OPINIÃO > ARTHUR SOFFIATI: Minha amiga Norma

Norma Crud e Arthur Soffiati em foto de arquivo
Arthur Soffiati
Desde criança, tenho dificuldade em me relacionar com pessoas. Sou meio solitário. Tenho poucos amigos, ainda mais nos dias de hoje, em que as relações humanas tornam-se cada vez mais superficiais. Contudo, a amizade que cultivo com essas poucas pessoas são sólidas. Minha amizade com Norma Crud, que morreu no dia 16 de junho, foi profunda e intensa. Para mim e por mim, Norma seria eterna.
Conheci-a em 1979, na sede da antiga FEEMA. Eu estava envolvido com a luta dos pescadores pela defesa das lagoas da região e soube que ela e Dorothy Sue Dunn de Araujo, na época também funcionária da FEEMA, haviam redigido um parecer sobre as obras de drenagem que o governo federal empreendia na região Norte Fluminense.
Eu não estava só e Norma nos recebeu com desconfiança e frieza. Ela não gostava dos ambientalistas superficiais que então se multiplicavam. Foram necessárias novas investidas para obter o documento. Ele nos ajudou muito a enfrentar o DNOS, o órgão que executava as obras de drenagem e hoje extinto.
Em busca de mais subsídios, passei a me comunicar com Norma por telefone. Ainda não existia internet. Eram tempos heroicos. Aos poucos, fomos nos aproximando. Vi naquela mulher uma beleza não apenas física, mas principalmente moral e intelectual.
Norma era uma pessoa íntegra, de extrema curiosidade, perfeccionista e mesmo obsessiva em suas pesquisas. Descobri aos poucos que alguns a admiravam e muitos no seu trabalho tinham antipatia por ela. Mulher, competente e intransigentemente ética, era normal que ela tivesse atritos com seus superiores.
Arthur Soffiati
Norma foi maior que a FEEMA e o INEA. Foi e continua sendo um patrimônio moral e intelectual da questão ambiental.
Como bióloga, ela Dorothy e Alceo Magnanini cruzaram o Estado do Rio de Janeiro de ponta a ponta a serviço da FEEMA. Dos três nasceram muitos relatórios que fundamentaram o conhecimento do órgão em que trabalhavam. Eles foram pioneiros. Em 1980, ela e Dorothy redigiram um relatório sobre os manguezais do Estado de ponta a ponta e um estudo sobre os manguezais da baía de Guanabara que, além de se tornar referência, tornou-se também um clássico.
Em 1986, os três biólogos me procuraram em Gruçaí, onde eu passava férias, para colher informações sobre remanescentes de ecossistemas vegetais nativos em cumprimento a uma lei emanada de Leonel Brizola, governador que não simpatizava muito com a causa
ambiental. Eu, que aprendia, fui procurado como alguém que poderia ensinar. E logo pelo trio sustentáculo da FEEMA.
Àquela altura, Norma e eu já havíamos nos aproximado. Sempre que a FEEMA precisava se manifestar, eu insistia no nome de Norma. Ela representou seu órgão para opinar contrariamente à última festa da lagosta em São Fidélis no ano de 1988.
DO MESMO AUTOR
– A humanidade e os manguezais antes do ocidente III
– A humanidade e os manguezais antes do ocidente II
– A humanidade e os manguezais antes do ocidente I
– Peixes das nuvens
– O manguezal como cenário
– Foi um rio que passou em minha vida
No meio de pessoas enfurecidas, ela manteve serenidade e firmeza. Depois, eu a convidei a ministrar uma disciplina no curso de especialização em Ambiente e Desenvolvimento Regional, na UFF/Campos. Ainda na década de 1980, coordenei uma Semana sobre meio ambiente na Faculdade de Filosofia de Itaperuna. Alguém deveria falar sobre fauna nativa do Noroeste Fluminense. Quem melhor do que Norma? Mais que depressa, convidei-a como palestrante.
Diante de um auditório repleto de pessoas, Norma abriu um mapa e mostrou várias fazendas com o nome de Anta. Ela explicou que esse nome derivava da grande quantidade de antas que pastavam pela região, assim como veados. O público explodiu em gargalhadas. Muito encabulada, ela olhou para seu corpo à procura de alguma coisa que motivasse as risadas. Olhou para mim e perguntou ao público do que eles riam. Responderam: “Professora, essas espécies não foram extintas. Elas até aumentaram em Itaperuna”. Antas e veados. Era a Norma séria.
Ela não era muito alegre. Nem podia. Na sua vida pessoal e profissional, assim como no mundo, as coisas não estavam indo bem. Mas Norma não perdia a dignidade. Em 1991, solicitei à FEEMA um parecer sobre a abertura da barra da lagoa de Iquipari, sugerindo o nome de Norma. Para minha alegria, ela veio. A questão da abertura motivou envolvimento político de caráter eleitoral. O parecer dela afastou tais interesses. Norma era intransigente.
Visitei-a em sua casa, contemplando sua biblioteca. Fomos à Vista Chinesa, onde fica o setor em que ela trabalhava. Ela tinha um amor especial pelo herbário e pela biblioteca acomodados lá e sofreu muito quando o INEA se desfez de ambos. Parte de sua vida foi embora com as duas coleções.
Ao mesmo tempo, Norma mostrava dotes de economista doméstica. Cuidava das coleções, da limpeza do ambiente, da economia de energia e de outros aspectos relativos à manutenção do lugar.
Ficamos mais próximos quando comecei minhas pesquisas sobre manguezais do Norte Fluminense para meu doutorado. Ela não tinha pós-graduação, porém sabia mais que os pós-graduados. Ela veio algumas vezes à minha área de estudo.
Quando eu fui membro do Conselho Nacional da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica, estive uma vez na ilha de Itamaracá, onde uma bióloga me apresentou o mangue-de-botão. Escrevi-lhe, falando do meu encantamento com a experiência. Ela me respondeu que só fui conhecer a espécie em Pernambuco porque era burro. Bastava ir à lagoa do Açu, perto de onde moro, para encontrar o maior bosque da espécie do Estado do Rio de Janeiro.
Minhas excursões com Norma eram maravilhosas e terríveis. Levando-a ao que sobrou do rio Guaxindiba para lhe mostrar uma forma adaptativa do mangue preto, ela me fez entrar numa região poluída do manguezal. Passei a ser suas pernas. De longe, ela me orientava.
No meio do bosque, encontrei muitas cobras paradas. Tive medo e falei com ela de longe. Ela mandou que eu as descrevesse e me disse que eram mansas. Caminhei pé ante pé na lama, testando a resistência do terreno. De repente, pisei num tronco submerso que cedeu e mergulhei de corpo inteiro naquela lama poluída. Apenas levantei os braços com a câmera fotográfica dela para não estragá-la. Limpei meu corpo num banho de mar.
Ainda no rio Guaxindiba, conseguimos um barqueiro que nos levasse para conhecer o que sobrou dele. A tarde caía. Fomos até onde era possível. Na volta, ela me perguntou se eu ouvira o crocitar de uma borboleta-da-restinga. Respondi que sim.
Então, ela pagou ao barqueiro para voltar ao ponto. O barqueiro e eu ponderamos que chegaríamos lá na escuridão da noite. Norma era autoritária, teimosa e obsessiva. Por insistência dela, voltamos e nada encontramos. A borboleta já tinha ido dormir.
Em outra ocasião, na barra da lagoa do Açu, ela ouviu o canto de um sabiá-da-praia e lamentou não poder vê-lo. Ela me fez voltar no dia seguinte com seu potente equipamento de som para atrair a ave e fotografá-la. Era domingo, lembro-me bem. Procuramos um lugar para almoçar no Açu. Tudo fechado. Uma senhora fritou um peixe para nós. Então, Norma me contou detalhes da sua vida pessoal. Eu também. Essas confidências só fortaleciam nossa amizade. Cada vez mais, meu amor por aquela mulher aumentava.
Estivemos na enseada do Retiro, em São Francisco de Itabapoana. A Norma contemplativa aflorou. Ela ficou maravilhada com a paleopraia. Explicou-me que era fruto da erosão do mar, que avançou e recuou no Holoceno. E completava dizendo que, assim como recuou, ele voltaria e arrasaria tudo, fenômeno que ocorreria quando já tivéssemos morrido.
Examinando a vegetação, perguntei-lhe sobre uma planta muito comum em restinga, registrada por Guilherme Piso em 1648. Ela ficava fascinada com minha facilidade para datas e fases da história. Prontamente, respondeu que se tratava de “Guilandina bonduc”, popularmente conhecida como inimbói. E eu ficava encantado com seu conhecimento geral da natureza.
Fomos à lagoa de Gruçaí, onde encontrei exemplares altíssimos de aninga. Nada para ela era desimportante. Visitamos a foz do rio Macaé, onde eu encontrei exemplares de mangue-preto com raízes estranhas saindo do tronco a cerca de cinco metros do solo.
Sendo eu as suas pernas, entrei novamente na lama com sua máquina fotográfica. Contraí doença de pele por conta da sua teimosia e obsessão.
Fomos ao rio das Ostras, pois notei que, a partir dele, o mangue preto era de outra espécie. Ela disse que era preciso explorar a Região dos Lagos e Angra dos Reis para formular conclusões mais consistentes. Fomos a Cabo Frio. Ela queria encontrar dois exemplares de mangue-de-botão que vira por lá muitos anos antes. Nada encontramos. Então, ela combinou uma ida a Angra dos Reis.
Pernoitei em sua casa para partirmos cedo. No caminho, apareceu um defeito em seu automóvel. Como já disse, Norma tinha um lado pragmático acentuado. Fui logo dizendo que nada entendia de motor. Ela pegou uma caixa de ferramentas no porta-malas e consertou o automóvel até chegarmos a uma oficina em Angra dos Reis.
Mais uma vez, ela me fez entrar num bosque de mangue à procura do mangue-de-botão. Não encontrei nada. Mesmo assim, ela escreveu quatro artigos científicos com dados colhidos nas nossas andanças e colocou meu nome como coautor. Insisti que nada fizera senão lhe mostrar fenômenos que me causavam estranheza. Mas ela, no seu autoritarismo e teimosia, manteve meu nome lá. Ela achava justo que eu fosse coautor.
Apresentamos o trabalho no IV Simpósio de Ecossistemas Brasileiros, em Águas de
Lindoia, em 1998. Lá, Norma deu um banho em três jovens pós-doutores recém-retornados da Inglaterra. Mas não quero alongar muito minha homenagem à minha querida amiga.
Escrevo mais sobre ela outro dia.
*Athur Soffiati é professor aposentado da UFF e eco-historiador
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