Precisamos passar por isso

A atitude do presidente da Câmara seria de se lamentar. Não deveria ser dessa maneira que se encerraria o ciclo de governos do PT. Adversários políticos só se tornam inimigos quando ignoram a ética e seria isso o que o deputado estaria fazendo.

À presidenta Dilma, a sua base de apoio na Câmara de Deputados e no Senado, compete a responsabilidade de fazer as correções necessárias para recuperar a caótica situação econômica em que o País se encontra.

Foi constrangedor o silêncio, na manhã de 03/12, do ex-presidente Lula sobre o pedido de impedimento da presidenta Dilma. Estaria a escancarar o tipo de homem que, de fato, é. Só à tarde se manifestou, depois de se reunir com o governador do Rio, Luiz Fernando Pezão, dizendo estar “indignado com o que estão fazendo com o País”. Continua a não admitir que a conjuntura atual reflete a atuação da organização criminosa que se instalou no início de seu primeiro governo em 2003.

É constrangedor, também, o silêncio dos afiliados do PT. Seria válido especular que tanto Lula quanto os petistas prefeririam optar por uma barganha: o PT daria os seus três votos na Comissão de Ética, resultando no arquivamento do processo de cassação do mandato do deputado Eduardo Cunha em troca do arquivamento do pedido de impedimento. A barganha seria uma indecência, e fez bem a presidenta denunciar a tentativa, seja quem for o envolvido atuando a seu favor.

Dever-se-ia entender como adequada a posição do vice-presidente Michel Temer: manter-se afastado e em silêncio. Sua posição deve ser idêntica à de Gerald Ford por ocasião das deliberações sobre os artigos do pedido de impedimento de Richard Nixon.

Seria questionável a posição do deputado Eduardo Cunha sobre a obrigação de incluir na sua declaração de renda a existência de bens, controlados por um trust, no exterior. Afirma ele que a lei não o obriga. No entanto, talvez faça isso por imaginar que os contribuintes ignoram o item c) das instruções que orientam o preenchimento da declaração. Diz o item: “c) Bens e direitos situados no exterior. No campo Discriminação, informe o valor de aquisição constante no instrumento de transferência de propriedade na moeda do país em que estiverem situados. Informe, ainda, se na aquisição foram utilizados rendimentos auferidos originariamente em reais ou em moeda estrangeira”. Nada mais claro. O dinheiro depositado no trust em um banco suíço foi ganho em moeda do país na África onde atuou. Não há saída: a existência dos bens teriam que ser, obrigatoriamente, declaradas.

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Finalmente, lamenta-se a posição do jurista Miguel Reale Jr. que teria ignorado o que seu pai, Miguel Reale, comentava no início de uma palestra, em qualquer lugar que a fizesse. Dizia ele: o homem culto não “passeia ou exibe” sua cultura; usa-a. Na redação do pedido do impedimento da presidenta Dilma, o jurista Miguel Reale teria se limitado a exibir sua cultura, “passeando-a”, como se fosse seu cachorrinho de estimação que expõe ao mundo. A advertência do jurista Miguel Reale está associada à maneira como Charles Baudelaire expressou seu desapontamento com os intelectuais franceses, desfilando pelas ruas de Paris com seu cão pintado de verde, logo após a publicação de seu poema “O cão e o frasco”.

O deputado Eduardo Cunha estaria se comportando como um terrorista, vestindo um colete cujos bolsos estão recheados de explosivos. Ao acolher o pedido de impedimento da presidenta, exibiu-se, segurando a cordinha que, se puxada, causaria sua autoexplosão. Espera dar na presidenta um “abraço de afogado”, pois já teria percebido que perderá seu mandato, do que se seguirá o envio de seu processo no STF para as mãos do juiz Sérgio Moro.

Repetindo, não deveria ser dessa maneira que se encerraria o ciclo de governos do PT. À presidenta Dilma, a sua base de apoio na Câmara de Deputados e no Senado, compete a responsabilidade de fazer as correções necessárias para recuperar a caótica situação econômica em que o País se encontra.

Há a possibilidade de que a comissão, que examinará o pedido de impedimento, o rejeite. Ou, talvez o faça o STF.

A atitude do presidente da Câmara seria de se lamentar. Haveria uma motivação de vingança por saber que é grande a possibilidade de que perderá seu mandato. Nesse caso, não se troca o mandato de um deputado federal pelo de um presidente da República.

Ernesto Lindgren
CIDADE ONLINE
03/12/2015

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