OPINIÃO > REGINALDO SANTOS: Uma breve história do rádio

Para os que ainda não conhecem a história do rádio, aqui vai uma prévia. Nos anos 50 e 60, quem fazia sucesso era o locutor ou DJ (disk jockey) ou MC (mestre de cerimônia). Por uma simples questão, quem tocava a música era o locutor. Eles ditavam moda e sucessos.
Tudo bem que sempre houve o jabá (aquele dinheiro que as gravadoras davam/dão por artista ou música tocada). Também tem a questão de não ter muita TV ligada nessa época. E mais, pasmem os mais novos, mas existia novela de rádio, com grandes estrelas e todo um aparato montado em um grande estúdio, onde os capítulos eram veiculados ao vivo. Isso mesmo, ao vivo! Ou você pensou que essa invenção de programa ao vivo é coisa de televisão?
Reginaldo Santos
Existia uma grande equipe por trás do microfone trabalhando para tudo acontecer. Locutores, atores (ambos são quase a mesma coisa), sonoplasta (o cara que colocava os efeitos no ar e que existe até hoje nos grandes filmes), produtores, técnico de áudio etc.
Quando se dizia “hoje tem show do Roberto …”, logo se perguntava “quem é esse tal de Roberto?”. Bem, quem é o cara não sei bicho, mas o apresentador do show vai ser o locutor fulano de tal. Opa, então eu vou!
No caso do DJ, que se popularizou muito no Brasil nos idos de 70, esse sim era o animador das festas e bailes. Eram duas pick ups (tocadores de disco vinil), uma pequena mesa, fone e ouvidos e muitos LPs, normalmente carregados em uma mala que valia mais que o carro do figura. E como era pesado ser DJ! Hoje o cara pega um pendrive e coloca um monte de músicas (questionável se são músicas de verdade), um notebook e alguns levam luzes para a festa. Pronto, está feito um DJ!
Não é bem assim! O profissional deve ter um bom ouvido, saber mixar ao vivo e estar antenado às novidades do mercado e tocar o que os donos da festa querem. Tudo bem, eu sei que os tempos são outros e que o DJ não precisa carregar um monte de discos ou CDs, como nos anos 80/90. Mas um pouco do fazer ao vivo ainda conta como uma das bases do rádio.
Por falar no fazer ao vivo, no meu início no rádio, lá nos idos de 1992, o estúdio era montado assim: um quarto de 3 X 3, revestido com cortiça ou carpete ou sonex (placas de espuma, supressoras de ruídos), mesa de som, duas pick ups, duas casseteiras (tocadores de fitas K7), microfone, caixas de retorno, as vezes um tocador de CD e um receiver (módulo de rádio para sintonizar outra emissora e colocar a Voz do Brasil no ar). Este último ainda é assim!
Percebeu que não tinha MD, DAT ou computador? Em ordem, esses fazem parte da evolução. Pronto! Está montado o estúdio de rádio, só faltou a peça mais importante, o locutor. O profissional que ainda dá vida num ambiente solitário e que os ouvintes acham que é como o que se vê no programa do Pânico, na Jovem Pan de SP, sob o comando de Emílio Surita.
Hoje a coisa é bem mais fácil, quase mole! Duas telas de computador, onde numa rolam as músicas e vinhetas, já selecionadas pelo Programador e OPEC e noutra os comerciais. Tudo no computador! Naquela época cada música vinha de um disco diferente e eram colocadas no ponto tirando o “avião”, som característico que a música faz sendo tocada de trás pra frente para achar o ponto exato de início, uma vez que o tocador de vinil dá uma pequena volta para entrar em velocidade normal.
Cada comercial de 15” ou 30” era colocado manualmente nas casseteiras ou cartucheiras (as rádios com melhores condições tinham, juntamente com as duas pick ups Technics MK2, a Ferrari dos tocadores de vinil).
Aí te pergunto, como ia ao banheiro? Tcham… pra isso foram criadas músicas como Faroeste Caboclo, Tunel of Love (Dire Straits), etc. Logicamente a coisa evoluiu e mudou muito, mas a figura do locutor ainda é fundamental. Infelizmente tem emissora que não tem nenhum profissional no ar, e isso bem aqui perto de Cabo Frio. Vale lembrar que o rádio ou a rádio é um veículo de entretenimento e informação, mas também é para veiculação de emergência real e imediata como uma catástrofe. Como veicular essa informação sem um locutor no estúdio?
Preste atenção naquele programa sempre com a mesma voz e com as mesmas saídas de comerciais, mesmas falas e a hora sendo dada por outra voz, sem erros que podem ocorrer no ao vivo, e que nunca desanunciam as músicas (dizer o nome após a música ter tocado).
As rádios web são uma excelente opção para se ouvir a programação de uma rádio tradicional e que também é veiculada pela net, ou somente ouvir músicas, já que existem rádios só pra isso. Mas repito, nada substituirá a figura do locutor que faz ao vivo.
Quanto a essas “músicas” que tocam hoje em dia, isso será assunto para uma próxima coluna.
O rádio é um veículo muito além da imaginação!
*Reginaldo Santos é radialista