Recompor e revitalizar o corpo hídrico

RioUnaquadrada

RioUnaquadrada(25 de Junho de 2013)

Tomemos o corpo de um ser humano anestesiado e indefeso. Escanhoemos todos os pelos dele. Teremos produzido um desmatamento de 100%. A pele está indefesa. Se a arrancarmos, estaremos praticando algo semelhante à erosão superficial, que rouba a parte fértil do solo. Podemos ir mais longe, retirando os tecidos até os ossos. Além de estarmos matando a pessoa anestesiada, estaremos também removendo as camadas mais profundas da terra até chegarmos à rocha viva, na forma cristalina. Atingiremos também os ossos. Esta remoção total ainda não nos satisfaz. Vamos adiante e desmembremos todos os ossos do esqueleto. A rocha viva foi decomposta.

A analogia se aplica à Bacia do Una. Dela, removeram as matas. O solo, exposto às intempéries, foi arrastado para as partes mais baixas, para dentro das águas dos rios e causou assoreamento. Houve cortes mais profundos, atingindo o tecido epitelial, quando o Departamento Nacional de Obras e Saneamento (DNOS) retilinizou o curso dos rios formadores da bacia. O processo não parou aí. Diante do esqueleto inerme, interesses econômicos mesquinhos começam a isolar os afluentes da Bacia do Una, transformando-os em lagoas alongadas, em bacias fechadas em que se pretende lançar esgoto, segundo uns, ou efluentes tratados de forma terciária, segundo os interessados na transposição de águas residuárias produzidas em Iguaba Grande e São Pedro da Aldeia.

Mas podemos usar outro símile com o corpo humano. Não será preciso anestesiá-lo para que não sinta dor. Melhor até que a pessoa fique acordada para assistir à tortura. Tomemos uma vara ou coisa parecida juntamente com cordéis. Enlacemos os dez dedos dos pés e apertemos o torniquete ou garrote, interrompendo a circulação do sangue. Depois de certo tempo, os dedos estarão necrosados e deverão ser amputados. Não contentes, façamos o mesmo nos tornozelos. Sem irrigação sanguínea, os pés necrosarão e precisarão ser amputados. O mesmo tipo de operação abaixo dos joelhos levará à amputação das pernas. Se fizermos esta operação também nas coxas, o corpo estará reduzido ao tronco, à cabeça e aos braços.

Mas não estamos contentes. Façamos o mesmo com os dedos das mãos, com os antebraços e com os braços. No final, restarão apenas o tronco e a cabeça, mas ainda haverá vida. É preciso acabar com ela. Façamos um garrote no pescoço. A vida expirou. Não será possível a revitalização parcial ou total do corpo.

De certa forma, a necrose e a amputação já começaram a acontecer na Bacia do Una. O Consórcio Intermunicipal Lagos-São João anuncia que os Rios Papicu e Frecheiras não mais fazem parte da bacia. Sabe-se que a atividade agropecuária amputou o Rio Papicu, separando-o do Rio Una, como nos informa um estudo (http://www.abrh.org.br/SGCv3/UserFiles/Sumarios/82ce02532988a8d5bdb6c2797c928958_7dd220771a6a85b548a2dede4b0fe50e.pdf ).

Mas a cúpula do Consórcio decreta que o Frecheiras também não integra mais a Bacia do Una. Podemos considerar os dois como braços e pernas inteiros do Rio Una. Eles também têm afluentes. Será que já amputaram mãos, pés e dedos da bacia? Que outros afluentes e subafluentes foram separados do corpo? Parece que o Consórcio só nos informará se tiver interesse em lançar esgoto ou efluente tratado neles.

Ao se aproveitar da separação dos Rios Papicu e Frecheiras em relação à Bacia do Una, Instituto Estadual do Ambiente, Consórcio Intermunicipal Lagos-São João, Prolagos e Prefeituras de Iguaba Grande e São Pedro da Aldeia contrariam frontalmente o Plano de Bacia da Região Hidrográfica VI, de 2005, como se pode facilmente verificar em suas páginas 73 e 96, assunto de futuro artigo meu. Sugiro aos que lutam pela não transposição de esgoto ou de efluentes tratados para a Bacia do Una leiam os propósitos iniciais para a bacia ( http://www.inea.rj.gov.br/recursos/downloads/comite_lagos_sao_joao_plano_bacia.pdf ). Eles não preconizavam o esquartejamento do corpo, mas sua recomposição e revitalização

Ainda me valendo de metáforas, juntar dedos, pés, mãos, pernas, coxas, antebraços, braços e cabeça, como fez a deusa egípcia Isis com seu esposo Osiris, e lhe insuflar vida é o que deve cobrar o movimento em defesa do Una.

Antes dessa operação reversa, os moradores de Búzios devem continuar lutando para que esgoto ou efluentes tratados de Iguaba Grande e São Pedro da Aldeia não sejam transpostos para os Rios Papicu e Frecheiras. O Ministério Público também deve ser informado sobre as intenções originais do Plano.

Arthur Soffiati é historiador ambiental e pesquisador do Núcleo de Estudos Socioambientais da UFF/Campos

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