OPINIÃO > ARTHUR SOFFIATI: O manguezal como cenário

Atriz Taís Araújo fez ensaio fotográfico em um mangue
Athur Soffiati*
Quando afundei os pés na lama de um manguezal pela primeira vez, em 1980, não senti o nojo que as pessoas comumente sentem mesmo sem entrar nele. Sei que não estou correto. Sei que estudiosos me censurarão por meus impulsos incontroláveis diante da lama preta e grudenta.
Aquela lama que se entranha nas unhas e nos sulcos da pele. Por duas vezes, contraí doenças pelo meu descontrole frente a esse ambiente tão repudiado. Mas os manguezais que transmitiram bactérias estavam poluídos por despejo de esgoto. Em Canavieiras, Bahia, escorreguei de peito na lama como se meu corpo fosse um tobogã. O próprio cheiro dela era saudável.
Arthur Soffiati
Acho que os povos nativos dos lugares em que crescem manguezais não cultivam esse asco. Eles estão acostumados a penetrar na lama para colher alimentos. Pelos estudos que venho fazendo há muito tempo, o preconceito em relação aos manguezais veio da Europa. Lá, existiam os pântanos sombrios e misteriosos, cenário para filmes de terror mais tarde.
Foram os europeus, creio, que associaram o manguezal aos pântanos. Hoje, de fato, os manguezais do Nordeste, Sudeste e Sul estão contaminados por esgoto e lixo. Em grande medida, os do Norte também.
Todavia, se o manguezal não deve ser temido, ele não é notado. Nos diários de bordo de Cristóvão Colombo, Américo Vespúcio, Pero Vaz de Caminha, Pero Lopes de Souza e Antonio Pigafetta, o manguezal não aparece nem explícita nem implicitamente. Talvez de forma implícita figure na carta de Caminha. As florestas atlântica e amazônica eram tão maravilhosas que os europeus não tinham olhos para uma vegetação considerada teratológica num ambiente fétido.
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Os naturalistas europeus que vinham ao Brasil para estudar a sua natureza tinham em mente as grandes florestas. Guilherme Piso e George Marcgraf, no século XVII, e Maximiliano de Wied-Neuwied (1815), Auguste de Saint-Hilaire (1818) e Friederich von Martius (1817-1820) queriam estudar a Mata Atlântica e a Amazônia. Eles registram manguezais, notadamente o estranho mangue vermelho, mas o manguezal não era o que mais lhe interessavam.
Taís Araújo em ensaio para a revista Wow
Eis que, a partir do final do século XIX, o manguezal passa a interessar naturalistas e amantes da natureza. Este ecossistema entrou na pauta de estudo da academia. Mas não nos iludamos. Quem se dedica a ele sabe que grande parte de seus colegas estuda outros ambientes. Os interessados no estudo de manguezais formam uma espécie de confraria que escreve artigos, livros e faz reuniões. Se o preconceito permanece nos meios acadêmicos, ele é maior entre os leigos.
Daí minha surpresa ao abrir as páginas da revista “Wow”, número de janeiro, edição de aniversário e encontrar um ensaio fotográfico da atriz Taís Araújo, tendo por cenário um manguezal da baía de Sepetiba. Na minha opinião, os dois quadros de pintores com formação retratando o manguezal são “Vista da cidade de Frederica na Paraíba”, de Frans Post, e “Rio Inhomirim, na Baía de Guanabara”, de Rugendas.
Não me refiro aos pintores naïf pelo Brasil afora e talvez mesmo em outros países tropicais. Esses conhecem o manguezal de perto e têm motivos para retratá-lo. No caso de Post e Rugendas, creio que o manguezal aparece por estar na frente ou atrás do assunto pintado. Ele mesmo não é o motivo dos quadros.
Suponho que Taís Araújo não tenha afundado seus delicados pezinhos na lama, pois não só os manguezais da baía de Sepetiba estão poluídos, como toda a baía. Ele deve ter tirado as fotos com a maré baixa e numa parte alta. De qualquer maneira, o manguezal foi tomado como cenário para uma mulher que valoriza raízes.
*Athur Soffiati é professor aposentado da UFF e eco-historiador
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