OPINIÃO > REGINALDO SANTOS: Vamos falar de música…

Louis Armstrong | Foto:: NBC/NBCU Photo Bank via Getty Images
Reginaldo Santos
Colaborou: Flávio Melo
Não precisamos viajar até os sons tribais do passado longínquo para conversarmos sobre uma das coisas mais relevantes e queridas de nossas vidas.
Podemos começar ali no final do século XIX e início do XX, no delta do Mississipi, em New Orleans, com um som ligado à cultura popular e religiosa das comunidades negras da região. Sua popularização se deu mesmo nos anos 20/30, com a explosão do jazz e blues, de seus grandes músicos, onde quase 100% eram negros. Os clubes deste estilo musical viviam fervilhando e recebendo, quase que exclusivamente, os negros da cidade e das fazendas.
Vale lembrar que muitos dos grandes músicos eram de origem pobre, ou
escrava, ou filhos de.
Reginaldo Santos
Neste estilo, tínhamos as chamadas Big Bands, com 10,15 ou 20 músicos, em média. Com o tempo, essas “Big” ficaram menores e chegaram a 5 ou 6 integrantes, assim acabaram deixando de ser grandes e se tornaram somente bandas. A grande graça do nascimento do estilo e das pequenas bandas citadas acima, vinha do rompimento com a música clássica e suas grandes orquestras, com música meio que direcionada aos brancos e à burguesia.
Assim, ficou mais fácil e mais barato para as gravadoras que se popularizavam nessa época, gravarem os discos. Este rompimento se deu com mais intensidade nos anos 30/40.
Artistas como Charlie Parker (saxofonista) marcaram o estilo, mas um dos mais famosos foi o trompetista Louis Armstrong, que um belo dia resolveu romper com o padrão já plural e liberal do jazz e cantou. Pasmem, os músicos eram conhecidos e só tocavam, de repente veio este cidadão e soltou seu vozeirão. Pronto, começou uma nova era no estilo, o jazz cantado!
A coisa não era fácil para os músicos, como ainda não é! Eles não tinham direito às suas próprias gravações e faziam basicamente pelo amor à arte, grande talento e uns trocados. Um certo trompetista quis quebrar essa barreira. Ele foi na gravadora, “pegou” suas músicas e saiu com o soar delicado de tiros. Esse rebelde rapaz se chamava Miles Davis!
DO MESMO AUTOR: Uma breve história do rádio
Passamos os anos 40 com o cenário intenso do jazz e blues, mas os anos 50 foi marcado pelo surgimento do Rockabilly, um movimento que praticamente fez surgir o bom e necessário Rock and Roll.
O principal e mais conhecido desse movimento foi o rei do rock Elvis Presley. Garoto branco, bonito, de bela voz e influência negra, abriu o estilo para os dois mundos (assim como John Carter). Agora brancos e negros ouviam e frequentavam as mesmas casas.
Nos idos de 60, tivemos a revolução do rock com os Beatles (primeira banda globalizada e a gravar clipes). Lógico que passamos por Rolling Stones, Led Zappelin, James Brown, em 69 Woodstock, etc. Por aqui, tivemos a Jovem Guarda que era bem ruim, numa tentativa óbvia de imitar os americanos, a Bossa Nova, com suas letras fracas, cantores de pouca voz como disse Elis “um fio de voz”, se referindo a Nara Leão (coitada), Chico Buarque, Tom Jobim, João Gilberto, João Bosco e música feita por burguês.
Flávio Melo é baixista
Mais recentemente, nos 70, tivemos a explosão das músicas disco e a abertura das boates, Casas para dançar, e onde surgiram as tecnologias dos efeitos, pedais, baixo marcante, levada de guitarra de Little Rogers e o tão importante DJ. Logicamente, com uma grande tirada, criaram também, nas mesmas casas, as matinês, momento para os menores de 18 anos curtirem os mesmos clubes ou boates dos mais velhos.
Na mesma época, tivemos o nascimento do MC (mestre de cerimônia), aquele que apresentava o artista ou banda. Mas essa ideia de MC se deve ao apresentador do James Brown, que chamava o príncipe do Soul para o palco e no final colocava a capa sobre o senhor Brown. A coisa é bem mais antiga que se pensa! Ele era o responsável por apresentar o rei e os convidados dos castelos, na idade média. Assim, o uso do MC é bem mais antigo que dos anos 60 ou 70.
No período tivemos outras boas músicas, artistas e estilos que surgiram, mesmo que no final dos anos 70. Casos como Genesis (do Peter Gabriel como primeiro vocalista e substituído por Phil Collins), Bob Marley, Pink Floyd, Supertramp, que queriam romper com o movimento Disco, e no Brasil tínhamos várias bandas ou artistas que gravavam em inglês para cair nas graças do povo daqui e aproveitar o gancho gringo. Exemplos como Fábio Jr e Pholhas. O interessante é que tivemos na mesma época o cantor Morris Albert, que é brasileiro e que gravou a música mais regravada da história: Feeling.
MC Hammer e Run DMC & Aerosmith conseguiram arrastar para o início dos anos 80, o Breakdance e a fusão com o rock. Vemos isso hoje ou vimos ontem com Linkin Park e Jay Z.
Este não foi o único estilo ou movimento de relevância dos idos de 80. Tivemos a explosão das bandas inglesas que faziam músicas consistentes, bem trabalhadas e que não eram explosões Disney como alguns americanos fizeram. Os Beatles eram os grandes influenciadores dessas e de muitas outras pelo mundo: U2 na Irlanda, Simple Minds na Escócia, A Ha na Noruega, Roxette da Suécia, Tears for Fears da Inglaterra, como The Police, Iron Maiden, etc.
Já no Brasil quem deu o pontapé para as bandas de rock Tupiniquins foi a Blitz (desculpe te decepcionar se achou que foi o Legião ou Paralamas do Sucesso).
90 marcou muito por aparecerem as Boys Bands como N’Sinc, Back Street Boys, No Mercy… Elas foram basicamente copiadas do sucesso de 1977, os Menudos, mas que estourou no Brasil nos anos 80. Também tivemos o movimento Grunge (Nirvana, Temple of the Dogs, Alice in Chains, Pear Jam, Chris Cornell (RIP) e tantos mais.
Já por aqui, começamos nessa época que não dá pra apagar da memória, o surgimento da música ou estilo descartável, como: Lambada, Samba Reggae, as Boys Bands, Samba duro, Pagode, etc. Que transformaram a música somente em produto. Essa foi a machadada para a quase finalização da arte na música. Lógico que durante todos os períodos temos os remanescentes de qualidade e até uma grande seleção, mas que não aparece por interesse das gravadoras, como ainda é hoje em dia.
No início do século XXI, aparecem as músicas em MP3, comprimidas e sem o
recheio que vinha dos rolos de estúdio, e a música da internet.
Bom, o Rock sobreviveu dos 50 até meados de 90. O Samba, apesar de não ser criação dos brasileiros (como avião por Santos Dumont e a feijoada, como se imagina) era a música dos excluídos e nasceu no morro e era proibido. O Funk (que não é Funk de verdade como do James Brown) era o som dos protestos das comunidades, mesmo que inconsciente. Hoje esse belo estilo faz apologia à violência, facções e depreciação das mulheres (essas mesmas que mais dançam e curtem tal estilo). Temos também a modinha dos DJ’s de eletrônica (música mesmo) e mais modinha ainda bandas ou artistas gravarem
com os DJ’s.
Será que o Brasil que se diz celeiro de grandes artistas e produtor de algumas das melhores músicas do globo está vivendo um momento de estupidez coletiva? Ou será que é mais uma das muitas manobras do governo de um país que não é nação, de não deixar o povo ter acesso a boa música?
Acredito que a música é alimento da alma, mas lamento que essa nova geração seja desprovida de tal graça divina. São esses os mesmos que veem a música como entretenimento e modismo, não como arte e alimento. Afinal, você é o que faz, come e ouve!
Quando falei de bandas descartáveis e música ruim, me referi a: Dejavu, tapa na cara, leleke, deu onda, metralhadora, sertanejo, taca taca taca, Pablo Vittar, que tiro foi esse… E a pergunta persiste, que tiro foi esse que deram no cérebro e ouvidos dos brasileiros? A imposição do que se ouve sempre veio das gravadoras, mas não precisa ser assim. Afinal, você escolhe o que ouve e não o que te impõe, mesmo que de forma subliminar.
Até as novelas da Globo que sempre ditaram sucessos e moda, pioraram de forma vertiginosa. Na seleção das músicas das novelas tínhamos: Elton John, Milton Nascimento, Gil, Barão Vermelho, etc. Por falar em Rock, lembro que ouvia em rádios normais (não que as outras sejam anormais) Metallica, Iron Maiden, Toto, Roupa Nova…
Logicamente sempre houve e sempre haverá o cara que fez ou faz sucesso com uma única música e depois de seus 15 minutos de fama, some. Esses são os chamados ONE-HIT WONDER! Alguns deles são ou foram: Vanilla Ice, Dalto, Chris Isaak, P.O. Box, When in Rome, Fausto Fawcet, Right Said Fred, Kid Vinil, Baltimora, Gazebo, etc.
O ruim do passado era melhor que o “bom” de hoje!
Lembre-se de que a identidade musical do humano se forma dos 10 aos 12
anos!
E um simples enigma para se pensar: sem olhar na internet, tente se lembrar
de uma banda ou artista que tenha surgido nos últimos 15 anos no cenário do
Rock, Pop ou MPB, com a mesma relevância que Skank, Jota Quest, Ana
Carolina, Seu Jorge, Jorge Vercilo, Bruno Mars, Ed Sheeran e Sam Smith.
Não vale Natiruts!
Reginaldo Santos é radialista
Flávio Melo é baixista da banda Dr. Law
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