Quem viu, viu

 

“Boop”, o esqueleto de uma jovem índia, encontrado nas escavações, foi levado para o Convento Nossa Senhora dos Anjos.

(30 de Setembro de 2011) Com o fim das escavações nos sítios “Aldeia do Portinho” e “Sambaqui Salina do Portinho”, em Cabo Frio, todo o material coletado será encaminhado ao Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) no Rio de Janeiro, onde começa a segunda parte da pesquisa arqueológica, que é a catalogação desse material.

A pesquisa de salvamento, autorizada pela Portaria Nº 21 de 28 de Junho de 2011, foi contratada pela João Fortes Engenharia, interessada em implantar um centro comercial na área, localizada entre o bairro do Portinho e a Lagoa de Araruama, onde estão registrados, no Iphan, quatro sítios arqueológicos, sendo dois deles, “Aldeia do Portinho” e “Sambaqui Salina do Portinho”, dentro da área pretendida pelo empreendimento.

Apesar da região ser extremamente rica em sítios arqueológicos e alvo de muitas pesquisas de arqueólogos, o material encontrado surpreendeu logo na primeira semana das escavações. O local de uma antiga fogueira indígena saltou aos olhos dos pesquisadores, indicando que muito mais estaria por vir. Nas semanas seguintes, o que surgiu foi uma aldeia indígena inteira, com vestígios de fogueiras, estacas de tendas, restos de alimentação, muitos instrumentos em pedra, cerâmicas toscas e até mesmo um fuso de tecelagem.

E, para completar, foi encontrado quase intacto um esqueleto identificado como sendo de uma mulher jovem, e que foi batizada pelos pesquisadores de “Boop”.

Teritório de Sambaquis

A importância dos achados chamou a atenção da mídia e atraiu muitos visitantes. Para resguardar as pesquisas e atender ao público foi necessário criar uma estrutura no local com cercas e passarelas e banheiros para disciplinar a circulação dos visitantes.

Para potencializar e multiplicar o conhecimento sobre a pesquisa em andamento, o Iphan convidou as escolas para que organizassem visitas guiadas ao local . Durante duas semanas aluno

Sítio arqueológico se transformou em atração para estudantes, moradores e turistas

s da rede pública visitaram as escavações acompanhados de professores e puderam observar o trabalho dos arqueológos. Durante as visitas, técnicos do Iphan fizeram a apresentação dos materiais recolhidos explicando aos estudantes seus usos e funções.

Para a arqueóloga Rosane Najjar, do Iphan, o atrativo maior no local se deu em função da movimentação dos pesquisadores. “se retirar isto daqui, perderá o interesse do público”, afirmou, referindo-se ao trabalho de escavação.

Se estiver certa, a nova atração da cidade tem dia e hora certos para acabar, será às 14 horas do dia 30 de setembro, quando se encerra a primeira parte do trabalho contratado, apesar de grande parte do sítio ainda não estar pesquisado. A área onde se dá a pesquisa deverá ser soterrada para dar lugar a um dos estacionamentos do empreendimento.

Pisando na História

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Área e rica em sitios arqueologicos, manguezais e vegetação nativa

Em dezembro de 2010, seis meses antes da pesquisa que aconteceu em junho de 2011, o gerente de Negócios do empreendimento, Frederico Neves, dava como ‘favas contadas’ a questão da arqueologia.

O gerente garantiu, na ocasião, já ter a aprovação do Iphan, tanto que a construção de uma área para exposição de material arqueológico dentro do shopping seria, segundo declarou. “Uma contrapartida foi acertada entre nós e o Iphan, por conta de estarmos vizinhos a um sítio arqueológico. A gente vai estar simulando internamente no shopping uma praça que estamos chamando de ‘praça dos sambaquis’. Vai ser um piso de vidro, onde vamos simular como se a pessoa estivesse passeando sobre o sambaqui embaixo. Vamos colocar as peças que o Iphan queira mostrar”, afirmou.

Rosane Najjar negou que tenha havido um acordo prévio com o Iphan e diz que Instituto está empenhado em ampliar a pesquisa.

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Riqueza sem reconhecimento

Mesmo sendo os únicos testemunhos da presença humana no continente americano, anterior à ocupação europeia, os sambaquis e vestígios arqueológicos encontrados no Brasil não são muito valorizados pelo público.

A arqueologia brasileira, está relacionada a sociedades simples, e seus achados são compostos de ossos partidos, cerâmica simples, pedaços de pedra, o que causa estranheza ao público leigo, acostumado a ver nas séries de TV uma arqueologia associada ao belo e ao monumental, o que não existe no Brasil, segundo especialistas.

Porém, o sítio arqueológico “Aldeia do Portinho” foge a essa regra, mostrando-se espetacular para o público e para os pesquisadores. Todos as pesquisas anteriores já informavam da existência no local de um sítio que era espaço de vivência de dois grupos, os sambaquieiros e a tradição Una, que habitaram a região entre 2.000 e 1.500 anos atrás. E o que foi encontrado são os restos dessas duas sociedades.

São muitos os sítios arqueológicos no entorno da Lagoa de Araruama e, especialmente, no município de Cabo Frio. Só de Sambaquis existem 65 registros. Entretanto, o “Aldeia do Portinho” tem um interesse especial por ser um dos poucos sítios de ceramistas existentes e o primeiro localizado em Cabo Frio. Só há registro desse tipo de sítio em São Pedro da Aldeia.

Apesar da importância das descobertas, tudo indica que não haverá a preservação da área. O Iphan autorizou o salvamento dos remanescentes para possibilitar a utilização do espaço para construção de um shopping.

(Niete Martinez)

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