OPINIÃO > ARTHUR SOFFIATI: Peixes das nuvens

Espécies de ruvilídeos
Arthur Soffiati
No conjunto, eles existem há 200 milhões de anos. São pequeninos peixes que sobreviveram aos dinossauros e aos grandes mamíferos. Só não se sabe se sobreviverão ao homem, a mais perigosa espécie que apareceu na Terra. Tanto assim que eles estão ameaçados de extinção pelas atividades humanas.
Todos esses peixinhos fazem parte da família dos rivulídeos. Grande parte deles vive em poças de água. A família é uma das quatro mais diversificadas entre as 39 famílias de peixes de água doce do Brasil. Representantes dela ocorrem entre o México e a Argentina, com mais de 320 espécies.
Arthur Soffiati
Raramente alcançando os dez centímetros de comprimento, os rivulídeos vivem em ambientes aquáticos muito rasos, parcial ou completamente isolados de rios e lagos, como as áreas marginais de riachos ou brejos. Eles são também conhecidos como killifishes, que, em holandês, significa peixe do canal. No Brasil, moradores leigos de locais em que eles ocorrem chamam-nos de peixe das nuvens, por julgar que eles caem com as chuvas.
Na verdade, os ovos das espécies rivulídeas são extremamente resistentes a períodos de seca. Quando chove, a água empoçada faz eclodir seus ovos e os peixes aparecem, como que vindos das nuvens com a chuva. A existência das espécies exige delas rapidez. No geral, em um mês elas alcançam a maturidade, acasalam e depositam ovos. Voltando a secar seus rasos ambientes, os ovos entram novamente em estado de latência até as próximas chuvas.
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Os rivulídeos não anuais vivem em brejos e riachos perenes e são encontrados em todas as épocas do ano. Nascer, crescer, acasalar, reproduzir e morrer, tudo de forma rápida, é o sentido de existência dos peixes anuais. Eles não têm tempo para boas e más ações ou para pensar no sentido da existência como nós. Sem nenhuma vaidade, os peixinhos apresentam singular beleza.
O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade tem um plano de ação para a proteção dos peixinhos. Seguindo padrões internacionais, os pesquisadores procedem à classificação e apresentam recomendações de proteção, geralmente ignoradas pelo poder público. Existe um campo de batalha entre pesquisadores e ambientalistas, de um lado, e de economistas, empreendedoristas e políticos do outro. Por enquanto, este segundo grupo está vencendo.
Área degradada em que ocorrem indivíduos da família rivulídea em Barra de São João
O principal responsável pela extinção dos rivulídeos é a destruição de seus habitats pelo desmatamento, agronegócio, urbanização e rodoviarismo. Quando a antiga Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente (FEEMA) conseguiu recursos financeiros da Termelétrica Mário Lago, em Macaé, a título de compensação ambiental, a bióloga Norma Crud, interessada em criar uma unidade do Ramsar (programa da ONU para proteção de áreas úmidas), destinou R$ 50 mil para pesquisas em lagoas entre os rios Itabapoana e das Ostras, a fim de verificar se havia, nesse espaço, algum local usado como área de repouso, alimentação e procriação de aves migratórias, além de, pelo menos uma, espécie da tímida família rivulídea.
Com a irrisória quantia destinada, quatro pesquisadores procederam ao mais exaustivo levantamento de lagoas restantes das obras de dragagem e drenagem efetuadas pelo Departamento Nacional de Obras e Saneamento (DNOS). Vinte mil aves migratórias nem seria tão difícil. O difícil era o tal peixinho. Selecionamos quatro áreas: lagoa do Veiga, hoje cortada ao meio pelo canal do estaleiro do Açu; banhado da Cataia, hoje quase totalmente destruído; lagoa Feia do Itabapoana; e brejo da Severina, às margens do rio Macaé. Resultado final: nenhum peixinho de nuvem e nada de unidade Ramsar.
Se tivéssemos empurrado o limite da área estudada para o rio São João, um pouco mais ao sul do rio das Ostras, teríamos encontrado um rivulídeo em alguma poça barrenta da vila de Barra de São João.
Avanço da área urbana sobre locais de ocorrência de rivulídeos em Barra de São João
Em 2001, pesquisadores do Centro de Pesquisa e Conservação de Peixes Continentais do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (CEPTA/ICMBio) toparam com uma espécie de rivulídeo em Barra de São João. É até bizarro um cientista travar conversa com um prefeito acerca da importância de um peixinho minúsculo. Mas, politicamente, pode-se demonstrar que a prefeitura vai se tornar famosa no Brasil e no mundo se tomar a inciativa de proteger uma espécie ameaçada, mesmo que em seguida tudo continue como antes. O que vale é o papel e o discurso.
Assim, o Poder Público municipal de Casimiro de Abreu, do qual Barra de São João é um distrito, editou o Decreto nº 060 de 2003 declarando de utilidade pública os lotes de ocorrência comprovada da espécie para fins de desapropriação com vistas à preservação de peixes raros ali existentes. Casimiro de Abreu ainda não contava com uma secretaria de ambiente em sua estrutura. O resultado era o esperado: depois dos festejos, todos voltam para casa e não se fala mais nisso.
No dia 7 de abril, o Dia do Fico no calendário histórico, pesquisadores do Ibama e do Instituto Chico Mendes voltaram a atacar. Os locais onde foi encontrada a espécie do peixinho já estavam bem alterados e a ponto de serem incorporados à malha urbana do distrito. Em poças d’água, foram coletados 36 exemplares. A espécie foi redescoberta e – pasme – em áreas que sofriam aterro para a construção de prédios, o peixinho resistia como a pedir socorro.
Casimiro de Abreu tem agora uma Secretaria de Ambiente e uma secretária competente, que já trabalhou em órgãos ambientais do Estado. Denise Rambaldi é o seu nome. De novo, a prefeitura vai criar uma Unidade de Proteção Ambiental para proteger as populações dos peixinhos.
Será que agora a coisa vai ou novamente o assunto cairá no esquecimento?
*Athur Soffiati é professor aposentado da UFF e eco-historiador
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