tudo que eu ainda não vi.

Quem me dera, ao menos uma vez, acreditar por um instante em tudo que existe e acreditar que o mundo é perfeito e que todas as pessoas são felizes.

Quem me dera, ao menos uma vez, fazer com que o mundo saiba que seu nome está em tudo e mesmo assim ninguém lhe diz ao menos obrigado.

Quem me dera, ao menos uma vez, como a mais bela tribo, dos mais belos índios, não ser atacado por ser inocente.

Eu quis o perigo e até sangrei sozinho. Entenda – assim pude trazer você de volta pra mim, quando descobri que é sempre só você que me entende do início ao fim.

E é só você que tem a cura para o meu vício de insistir nessa saudade que eu sinto de tudo que eu ainda não vi.

Nos deram espelhos e vimos um mundo doente… tentei chorar e não consegui.”

Andréa Luiza Collet é jornalista, mãe, e ainda tem um pouco de fé na humanidade

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