OPINIÃO > RENATO SILVEIRA: Redes sociais revelam a intolerância que domina o país

Renato Silveira
O clima de Fla-Flu vivido no Brasil desde o segundo turno das eleições presidenciais vencidas por Dilma Roussef (PT) em 2014 transformaram as redes sociais numa guerra onde a tolerância e a inteligência muitas vezes passam longe. Quando os usuários se limitam a atacar os políticos que estão do lado oposto, a situação ainda é suave. O problema começa quando os ataques passam a ser destinados ao outro usuário, que está ali apenas manifestando sua opinião. Nessa seara, já vi de tudo, desde burro, ignorante até insinuações sobre o caráter alheio. Troço muito sério.
A intolerância se revela não apenas nos aspectos políticos e invade áreas pessoais, como sexualidade e comportamento. Não satisfeitos apenas em odiar a ideologia alheia, misturam alhos com bugalhos, confundem identidade de gênero com política de esquerda, acham que a legalização das drogas é coisa de maconheiro esquerdista (isso num país onde chefes de polícia e juízes já se manifestaram favoravelmente ao tema) e atacam da cintura pra baixo. Se entrarmos no aspecto religioso então, a situação é grave. “Você não tem Deus no seu coração” foi uma das frases que li de uma pessoa que acha que Deus é exclusividade de evangélicos e similares.
E ainda tem as famigeradas “fake news”. Não sou muito chegado a bloquear pessoas por militarem em campos opostos ao meu, embora já tenha feito isso por conta de ataques pessoais. Pra um desses amigos que mantive, falei: “rapaz, você posta coisas às vezes tão fora da casinha que de vez em quando te alerto”. Resposta: “não quero nem saber, se vejo uma coisa a meu favor, compartilho”. Falar o que?
Tem também a reedição do “Festival de besteiras que assola o país”, o “Febeapá” do saudoso Stanislaw Ponte Preta, que sacaneava com bom humor a estupidez dos generais da ditadura, como no episódio em que foram ao teatro prender o autor de Édipo Rei, peça escrita na Grécia antiga por Sófocles. Nessa praia tem o Hitler comunista, a confusão entre nudismo e pedofilia, o governo comunista no Brasil, o “na ditadura tinha dentista grátis nas escolas”, entre outras.
Pra completar, que saudades da tia Vera, a professora de português que ensinava, entre outras coisas, interpretação de texto aos seus discípulos. Nas redes sociais, você escreve laranja, respondem abacate. Se você não defende o candidato da extrema direita, você é defensor do Lula. Não se preocupam em se ater ao conteúdo do texto postado e escrevem qualquer coisa.
Penso que tudo isso já existia, a intolerância, a pouca inteligência de algumas pessoas… Só que não havia espaço pra botar pra fora. Agora, deram voz e eles estão se refastelando.
Na torcida para que o bom senso vença, sempre.
Renato Silveira é jornalista
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