Sem IML, moradores da Região dos Lagos fazem Via Crúcis para enterrar parentes

O comerciante Luiz Fernando Corrêa passou por uma Via Crúcis para enterrar o corpo da sobrinha | Foto: Mateus Marinho
Mateus Marinho
Sem sombra de dúvidas, o momento mais triste de uma pessoa é quando ela tem que enterrar um ente querido. Esta é a única certeza da vida, mas a verdade é que nunca estamos preparados para a despedida. Por isso mesmo, a burocracia necessária para a realização de um enterro deveria ser rápida e humanizada. Mas nem sempre é o que acontece.
Basta ver a situação dos moradores de Cabo Frio, Búzios, São Pedro da Aldeia e Arraial do Cabo, que há mais de dois anos não podem utilizar os serviços do Instituto Médico Legal (IML) de Cabo Frio. Após ter as atividades interrompidas para uma reforma no prédio, o local nunca mais voltou a funcionar como antes. A liberação de corpos, por exemplo, deixou de ser feita, obrigando as famílias a terem que ir até Araruama para a realização do procedimento obrigatório.
O IML de Cabo Frio encerrou parte das atividades em maio de 2016 para uma reforma no prédio, e ainda não há data definida para o retorno das atividades em sua totalidade. Assim que o IML foi fechado uma placa foi colocada em frente a unidade indicando que a obra estava sendo financiada pelo Banco do Brasil a um custo de R$ 370,3 mil. A reportagem de CIDADE entrou em contato com a assessoria da Polícia Civil, responsável pelo serviço, mas não teve resposta.
“Minha sobrinha morreu no dia 20 de março, dentro de casa, numa terça-feira. Até o IML mandar um médico para poder atestar a morte dela, se passaram 30 horas. Lógico que a distância atrapalhou, se o IML de Cabo Frio estivesse funcionando, a solução seria muito mais rápida”, conta o comerciante Luiz Fernando Corrêa, de 61 anos, morador de Tamoios, segundo distrito de Cabo Frio.
A distância entre Cabo Frio e Araruama é de aproximadamente 40 quilômetros. De carro o trajeto é feito entre meia hora e 50 minutos. De ônibus, o trajeto dura de 40 minutos a uma hora, ou até mais em horários de pico. A situação é ainda pior para quem mora em Tamoios ou Búzios.
O caso relatado por Luiz Fernando é surreal, afinal, a família ficou mais de um dia inteiro com o corpo dentro de casa. Como se não bastasse, após o corpo ser levado para o IML de Araruama, ele ainda teve que passar o dia todo dentro do instituto.
“Eu fiquei lá dentro de 8h da manhã até às 17h30. Questionei aos funcionários o porquè da demora, e eles responderam que a prioridade é para os moradores de Araruama, e que eles estavam fazendo um favor para quem era de outra cidade. Isso me magoou muito, tamanho desrespeito”, acusa.
Mesmo com a distância, a demora e tanto descaso, ele conseguiu enterrar a sobrinha. Mas o trauma ficou.
“Foi uma experiência muito desagradável. Não desejo pra ninguém. Ninguém merece passar por isso na hora de enterrar um parente, um amigo, seja quem for”, sentencia Luiz Fernando.
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