Presidente da Uni-Amacaf fala sobre a implantação do shopping Parklagos

Bené do Village mostra a área onde será instalado o shopping

(Novembro/ 2010)

“A Cidade vai se arrepender. Não temos estrutura para segurar isso”

“Não mereço, como presente de minha aposentadoria comunitária, ganhar uma selva de pedras ali. Esperamos que as autoridades reflitam. Se o shopping vier mesmo vai ser grande o arrependimento. Não temos estrutura para segurar isso”. Com estas palavras, o presidente da Uni–Amacaf, Benedicto das Neves Ribeiro, popularmente conhecido como Bené do Village, justificou a sua tristeza com a noticia da implantação do Shopping ParkLagos, cujo lançamento da obra está previsto para este mês.

De acordo com Bené, que já milita em organismos de defesa da população há 30 anos e garante estar “prestes a se aposentar do serviço comunitário”, o trânsito é a maior preocupação na questão da qualidade de vida dos moradores de Cabo Frio, sobretudo dos bairros no entorno do empreendimento (como Jardim Excelsior, Palmeiras, Portinho, Ville Blanche, Caiçara, Praia do Siqueira e centro da cidade), que, segundo ele, cairá sensivelmente em razão da chegada do shopping. Ele observa que a cidade já tem graves problemas nesta área, e que, sobretudo nos feriados e no verão, se torna impraticável circular devido aos engarrafamentos quilométricos.

Outra séria questão, acredita, será o aumento de esgoto na lagoa “que já piorou muito com o início da implantação do bairro Novo Portinho”. Nesta entrevista, Benedicto das Neves, fala sobre os problemas que a implantação do shopping poderá causar.

RC – Por que motivo o sr. entrou com a representação no Ministério Público, a respeito do Shopping Park Lagos?
Bené – Primeiro, por causa da nossa lagoa que papai do céu nos deu. Este belo visual é a única área verde que temos. Ao saber que vai se construir um monstro de quase 200 lojas e trazer para cá Casas Bahia, Lojas Americanas, Mc Donald, Casa e Vídeo, cinemas, quando já temos tudo isso, não concordamos. Trazer tudo isso para este cantinho maravilhoso? O que vai dar de congestionamento… Já temos muitos problemas aqui.

RC – Que tipo de problemas?
Bené – Tivemos uma reunião, recentemente, na Salineira com o sr. Saulo, que abriu para as associações de moradores debaterem a questão do transporte. A pauta principal foi à questão da UPA, porque não entendemos o fechamento do hospital. O povo que vem de todo lugar, tem que parar na praça de São Cristóvão e se virar nos trinta para ir ao Parque Burle para ser consultado. O sr.Saulo, sr. Dinaldo e dona Aline disseram, pela empresa, que isso é provisório, pois vão fazer lá na Joaquim Nogueira um contorno para os ônibus de integração que vão trazer os passageiros até o UPA. Isso para falar de transporte, mas tem outros problemas, questão de infra-estrutura mesmo, de saneamento. Tivemos no ano passado uma série de reuniões sobre aquelas algas que apareceram e o fedor da lagoa, mas até hoje não recebemos nenhuma informação a respeito. Temos um prédio da Justiça Eleitoral prestes a ser inaugurado na Vitorino Carriço. Quero saber como a Salineira vai fazer na questão do transporte, a gente fica preocupado…

RC – O que o sr. acha que pode piorar ?
Bené – Imagine que vai vir para cá um contingente enorme da periferia e do 2º Distrito… Vai ser o passeio deles dos finais de semana. Não temos estrutura para segurar isso, não. Com a movimentação na lagoa, aumenta o problema da segurança. Aquelas casas próximas vão ser muito prejudicadas. Sou vice-presidente do Conselho Comunitário Estadual de Segurança, e recebemos muitas reclamações de assaltos no lugar. Eles roubam e voltam pela ponte…

RC – Qual a sua visão sobre o shopping?
Bené – Nós já temos as grandes lojas, Casas Bahia, Mac Donalds, etc. Temos um cinema que não fica tão cheio. Não há publico aqui para isso. Quatro cinemas não é fácil! Acho que o nosso prefeito deveria estudar direitinho. Acho que alguém do meio ambiente jogou isso para aprovação e não analisou toda esta característica da enseada das Palmeiras. É um dos lugares mais belos da cidade de Cabo Frio. Marquinhos, você poderia olhar lá a periferia, o “grande Jardim” como vocês chamam agora, ou o 2º. Distrito, para que eles pudessem fazer as compras num shopping deles, já que dói ver a quantidade de gente do 2º distrito que vem fazer compras aqui no Extra (ex-ABC). É incrível ver o povo lá de Unamar sair com sacolas e mais sacolas daqui, porque lá nada tem. Olha só os dividendos políticos que a prefeitura ganharia levando este shopping para outro local…

RC – Quanto ao trânsito, qual a maior preocupação?
Bené – Não tem como evitar que o povo dos outros municípios venham para cá porque vai ser uma novidade o shopping. Espero que as autoridades reflitam… Na nossa rua mesmo, na Rua Irmã Josefina da Veiga, o trânsito está confuso por causa do Mercado Líder que veio para cá. Na esquina tem um horti fruti. O Roberto (proprietário do mercado) já mandou ofício para a guarda municipal, pois às vezes a gente perde até 40 minutos parado ali. Não se tem guardas, nem se coloca semáforos… Apesar do bom atendimento do mercado, virou problema. Tá todo mundo xingando. É o carro que bate, e como fica em frente ao Chico Estevão, outro condomínio, quem entra não sai, quem sai não entra. É uma loucura! E olha que o mercado é pequeno…

RC – O que o sr. acha que poderia ser feito?
Bené – Justamente na audiência pública viriam as sugestões. Estou solicitando uma audiência para que o povo possa participar. O pessoal tem que estar conscientizado para não ser pego de surpresa. Você vê o que aconteceu com o Mercado Líder? Fomos pegos de surpresa. Tenho certeza que vai haver arrependimento se botar o shopping ali. Até porque a Rua Henrique Terra, de acesso à lagoa, é pequena para isso…

RC- E quando tem problema na Av América Central, o trânsito sempre é desviado pela Rua Irmã Josefina da Veiga.
Bené – É… São quilômetros de engarrafamento e não se pode fazer contorno, não tem uma outra via de acesso. Eu vou um pouquinho além… Nós não temos um plano de verão de trânsito. Podem falar que tem, mas não tem. Se você for à cidade, pega congestionamento da Julia Kubistcheck até chegar à Praça Porto Rocha. É muita coisa. Tem uma vantagem em Cabo Frio que são as ruas paralelas, transversais, perpendiculares, ruas que podem ter o trânsito desviado. Mas faltam placas, guardas… Tem ônibus que não tem necessidade de passar pelo centro. O Palmeiras pode chegar ao Largo do Itajuru, entrar pela João Pessoa, seguir pela Raul Veiga e ir lá por trás da prefeitura e voltar pela Passagem. O centro fica sem condições. O prefeito deveria trazer um especialista em trânsito para ordenar e ver este transtorno.

RC – O sr. acha que vai sair mesmo o shopping nas Palmeiras?
Bené – Eu acho que eles vão refletir (…) É o momento dos ambientalistas engrossarem as fileiras. Os que lutam pelo meio ambiente têm que sentar e discutir o assunto, para que não se construa ali um shopping que só vai prejudicar. Só mesmo quem mora aqui sabe o que é ter este privilégio de ver este por do sol. A gente deve agradecer a Deus. É a única mata que nos resta e não deve vir ninguém colocar mais um muro de pedra na margem da lagoa…

RC – O sr. espera ser ouvido?
Bené – Bem, nós somos parceiros das autoridades. Somos do Conselho de Saúde; estamos na Educação, na Promoção Social, Conselho Anti-Drogas, e em todos os movimentos da OAB. Eu participo de tudo relacionado à minha cidade. Contribuo e procuro apoiar eventos, sobretudo dentro da UNI-AMACAF, entidade que mais ações faz dentro de Cabo Frio. Tô aqui há 37 anos. Ganhei da OAB por serviços prestados no mês dos advogados, um diploma de honra ao mérito dado por Eisenhower Mariano. A Câmara dos Vereadores me contemplou com uma moção de aplauso pelos trabalhos comunitários. Já são 27 anos desde a época do homem do chapéu (Ivo Saldanha) e ainda continuo nesta luta. Justo quando chega o tempo da minha aposentadoria comunitária (risos) eu não mereço ganhar uma selva de pedras ali…

(Texto: Paula Maciel)

Novembro/ 2010

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