São Fidélisdos dinossauros ao homem (I)

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Nesse artigo inicial nossa história remonta há 200 milhões de anos passados e se divide em quatro momentos geológicos e históricos.

Primeiro momento. África e América do sul estavam unidas, formando o supercontinente de Gondwana. Recuamos 200 milhões de anos no tempo. Mesmo com o aumento da expectativa de vida do Brasileiro, esse é um tempo inimaginável para nós, pois, se vivermos 100 anos, é muito. Os cientistas supõe que os dinossauros se originaram em terras do futuroBrasil e circularam por uma vasta região do mundo, já que não havia ainda os dois continentes com um oceano a separá-los como hoje.
Nesse longínquo tempo, não havia vida pensante para supor que um dia o homem sedesgarraria de um grupo animal. Não existindo África e América do Sul, lógico que não havia Brasil nem São Fidélis. Seus territórios, porém, já existiam e neles vagavam grandes e pequenos animais, notadamente dinossauros. Mas, se existisse São Fidélis, seus habitantes poderiam chegar à África a pé enxuto, como Moisés e os hebreus atravessaram o Mar Vermelho.

O dinossauro saurópode “Maxakalisaurus topai”, cujo nome científico homenageia os índios maxacali, viveu em Minas Gerais, onde foram encontrados seus restos fósseis. Ele viveu há 80 milhões de anos, tinha 13 metros de comprimento e pesava nove toneladas. Essa espécie e outras poderiam muito bem ter nascido, crescido, se reproduzido e morrido no território hoje correspondente a São Fidélis. Mas o terreno não é propício a processos de fossilização, que consiste transformar matéria orgânica em mineral.

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Representação do “Maxakalisaurustopai”

Segundo momento. Entre 140 e 80 milhões de anos, o supercontinente de Gondwanasofreu uma grande fratura e a deriva continental foi afastando a África da América do Sul. Na região dos Lagos fluminense existem marcas que evidenciam essa separação. Antes que o processo de divórcio fosse concluído, a Terra foi atingida por um meteorito na altura do atual Golfo do México. Essa colisão colossal levantou muita poeira e provocou intensas e demoradas erupções vulcânicas. Esse pó reduziu a radiação solar sobre o planeta e, consequentemente, o processo de fotossíntese. Houve uma grande redução de plantas. Os animais herbívoros sucumbiram. Sem eles, os carnívoros também se extinguiram. Foi o fim dos grandes animais de sangue frio, entre eles, os dinossauros. Segundo os cientistas, para sobreviver às novas condições climáticas era preciso reduzir o tamanho dos corpos e aquecê-los com sangue. Segundo os cientistas, um grupo de dinossauros sobreviveu e chegou aos dias atuais. É o grupo das aves. Ninguém poderia imaginar que, ao ver um urubu em pleno voo ou ouvir um galo cantar, está diante de um dinossauro. Outro grupo que prosperou foi o dos mamíferos, que internalizou o ovo e desenvolveu a reprodução uterina.

A América do Sul tornou-se um grande continente isolado. É o que os cientistas chamam de Esplêndido Isolamento. São Fidélis ainda não existia nem poderia existir. Os homens ainda eram um sonho de Deus. Mas seu território estava lá. Nessa grande ilha, afastada da irmã África, da América do Norte e da Antártica, desenvolveu-se uma fauna mamífera singular. Ela era representada por preguiças e tatus gigantes e grandes mamíferos. Esses animais eram, em grande parte, herbívoros. Um tatu descomunal como o “Hoplophoruseupharacutus” teve seus fósseis encontrados em Lagoa Santa, Minas Gerais. Mas poderia muito bem ter andado pelas terras hoje dentro do município de São Fidélis. Ele tinha dois metros de comprimento e 400 quilos de peso. Era maior e mais pesado que um fusca.

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 Representação dos “Hoplophoruseupharacutus”

Terceiro momento. O tempo dos supermamíferos sul-americanos chegou ao fim quando se formou o Istmo do Panamá, entre cinco e dois milhões de anos atrás. Essa ponte entre a América do Sul e a América do Norte permitiu a circulação de plantas e de animais nos dois sentidos: norte e sul. Esse evento geológico criou o que os cientistas denominam Grande Intercâmbio Americano. Ele representa o fim do Esplêndido Isolamento. A América do Sul foi invadida por animais agressivos, como ursos, elefantes, lhamas, guanacos, porcos, esquilos, coelhos, lobos, cavalos e felinos, entre esses últimos o tigre de dentes de sabre. Supõe-se que macacos e roedores vieram da África, atravessando o Oceano Atlântico de ilha em ilha sobre balsas de vegetação. Difícil acreditar que animais tenham feito, em milênios, a viagem que Colombo e Cabral fizeram em meses.

Esses animais vindos da América do Norte e da África devem ter vagado pelas terras da futura São Fidélis. O mais conhecido deles é o “Smilodonpopulator”, que foi batizado com o nome de tigre de dente de sabre. Ele era um terrível predador.

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Representação do “Smilodonpopulator”

A fauna antiga sofreu a competição da nova fauna, também sendo comida por ela. Mesmo assim, algumas espécies ainda conheceram a primeira leva de humanos. A nova fauna também. Alguns animais chegaram a nossaépoca, como a anta, a onça, os veados, o tamanduá. Eles andaram até pouco tempo nas terras fidelense.Acabaram expulsos ou eliminados.

No próximo artigo, abordaremos as duas invasões da América por seres humanos.

Arthur Soffiati é historiador ambiental e pesquisador

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