OPINIÃO > EDUARDO PIMENTA: Brasil é destaque mundial em biodiversidade de aves

Maçarico-branco (Calidris alba) na faixa marginal da Laguna de Araruama vindo dos Estados Unidos da América. | Foto: Antônio Ângelo Marques

O Brasil ocupa uma posição de destaque no cenário mundial em termos de biodiversidade de aves, sendo inclusive rota de muitas espécies migratórias. Ao longo de sua migração, as aves utilizam diversas áreas, que são de grande importância para manutenção de suas populações.

Eduardo Pimenta

De modo geral, é considerado como migração o fenômeno com um amplo e contínuo espectro de tipos de movimentos realizados pelos animais, que vai desde invasões esporádicas, a viagens anuais de longa distância e que envolvem ida e volta.

Para a maioria dos casos, o recurso envolvido é o alimento ou a área para nidificação, mas a migração também pode estar relacionada à disponibilidade de água ou à diminuição de competição. Os habitats selecionados são diversos e relacionados aos hábitos alimentares, a disponibilidade de recursos e táticas de forrageamento.

O forrageamento é a busca e a exploração de recursos alimentares, uma habilidade
importante, pois afeta a aptidão da ave, influenciando diretamente a sua sobrevivência e reprodução. É estudado pela ecologia comportamental, analisando o comportamento de forrageio em resposta ao ambiente em que a ave vive. Ecólogos utilizam modelos matemáticos para entender o forrageamento, muito desses modelos utilizam o que seria ótimo em termos de busca e valor nutricional. Nesses modelos, a decisão de escolher determinado item é feita em base no ganho entre o que animal obtém de energia e o que gasta ao buscar tal item alimentar.

A “teoria do forrageamento ótimo” prediz que os animais forrageam buscando o maior aporte de energia por alimento com o menor custo na busca. Palavras-chave para descrever o forrageamento estão relacionadas aos recursos ou elementos necessários para reprodução e sobrevivência dos indivíduos, predador e presa.

Flamingo-chileno (Phoenicopterus chilensis) com distribuição geográfica no Peru, Chile, Bolívia e Argentina até a Terra do Fogo. No Brasil é encontrado no sul e sudeste, neste caso, na Laguna de Araruama. | Foto: Eduardo Pimenta

Espécies migratórias geralmente apresentam requisitos especiais para sobreviver relacionados à conservação de habitat e recursos alimentares em áreas disjuntas, muitas vezes separadas por milhares de quilômetros entre os sítios de reprodução e de invernada. Esses locais têm importância fundamental para conservação dessas aves, uma vez que ao realizarem grandes migrações, elas necessitam de áreas chave para trocarem as penas, se alimentarem e adquirirem as reservas energéticas necessárias para a continuação das longas viagens.

Se ao longo de suas movimentações ocorrem eventos que possam causar grandes mortalidades ou se em algumas das áreas de concentração ocorrem modificações drásticas, as populações imediatamente respondem de forma negativa, o que pode implicar na perda de populações inteiras ou, em casos extremos, na extinção de espécies.

O planejamento de ser a nível global, porém só as ações em cada um dos locais onde as aves passam as diferentes etapas dos seus ciclos de vida irão garantir a sua conservação. Em escala mundial, cerca de 20% das espécies de aves realizam movimentos migratórios e acredita-se que 40% delas estejam sofrendo declínio populacional.

Mapa das principais rotas de aves migratórias no Brasil (Fonte: Relatório Anual de Rotas e Áreas de Concentração de Aves Migratórias no Brasil, 2016 – Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade – Diretoria de Pesquisa, Avaliação e Monitoramento da Biodiversidade Coordenação Geral de Manejo para Conservação).

O Brasil é o segundo país do mundo em diversidade de aves, com 1.901 espécies, o
conhecimento atual da avifauna brasileira sugere que ao menos 197 espécies apresentam algum padrão de deslocamento considerado migratório. Desse total, 53% reproduzem no Brasil e 47% possuem seus sítios de reprodução em outros países, seja na região circumpolar relacionada à América do Norte e Groenlândia (aves setentrionais), ou em áreas no sul da América do Sul e Antártida (aves meridionais).

O Brasil ainda é signatário de acordos internacionais relacionados à proteção de espécies migratórias e dos habitats por elas utilizados, como a Convenção Internacional para Conservação da Fauna, Flora e Belezas Cênicas das Américas que trata de espécies migratórias em um dos seus capítulos, a Convenção de Ramsar relativa à conservação de ambientes aquáticos, a Rede Hemisférica de Reservas para Aves Limícolas que frequentam as zonas entre marés, ambientes alagados ou marginais a corpos d´água na busca de alimento, o Acordo Internacional para a Conservação de Albatrozes e Petréis e o Memorando de Entendimento para a Conservação de Espécies de Aves Migratórias dos Campos Naturais da América do Sul e de seus habitats.

Além disso, O Brasil já encaminhou a documentação necessária para sua adesão à Convenção de Bonn (Convention on Migratory Species – CMS), devendo se tornar em breve o 122º país signatário dessa Convenção. É necessária a realização de mais estudos que viabilizem o mapeamento detalhado das rotas e pontos de parada das aves migratórias no Brasil. O conhecimento sobre as aves migratórias e o seu monitoramento em nível nacional deve ser apoiado e produzido para subsidiar a aplicação de medidas que reduzam ou mesmo evitem os impactos negativos da expansão urbana e industrial sobre a avifauna.

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