Reflexões sobre o tempo

Reflexões sobre o tempo
Reflexões sobre o tempo

Reflexões sobre o tempoJacques Le Goff, o grande medievalista francês, escreveu um ensaio sobre a periodização do tempo pelos historiadores. Ele foi publicado recentemente com o título-pergunta “A história deve ser dividida em pedaços” (São Paulo: Unesp, 2015). É seu derradeiro livro, pois ele morreu em 2014.

Ao longo da reflexão, ele emprega o conceito de periodização como fio condutor do ensaio, em lugar de idade, como é comum na história produzida no mundo ocidental: Idade Antiga, Idade Média, Idade Moderna e Idade Contemporânea. Le Goff observa que “O recorte do tempo em períodos é necessário à história, quer seja ela considerada no sentido geral de estudo da evolução das sociedades ou no de tipo particular de saber e de ensino, ou ainda no sentido de simples desenrolar do tempo.”

A ocidentalização do mundo, comumente chamada de globalização ou de mundialização, esconde o autor do processo. Não foi a China clássica ou a Civilização Muçulmana que invadiu o mundo num processo de aculturação de diversos matizes, mas a Europa Ocidental a partir do século XV. A ONU estabeleceu o nascimento de Cristo como marco referencial de tempo para todo o mundo. Por mais que cada cultura tenha demarcação própria de tempo, no plano internacional, todas elas devem seguir a referência cristã de periodização do tempo, o que indica imposição hegemonia ocidental.

Mas não é essa a reflexão de Le Goff. Ele se concentra em examinar as diversas concepções de periodização do tempo no Ocidente, mais particularmente a que se refere à separação da Idade Média com relação aos tempos modernos. Ele explica que, no Ocidente, “O desejo de periodização só apareceu nos séculos XIV e XV.”

Acompanhando o livro, o primeiro a usar a denominação Idade Média foi o poeta Petrarca (1304-1374), que desejava distinguir o esplendor de seu tempo do que ele considerava um tempo antecedente. Ora, o termo “média” pressupõe que existe um tempo precedente e um tempo posterior. Quem usou pela primeira vez a expressão “Antiguidade” foi Montaigne, em 1580, o que nos leva a concluir que a Idade Média de Petrarca ficava no meio de nada e da nova era de luz. Ou então, a Idade Média compreendia a Antiguidade, tomada como fonte de luz pelos humanistas do Renascimento.

Le Goff esclarece que “A periodização, obra do homem, é ao mesmo tempo artificial e provisória”. A conclusão é trivial, pois cada cultura criou seu próprio sistema de cortar o tempo em pedaços. Que a civilização ocidental tem uma origem grega e outra judaica também não é novidade. Pelo menos para mim, que sofri forte influência de Toybee, historiador a mergulhar fundo nas várias civilizações do mundo.

Mas o livro do medievalista francês se restringe ao Ocidente. Ele esclarece que a separação consistente entre Idade Média e Renascimento foi feita por Jules Michelet na primeira metade do século XIX. Todo esforço de Le Goff consiste em demonstrar que a chamada Idade Média não foi um tempo de trevas e que não terminou com o Renascimento. Ele mostra que Honório de Autum, um dos maiores teólogos do século XII, defendia uma atitude fortemente humanista: “esse mundo foi feito para o homem, que é, em primeiro lugar, um ser racional. Ele absorve o mundo para se tornar um resumo ativo e significante.” Da minha parte, entendo que havia uma diferença entre o humanismo medieval e renascentista. Na Idade Média, Deus estava acima de tudo. No meio, situava-se o Homem, como criatura dileta de Deus. Abaixo, ficava a natureza. No Renascimento, Deus se atrofia e o Homem é hipertrofiado. A natureza, com presença discreta na pintura medieval, ganha vida detalhada na pintura renascentista, mas continua sendo um campo de conquista e dominação. Tenho pra mim que a mudança da concepção teocêntrica medieval para uma concepção antropocêntrica renascentista expressa o avanço da esfera econômica, que deu ao ser humano a sensação de poder.

Le Goff, contudo, prossegue em sua demonstração, destacando que a figura da bruxa como símbolo do obscurantismo e da intolerância medievais está mais presente no que chamaríamos de Idade Moderna. Quanto ao grande feito de Colombo, descobrindo o continente americano, ele pondera que “A América só se torna uma interlocutora para o Velho Continente a partir da fundação dos Estados Unidos, em 1778, e, em relação à América do Sul, da liberação levada a cabo por Bolivar, a partir de 1810, de grande parte dos Estados coloniais espanhóis.” Com relação aos Estados Nacionais, a única inovação política entre os século XVI e XVIII foi a fundação das Províncias Unidas pela União de Utrecht em 1579, confirmada em 1609. Ele se refere aos Países Baixos, Estado considerado a primeira república ocidental. (Comentar).

Neste parágrafo, Le Goff levanta três momentos da história do Ocidente que merecem comentário. Ele não aceita a navegação de Cristovão Colombo como um divisor de águas entre Idade Média e Renascimento. Eu também não. Só me pergunto por que um historiador do porte o medievalista francês não divisa por baixo de Colombo um sistema econômico em franca ascensão que tinha por objeto acumular riquezas. Em suma: a aventura de Colombo e de todos os navegadores da época não pode ser entendida apenas como uma compulsão pessoal ou como um projeto de levar a outros povos a palavra cristã de salvação. Por trás das grandes navegações, está a crescente economia de mercado, que não nasceu da noite para o dia. Ela vinha crescendo desde o renascimento das cidades europeias no século XII.

Afirmar que a América só passa a interessar à Europa com as várias independências nacionais, principalmente a do Estados Unidos, é confiar na história dos eventos, a mais superficial das três reconhecidas por Braudel. Nenhum historiador consequente deixaria de considerar a importância da fase colonial americana para a acumulação de capitais na Europa Ocidental, centro da economia-mundo. No plano político, afirmar que a única novidade em relação à Idade Média é a fundação da primeira república nos Países Baixos não passa de exagero, pois nem a república das Províncias Unidas foram tão república assim, nem Estados como Portugal, Espanha, França e Inglaterra podem ser considerados típicos Estados Feudais, embora existissem em seu interior forte fragmentos feudais.

Atribuir à publicação de “A riqueza da nações, de Adam Smith, em 1776, como a consolidação do capitalismo, mais uma vez é valorizar mais o eventual que o estrutural. Le Goff deixa mal explicado este aspecto ao considerar que, antes de Adam Smith, não se pode afirmar que a economia europeia tenha deixado de ser feudal. Ora, não uma obra escrita que cria o capitalismo, mas este cria ambiente para a obra escrita. Pode-se até admitir que o pensamento de Smith forneça uma agenda para organização do capitalismo. Em economia, Le Goff nem de longe faz referências ao marxismo e às investigações de Imannuel Wallerstein quanto à estruturação de uma economia mundo, sobretudo em “Moderno sistema mundial”. Wallerstein, ex-marxista, segue Braudel, do qual Le Goff discorda.

Segundo a exaustiva investigação de Wallerstein, a Europa Ocidental erige um sistema econômico mundial do qual ela é o centro, a Europa Central e Meridional são áreas intermediárias e os outros continentes atuam como áreas periféricas. Este sistema não nasce de imediato com a expansão atlântica da Europa. Ele é precedido por um crescimento interno do capitalismo que alimenta a expansão marítima e que forja a revolução industrial do fim do século XVIII. Assim, o que diferencia a Europa das outras civilizações é que em todas havia uma economia capitalista superficial que se alimentava de maneiras tradicionais de produção. Só na Europa ocidental, este capitalismo de superfície vai se entranhando na estrutura econômica tradicional e construindo o modo de produção capitalista. Em síntese, a Europa Ocidental cria o único modo de produzir que visa tão somente o lucro, embora não o confesse abertamente.

A distinção entre capitalismo e modo de produção capitalista foi feita por Celso Furtado. É de se perguntar por que o capitalismo ensejou a criação do modo de produção capitalista apenas na Europa Ocidental em suas origens. Pelo menos, a China, a Índia e o mundo muçulmano apresentavam condições de promover esta transformação. Por que ela, em seus primórdios, só ocorreu no Ocidente. Não se pode sustentar por muito tempo que ele nasce da luta entre senhores feudais e camponeses. Parece, na verdade, que sua origem se deve ao aumento da produção de excedentes que podiam ser apropriados por uma incipiente classe de comerciantes e gerar lucros, posteriormente investidos na construção do modo de produção.

A maioria dos marxistas esqueceu a importância dada por Marx a fatores externos à sociedade. Em algumas passagens, ele acredita que o modo de produção capitalista não poderia se desenvolver num ambiente com natureza luxuriante, que fornece recursos com facilidade aos humanos e os inibe de produzir. Ele deveria brotar numa natureza com solos pobres, que precisam ser trabalhados e adubados.

Perry Anderson também não descarta a natureza, ao analisar a crise geral do feudalismo no século XIV. Contudo, são não-marxistas que vão mais longe na análise da influência do ambiente sobre a economia e a sociedade, O primeiro é Emmanuel Le Roy Ladurie, com sua “História do Clima desde o ano mil”. O segundo é Brian Fagan, bem mais recente, analisando o que vem sendo chamado de pequeno aquecimento global natural entre os séculos IX e XIII. De fato, esse pequeno aquecimento cria condições ambientais para o apogeu do feudalismo e para a produção de excedentes que beneficiariam os comerciantes. Depois, um novo período frio toma conta do mundo e representa um forte desafio. Ele será respondido com o modo de produção capitalista, que moveu a expansão marítima, a construção de uma economia-mundo a partir do século XVI e a primeira revolução industrial.

Mas, a pobreza do solo e o pequeno aquecimento climático ainda não bastam para explicar a passagem do capitalismo para o modo de produção capitalista apenas na Europa Ocidental. O aquecimento climático foi global e atingiu as várias civilizações que já contavam com uma classe de comerciantes. Também, solos pobres eram encontrados em várias civilizações. Não tentaremos escapulir para explicações metafísicas. E Europa Ocidental não foi escolhida por Deus para inventar o modo de produção capitalista. Talvez os constrangimentos territoriais possam ser levantadas como hipótese. De fato, a Europa estava cercada pelos eslavos, pelos muçulmanos, pelo gelo do norte e pelo Oceano Atlântico a oeste. Seu território é muito pequeno e parece ter funcionado como presídio. Não sem razão os europeus tentam romper essa prisão com a expansão escandinava pelo norte, com a expansão das Cruzadas pelo sudeste e com a expansão marítima pelo Atlântico. Esta última foi a única bem-sucedida.

No mais, nada de novo em Le Goff. Ele explica que, antes do Renascimento, existiram renascimentos na Idade Média. Numa única vez em seu livro, ele adverte que a periodização da história ocidental só vale para o Ocidente. Por fim, ele propõe uma longa Idade Média cujo término temporal se situa em meados do século XVIII: “… estimo que a mudança de período, ao final da longa Idade Média, se situa em meados do século XVIII (…) foi em meados do século XVIII que o Ocidente entrou em um novo período (…) a meu ver, o Renascimento, tomado como época específica pela história contemporânea tradicional, só marcou um último subperíodo de uma longa Idade Média.”

Nada de novo na posição de Le Goff. O livro “Evolução do capitalismo”, de 1946, suscitou um grande debate, com estudiosos aceitando o fim da Idade Média no fim do século XVIII. Outros defendiam o seu fim no século XVIII. A figura solitária de Paul Sweezy sugeria que, entre o século XVI e XVIII, a Europa viveu um modo de produção distinto do feudalismo e do capitalismo.

Arthur Soffiati é historiador ambiental e pesquisador do Núcleo de Estudos Socioambientais da UFF/Campos

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