Siri na lata: o caso Cunha

Era uma vez um siri que saiu de sua toca. Logo viu uma lata e, curioso, aproximou-se. Havia uma pedra ao lado da lata e decidiu subir e olhar. Entendeu que o lugar poderia ser uma ótima toca e se jogou dentro da lata. Caiu de costas e lá ficou se contorcendo até se apoiar na lateral da lata. Não foi além disso. Toda vez que levantava o corpo, escorregava e caia de costas. E lá ficou, naquele “tenta e cai” até que o sol a pino o torrou.

Eduardo Cunha seria um siri na lata.

Quando estava em curso a CPI da Petrobrás, uma lata, entendeu que seria um ótimo lugar para ir e falar de coisas sobre as quais ninguém havia lhe perguntado. Quando perguntaram, mentiu. Caiu dentro da lata. Dias depois, caído de costas no fundo da lata, decidiu falar de outras coisas mais sobre as quais ninguém havia lhe perguntado: no confortou de sua casa contou para um repórter uma história mirabolante. Dali em diante cada resposta dada às perguntas do repórter foi uma vã tentativa de sair da lata.

Contrário ao de Einstein, cujo cérebro era normal, o de Cunha deveria ser preservado: haveria 100% de probabilidade de ter ocorrido um rompimento nas conexões de neurônios.

Em qualquer país uma pessoa entrega uma quantia para ser guardada, em confiança, por um banco, podendo ela, em qualquer tempo, solicitar fazer uso de parte ou de toda a quantia. Cunha insiste em afirmar haver uma exceção, a sua, quando procedeu da mesma maneira num banco na Suíça, com uma alteração: a quantia teria sido transferida para um trust, supostamente não numerado, que passou a ser o proprietário da quantia. Mas, manteve a condição de poder usufruir de parte ou de toda a quantia, como “usufrutuário”. Ele e somente ele. Um espanto! Além disso, manteve e mantem a exclusividade de transferir parte ou a totalidade da quantia para outro trust, que passaria a ser o novo proprietário daquela parte ou da totalidade da quantia. Outro espanto!

Acresça-se outro espanto: não apresenta prova alguma de que a quantia depositada no tal trust é o lucro de atividades comerciais na década de 1980, no caso a exportação de latas de carne enlatada para vários países na África. Homem de excepcional memória, que conhece o Regimento Interno da Câmara da frente para trás e de trás para a frente, Cunha não consegue se lembrar do nome do produto, do fabricante, da empresa que criou. E não guardou uma única nota fiscal de uma das muitas operações de venda que executou. Nem mesmo uma etiqueta numa lata deu-se ao trabalho de guardar. No entanto, guardou todos os passaportes que usou quando fez várias viagens à África.

No cérebro de Cunha, numa outra hipótese, o cerebelo teria trocado de lugar com o lobo frontal.

Cunha ainda tem uma oportunidade para sugerir ao mundo que não deveria ser dispensado, mas o plenário da Câmara de Deputados deixará claro, para ele, que os cemitérios estão lotados de pessoas indispensáveis. Além do mais, foi ele quem criou as condições que resultaram na sua atual situação: indo depor, voluntariamente, na CPI da Petrobrás, “teria metido o nariz onde não foi chamado, como um siri que sai da toca e cai dentro de uma lata”.

Espera-se que Cunha, mesmo por um reduzido tempo, entenda que saber não basta para sair de dentro da lata onde se jogou. Seu destino é a “República de Curitiba”, onde uma manada de corruptos o aguarda.

Ernesto Lindgren
CIDADE ONLINE
14/07/2016

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