PARTE 4 – A SOBREVIVÊNCIA

Aquele passageiro sentado na frente falava sem parar. A viagem era tranqüila. Logo que decolamos, eu cochilei até que o avião entrou numa zona de turbulência mansa, com ligeiras trepidações. Estava ainda sonolento e sem querer minha atenção foi desviada para a conversa do tal passageiro. Ele dizia:
Vou dizer a você a coisa mais óbvia do planeta.
Ela se aprumou na poltrona, e olhou para ele com grande interesse. Senti que havia algo mais do que o simples interesse pelo que ele ia dizer.
Ele continuou, e é tão óbvia que você poderá até pensar “esse cara está desparafusado”.
A coisa é tão óbvia que ninguém pensa nela. Ninguém é nenhum povo, nenhuma cultura, nenhuma religião, nenhum grupo de extermínio, nenhum grupo terrorista, nenhum partido político.
Você pode pensar que se trata de algo de menor importância como, por exemplo, as minhocas não bebem cerveja, ou os cães não tem pesadelos, ou o oxigênio não é visível, ou os bagres hibernam na lama dos rios, ou porque as formigas não engordam!
Não, não são essas coisas de menor importância, muito pelo contrario é a coisa mais importante que você pode pensar!
A coisa é, todo ser vivo tem como principal objetivo a sobrevivência!
Aí você balança a cabeça e diz “mas isso é óbvio!” De fato é a coisa mais importante porque se o camarada morre, acabou, c’est fini.
A SOBREVIVÉNCIA É NECESSARIA PARA EXISTIR O FUTURO (autor desconhecido)
Nesse ponto olhei pela janela a linda vista de um azul especial e algumas nuvens que davam destaque ao azul infinito e que causavam a sensação de ser eterno. Pensei comigo, que momento inconveniente para ficar falando de sobrevivência, e aí já estavamos nos preparando para o pouso e a voz do comandante me distraiu e eu entrei noutra. Mas hoje escrevendo sobre o futuro lembrei-me e aí está. Alias porque estou falando nisso se o que eu quero analisar é como conhecer o futuro cuja palavra bonita para isso é ORÁCULO.
Talvez porque para existir o futuro você tem de estar vivo, o que não tem a mesmo sentido de sobreviver. O professor lá do avião usou a palavra errada. Os seres têm de cuidar para se manterem vivos porque sobreviver tem a conotação de escapar de tragédias, catástrofes, perigos iminentes, fatalidades, de modo que a expressão “se manter vivo” fica melhor.
SE MANTER VIVO apenas, não é viver.
É enganosa a idéia de que o cérebro faz funcionar todos os seus órgãos , células, apenas para manter você vivo. Não, não é para somente isso. Ele vai muito além. Ele está constantemente, “vendo”, “sentindo”, o futuro imediato e checando se há ameaças, ele quer você vivo amanhã.
O porquê disso é que o momento futuro significa um possível resultado e o cérebro não quer que o sujeito aonde ele mora, sofra, tenha dores, ou morra, o que implicaria também a sua morte. De fato o cérebro não sabe se o pau que vai cair na sua cabeça vai fazer somente um galo ou algo pior. Se o seu tropeção no meio fio vai somente sujar a sua roupa ou se vai quebrar o seu pescoço. Sem saber as conseqüências ele avisa sempre se há perigos e riscos. O cérebro quer que você tenha prazer e seja feliz.
Mas essas funções especiais do cérebro não nascem com ele, elas são fornecidas, ensinadas pelos pais, professores, vizinhos, etc. é assim que ele aprende as coisas que dão prazer e as que trazem sofrimento.
O que ele tem inato são as emoções e a principal delas para manter a vida é o medo, medo das ameaças, mas estas tem de serem ensinadas e aprendidas.
As criancinhas não têm medo de nada, de cobras, de cães, de fogo, de cair da janela, de gente ruim, etc. tudo tem de ser ensinado.
Igualmente tem de ser ensinada “qualidade de vida”. Isto é geralmente ensinado sem palavras, pelo que o infante vai vendo à sua volta.
Se manter vivo é fundamental, mas o cérebro vai alem e com o aprendizado ele cuida para você viver com “qualidade de vida”.
Você viaja e olha e percebe que muita gente não está buscando melhorar a qualidade de vida. Não a sua qualidade de vida, pelo menos a que você tem na sua mente, que o seu cérebro aprendeu.
O fato é que todos estão buscando melhorar de vida e o que isso significa?
Que todos estão querendo um futuro melhor!
E agora, acabamos de conectar sobrevivência, se manter vivo, e a necessidade de conhecer o futuro, com o ORÁCULO , o tema de nossa conversa.
Para uns é mais importante conhecer o futuro do que para outros. O tamanho da necessidade de conhecer o futuro está ligado ao quanto você tem a perder, ou seja, o quão ruim poderá ser o resultado futuro.
Um Rei fará todas as guerras para manter o seu reinado, mas esse mesmo Rei já bem idoso não fará nada, porque seu cérebro está apenas trabalhando para o manter vivo porque ele já vislumbra a morte, ele não tem mais nada para se preocupar ou para desfrutar. Ele não tem futuro!
T E R C O I S A S
Alem disso todos sabem que não é possível conhecer ou adivinhar o futuro. Então o que se faz é tomar todas as providencias possíveis e a mais comum, a mais universal e a mais antiga e “TER COISAS”, ter mais dinheiro, ter onde morar, casa, apto, morar em bairro e rua seguros,ter mais armas, enfim ter mais poder para eliminar as ameaças.
Essa necessidade de TER, é também nativa, é biológica ou como alguns gostam de dizer, ela é instintiva. Todos nós conhecemos esta necessidade nossa e também das aves, e dos bichos, ter ninho, ter território, até as arvores tem também seu território.
Antes era garantir a vida para garantir um futuro, agora é também garantir o futuro para garantir a vida.
Garantir o futuro da família, filho, netos, etc.
Ter está ligado à necessidade de segurança que é a sensação de que não há ameaças conhecidas e dignas de preocupar, ao contrario de insegurança que é a existência de ameaças desconhecidas.
Até aqui viemos mostrando que o ser (cérebro) está focado em se manter vivo, e que garantindo a vida hoje, está garantindo a vida amanhã ( o futuro).
Ameaças sempre existiram e assim a necessidade de TER (recursos), surgiu como a única saída para evitar, anular, destruir as ameaças e permitir a continuidade da vida.
Usando a imaginação vamos voltar 100 milhões de anos atrás e ser criativos com as parcas informações que temos.
COMO SURGIU O TER
As primeiras vidas surgidas foram unicelulares, e provavelmente milhoes de uma vez no mesmo local. Essas células não tinham sistema nervoso, nenhum conhecimento de nada e foram destruídas facilmente.
Um dia algumas não foram destruídas e aí surgiu a consciência “eu estou viva, eu existo” e foi o inicio do sistema nervoso.
A consciência de existir, de ser algo separado do ambiente ao redor, facilitou o surgimento do poder de sentir prazer e dor e assim ela pode começar a identificar o que era bom para ela e o que era ruim. Nesse momento ela aprendeu que sentir prazer era manter a vida e sentir dor era uma ameaça à vida.
Para isso acontecer foi necessário surgir ao mesmo tempo a vida e a consciência. Não estamos falando de um momento, mas de períodos de milhões de anos.
Desde esse “momento” que o TER assumiu um importantíssimo papel, ou seja TER medo, prazer, dor, olfato, sabor, todos ingredientes da sobrevivência, e necessários para estar vivo. São recursos.
PARA QUE? Para ter futuro. PARA QUE? Para estar vivo.
COMO SURGIU O ORÁCULO.
A vida no momento que surge é a DONA DE TUDO, é PRIORIDADE, é a sensação do prazer e a vida sabe que é necessário garantir o futuro senão ela acaba e ela não veio para acabar, mas para VIVER! Parece uma bobagem dizer isso, mas quero enfatizar que a vida surgiu com meios para se manter, meios que estão nela, fazem parte dela.
Continuando a usar a imaginação vamos voltar lá novamente 100 milhões de anos atrás
Aquele cérebro de um primitivo sistema nervoso, sim porque já tinham surgido os sentidos do olfato, tato, audição e sabor (a visão veio mais tarde), já permitindo à célula conhecer o que produzia prazer ou dor e assim ela pode ficar por ali quietinha e viver.
Mas não era bem assim, porque havia muitos movimentos e o cérebro percebeu que aquela célula necessitava se locomover para se alimentar e para fugir de ambientes extremamente hostis.
E em alguns mais “momentos” surgiu meio de locomoção e a visão. Mas ai veio um problema. A visão externa tinha que ter uma correspondente interna e essa interna tinha que saber se aquelas coisas externas constituíam perigo ou não, ou se a faziam sofrer ou não.
O cérebro então em mais alguns milhões de anos criou uma central de filmes uma “Hollywood” onde os filmes eram feitos antes que o ser se movimentasse, para mostrar a ele se era seguro ou não e para isso dotou os filmes com emoções de modo que o ser poderia então saber de antemão se era conveniente ou não EXECUTAR ou realizar o filme. O cérebro criou as imagens do futuro, mas como havia muitas ameaças à vida, ele criou também as emoções associadas às imagens para servir de critério para as decisões tais como, “eu como isso?”, “eu vou para lá ou para cá?”
O cérebro criou as imagens do futuro com emoções! e disse para si mesmo :
“Agora o ser sabe se vai sentir prazer ou dor, e para onde vai e o que fazer de antemão, e, portanto pode assim evitar os perigos e se manter vivo e eu também”.
O cérebro acabava de criar o ORÁCULO num momento de milhões de anos.
PARA ONDE VOCE VAI?
Daquela conversa no avião ainda ficou um restinho que dizia coisas de menor importância, coisas de maior importância.
Mas o que são coisas importantes?
Certamente algumas são repetidas diariamente e parecem, mas não são, por exemplo, o dinheiro não traz felicidade, o rabo do macaco serve para ele se pendurar, Deus criou o mundo em seis dias e descansou do sétimo em diante, hoje as sete maravilhas do mundo são 50, etc.etc….
Pode ser que você encontre um contexto em que essas verdades sejam realmente importantes, mas importante para que?
Por exemplo, você está com uma tremenda dor de cabeça e com febre e alguém lhe diz “tome isso e aquilo” e você toma e melhora.
Então cada informação ou afirmação pode ter um contexto em que é útil para melhorar a vida ou o estado.
A afirmação inicial de que todo ser vivo tem como principal objetivo se manter vivo parece à primeira vista ser também inútil. Quem é que está pensando ou preocupado com isso?
Certamente os soldados, os doentes, os marginais, os índios, os caçadores, os pássaros e os bichos em geral, os insetos, até as baratas, você já tentou acertar uma no chão da cozinha à noite? Mas para o resto não existe esta preocupação. O resto está cuidando inconscientemente da sobrevivência, analisando, e equilibrando não só as funções, mas a química do corpo e também seus próximos passos, etc.
De fato todos os seres estão cuidando da sobrevivência, inclusive os bichos e os animais domésticos. Sim, mas eu vou lhes contar a estória verídica do burro que suicidou.
Aconteceu na zona da mata em M. Gerais, perto da localidade de Samambaiaçu Vermelho, o burro do Sr Aniz Kripp amanheceu um dia urrando de dor e subia o pasto no galope, e descia o pasto no galope sempre urrando de dor. Buscaram o veterinário que tacou injeção no bicho e nada de nada , ele continuou urrando e sumiu pros fundo do grotão. No dia seguinte cedo foram ver o burro pendurado na forquilha dum jacatirão. Pendurado pelo pescoço quebrado. A única explicação que encontraram foi que ele pulou de propósito para morrer! Quem duvidar que vá lá e pode confirmar a estória do burro que atendia pelo nome de “Rolete”.
Você pode argumentar que em muitos ambientes existem as ameaças à vida e, portanto estas pessoas estão preocupadas em se manter vivas. Ou você pode pensar que mesmo num ambiente hostil, eles chegam a estabelecer um equilíbrio e viverem em paz, sem precisarem se mudar.
Então como é que fica?
Bem, o que acontece é, quem cuida disso não é você, mas o teu cérebro, e você que está lendo isso, é alguma parte do cérebro que está sempre analisando os seus próximos passos e checando se há algum perigo, risco ou ameaças.
Imagine um ser em repouso, deitado calmamente numa sombra acolhedora, com uma temperatura agradável e não está dormindo.
Pergunta: porque motivo ou razões este ser começará a se movimentar?
Respostas: fome, frio, sede, formigas, aranhas, serpentes, sogra.
Estes são motivos de força maior, isto é são desconfortos biológicos (fome, frio, sede) e ameaças imediatas e concretas.
Alem destes o que pode fazer o ser se movimentar são compromissos que a mente traz à consciência e que geram imagens de que se trata, e um desconforto se não forem feitos. Compromissos são coisas do tipo “devo” “preciso”, “tenho que”, “necessito”, que se não forem feitos geram sentimentos de culpa, receios, ansiedades, desconfortos, medos.
O ser humano desenvolve uma coisa curiosa que é, ele tem de estar fazendo alguma coisa e se não tem nada para fazer ele não se sente bem, ficará desconfortável, pode ter sentimentos de culpa, ou então desenvolve hábitos que podem ser inconvenientes como beber, comer salgadinhos, ver TV durante horas, bisbilhotar os vizinhos, etc.
Mas existe outra coisa que movimenta o ser, é a possibilidade de ter prazer e para isso ele se levanta rapidamente.
Resumindo, existem assim duas situações que movimentam o ser, imagens das ameaças e do prazer (ser feliz).
Em todas as situações o que dispara o movimento são imagens construídas pelo cérebro. Estas imagens são resultados futuros que ocorrerão. Por exemplo, se você esta deitado numa rede com o pé tocando o chão para balançar e aí você vê que uma serpente está vinda na direção do seu pé.
Imediatamente o seu cérebro construirá o filme da serpente chegando e picando o seu pé. Isto fará você recolher o pé ou sair correndo da área de perigo. Ou você poderá não recolher o pé e gritar “maínha traz correndo o soro antiofídico”. Alguma providencia você tomará!
O cérebro constrói as imagens com informações que já estão lá dentro de experiências anteriores e conhecimentos de relatos, de leituras etc.
No dia a dia, pode-se ter uma idéia de que tipo de coisas o cérebro está construindo para os momentos futuros de cada um.
O estudante está focado no seu mundo estudantil que engloba as atividades escolares e os relacionamentos com os colegas. Mas cada um tem a cada momento suas prioridades para as escolhas onde vai gastar suas energias e seu tempo. E essas escolhas segue um padrão pessoal que pode trazer ansiedade ou o prazer.
Assim você pode analisar rapidamente em cada momento o que está em suas prioridades. Podem ser assuntos pessoais, familiares, trabalho, lazer, saúde, dinheiro, carreira, etc.
Qualquer que seja o assunto, o cérebro segue o padrão de projetar um resultado futuro e uma emoção. Nesse ponto geralmente você não tem mais escolhas. Até poderia ter, mas quem assume o comando são as emoções e essas coisas estão funcionando de forma automática.
Na PARTE 5 vamos ver algumas armadilhas que necessitam nossa atenção.
ATÉ MAIS.

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