OPINIÃO > ARTHUR SOFFIATI: A humanidade e os manguezais antes do ocidente III

Embarcação tradicional japonesa
Arthur Soffiati
No terceiro artigo da série, examinemos as relações entre as sociedades e os manguezais em mais quatro civilizações anteriores ao Ocidente, sempre lembrando que a pesquisa sobre esse tema carece de documentos e requer sempre que as lacunas sejam preenchidas por suposições lógicas.

Civilização indiana

Arthur Soffiati
Há quem dê a idade de 10.000 anos à civilização que floresceu na Índia, quando, na verdade, ela se desenvolveu a partir do declínio da civilização índica, já examinada aqui. A civilização indiana deve ter começado depois da invasão de povos arianos, em parte responsáveis pelo colapso da civilização índica.
Mortimer Wheeler escreveu que Mohenjo Daro, uma das duas cidades fortificadas da civilização índica, já vivia em estado de agonia quando povos arianos lhe desferiram o golpe de graça.
“A incessante destruição do mundo vegetal arborícola produzido, geração após geração, pelo consumo de lenha para cozer ladrilhos, recorrendo inclusive à madeira das colinas, deixou o terreno desnudo, e, ao reduzir a transpiração da umidade, influiu sobre o clima (…) Mohenjo-Daro dilapidava sem descanso sua paisagem”.
Parte do vale do Indo se converteu, assim, num vasto e árido deserto. Trata-se de uma das mais antigas crises ambientais causadas pelas relações de sociedades humanas e natureza. Ela será apontada por Jean Dorst como exemplo de crise ambiental antrópica localizada e reversível.
DO MESMO AUTOR
– A humanidade e os manguezais antes do ocidente II
– A humanidade e os manguezais antes do ocidente I
– Peixes das nuvens
– O manguezal como cenário
– Foi um rio que passou em minha vida
A civilização índica estimulou o nascimento de outra civilização por volta de 1.000 anos a.C. no vale superior do Ganges-Jumna. Daí, ela se expandiu em direção a leste e a sul, alcançando o grande complexo deltaico do Ganges e o vale do rio Narbada, ambos com áreas de manguezais. O Hinduísmo deu alma à civilização indiana.
A característica mais marcante do hinduísmo talvez seja a diversidade das correntes de concepção, que vão do monoteísmo ao ateísmo, passando pelo politeísmo. Todas elas têm em comum a aceitação de castas sociais e a tendência ao ascetismo. O Budismo e o Jainismo foram rejeitados pelo hinduísmo por negarem as castas, embora tenham mantido o ascetismo.
Conjunto de desaguadouros dos rios Ganges, Bramaputra e Meghna na baía de
Bengala entre Índia e Bangladesh denominado Sundarbans. Trata-se do maior delta
do mundo, com uma vasta área de manguezais
Nunca houve um reino indiano que tenha conseguido unificar politicamente todo o subcontinente. As dinastias Mauria (322-185 a.C.) e Gupta (século IV e V d.C.), ambas nativas, lograram unificações parciais. Integrante da dinastia Mauria, Ashoka (304-232 a. C.) é tomado hoje como um exemplo de respeito à natureza. Trata-se, contudo, de uma interpretação contemporânea de sua figura.
A civilização indiana sofreu pressão dos impérios persa e alexandrino. A influência da cultura helênica sobre o budismo gerou uma corrente budista denominada mayahana (grande caminho) que chegou à China e ao Japão.
A Índia sofreu invasões dos mongóis, convertidos ao islamismo, dos portugueses, franceses e ingleses. Foi sob essa última dominação que a Índia conquistou sua independência, em 1947, sendo Gandhi seu grande líder.
Aspecto do manguezal do Sundarbans
A Índia é uma grande península cercada de manguezais por todos os lados banhados pelo oceano Índico. Impossível conceber que o manguezal não tenha feito parte de sua vida. Faltam-nos, porém, relatos dessa relação. O delta do Ganges é o maior do mundo. Situado na zona intertropical, é de se esperar que o complexo fluvial irrigue uma grande área de manguezal frequentada por grandes animais.
Tigre na floresta de manguezal do Sundarbans

Civilizações do Sudeste Asiático

Segundo os estudiosos, o berço dos manguezais é o Sudeste Asiático. Foi ali que plantas de gêneros e famílias diferentes se adaptaram à água com teores salinos impróprios para a maioria dos vegetais. Yara Schaeffer-Novelli, uma das mais respeitadas especialistas mundiais no tema, explica:
“O termo mangue é empregado para designar um grupo floristicamente diverso de árvores tropicais que, embora pertençam a famílias botânicas sem qualquer relação taxonômica entre si, compartilham características fisiológicas similares. As adaptações especiais de que são dotadas permitem que tais espécies cresçam em ambientes abrigados, banhados por águas salobras ou salgadas, com reduzida disponibilidade de oxigênio e substrato inconsolidado”.
Do Sudeste Asiático, os manguezais navegaram para leste, oeste, norte e sul do planeta, limitando-se à zona intertropical do planeta e alcançando pontos pouco acima e abaixo dos trópicos. Entre o Sudeste Asiático e o norte da Austrália, encontra-se a maior diversidade de plantas exclusivas de mangue.
Floresta de mangues na região deltaica do rio Mekong. Foto VNA
No Pleistoceno, as ilhas do Sudeste Asiático estavam unidas por terra, pois o nível do mar encontrava-se a cerca de 100 metros abaixo do nível atual, com suas águas absorvidas pelas geleiras. A circulação de colonos, portanto, foi facilitada. Culturas paleolíticas se desenvolveram no âmbito de um território bem maior que o atual.
Vivendo de coleta, pesca e caça, as sociedades paleolíticas recorreram mais aos manguezais que nas fases históricas posteriores. Contudo, na cultura material dessas sociedades não houve registros da relação entre elas e o mangue.
No neolítico, com a elevação do nível do mar, o território foi fragmentado em ilhas, tornando-se mais difícil as trocas culturais. O insulamento representou um desafio a ser respondido pelo desenvolvimento da navegação. Antes mesmo da forte influência cultural proveniente da Índia e da China, os habitantes do sudeste asiático já eram grandes navegadores.
Segundo Toynbee, que está nos orientando, o Sudeste Asiático foi o ponto de encontro das culturas chinesa e indiana. Daí o nome Indochina, por muito tempo usado. De acordo com o mesmo autor, desenvolveram-se duas civilizações satelitizadas na região: a do Vietnã, ao norte do mesmo país e ao sul da China, satélite da civilização chinesa, e a khmeriana, a leste da região, como satélite da civilização indiana.
A influência de ambas se alastrou pelas ilhas. Houve intensos processos de aculturação pelo contato de duas fortes culturas com as culturas locais.
Principais rotas comerciais do Sudeste Asiático segundo Christie
Como explica Anthony Christie, ainda hoje existem culturas na fase neolítica em Bornéu ao lado de culturas sofisticadas que pressupõe rígida divisão de trabalho. A influência do Budismo foi mais forte que as demais até o advento do Islamismo e do ocidente. Mesmo assim, a marca do Budismo é estrutural em Mianmar e na Tailândia.
Sob a égide do Budismo, ergueu-se a cultura khmeriana, cujos vestígios mais representativos são as ruínas de Angkor, sede do império Khmer que dominou quase todo o Sudeste Asiático entre os séculos IX e XII d.C. O mar unia as ilhas e os rios ligavam o interior à costa. Foi construída uma rede de lagos dependente do rio Mekong para a produção do arroz. Templos magníficos foram erigidos. A navegação chegou a alcançar a costa oeste da África, notadamente Madagascar.
Segundo Jean Dorst, o continuo uso das águas e o equilíbrio precário dos lagos decorrente da expansão khmeriana provocaram uma crise ambiental local e reversível que concorreu para o declínio da civilização khmeriana. Outro centro de civilização no Sudeste Asiático foi Borobudur, na ilha de Java, onde majestosos templos budistas mahaiana foram construídos.
Expansão do império khmeriano em vermelho
O manguezal fazia parte intrínseca dessas duas civilizações e das culturas que as precederam, mas não figura nos documentos. A explicação mais plausível para esse silêncio das fontes talvez seja a intimidade.
O manguezal era tão normal na vida dos povos que habitaram o Sudeste Asiático que não mereceu registro em seus documentos.
Há muitos exemplos de ausência. No Brasil, o bicho-de-pé era muito comum. Ricos e pobres já estavam acostumados com suas infestações e delas não davam notícias. Foram os naturalistas europeus, atacados pelo ectoparasita, que escreveram muitas páginas sobre ele.

Civilização chinesa

Como as civilizações mesopotâmica e egípcia, a chinesa originou-se no vale de um grande rio: o Amarelo. Seu núcleo duro, ou seja, o centro de sua cultura, parece ter nascido pronto. Já nos seus primórdios, o povo, a língua falada e a escrita perpassarão toda a história da civilização chinesa.
Suas primeiras dinastias – Xia, Shang e Zhou – confundem-se com o plano mítico. As pesquisas arqueológicas revelaram que Xia, Shang e Zhou foram estados paralelos ou sucessivos do segundo milênio a. C.
O estado Shang desenvolveu arte da mais alta relevância. Sua religião era politeísta e xamanista. A base da economia chinesa era a agricultura e a pecuária, havendo também manufaturas. Mas formulações religiosas e filosóficas mais elaboradas, como o Confucionismo e o Taoísmo, apareceram no fim desse tempo, no século VI a. C.
A história da civilização chinesa foi marcada por unificações e desuniões políticas. No final do século V a. C., sete Estados resultaram de longos conflitos e continuaram a lutar até a supremacia do estado Qim. Começa então a China imperial sob a dinastia Qin (221-206 a. C.).
O rei Qin Shi Huangdi chegou ao poder em 221 a.C. Durante essa dinastia, iniciou-se a construção da Grande Muralha. Daí em diante, a história da China será marcada por fases de unificação e desunião, com golpes de estado, rebeliões, guerras internas e invasões.
Mongóis e manchus invadiram o país e fundaram dinastias. O apogeu da China ocorreu durante a dinastia Tang, no século IX d. C., com o auge da literatura e das artes. O budismo, que havia penetrado no país no século I, alcançou grande prosperidade.
A Grande Muralha, um grande canal de navegação, cidades suntuosas, arquitetura, escultura, pintura e literatura da mais alta qualidade e um centro de produtos cobiçados por muçulmanos e cristãos elevaram a China ao patamar das grandes civilizações. Com a penetração das influências e dos interesses econômicos ocidentais, o império chinês chegou ao fim durante a dinastia Qing, em 1911, quando foi proclamada a república no país.
Como a civilização chinesa desenvolveu a arte da navegação em alta escala, seu alcance acabou sendo motivo de grande discussão. No livro “1421 – o ano em que a China descobriu o mundo, o pesquisador Gavin Menzies sustenta que o navegador Zheng He empreendeu sete viagens à frente de uma colossal esquadra de embarcações de junco, atingindo a África, a América e até a Antártida.
Ele oferece como provas uma girafa, que teria sido enviada como presente ao imperador da China, e a comparação do mapa mundial de Kangnido, concebido na Coréia por Yi Hoe e Kwon Kun, em 1402, e um mapa-múndi de Fra Mauro, de 1457. O mapa de Kangnido já mostraria a América, como se pode verificar numa concepção mais aprimorada dele, descoberta no templo Honkōji de Shimbara, Nagasaki, em 1988.
Planisfério de Kangnido encontrado em Honkōji
O caso da girafa é perfeitamente explicável, pois viagens marítimas frequentes eram feitas, antes mesmo dos navegadores chineses, entre ocidente e oriente. Tanto a costa oriental da África já era detalhadamente conhecida pelos navegadores do Sudeste Asiático e da Índia quanto o extremo oriente já era conhecido dos europeus desde o tempo do império romano. Nada mais natural que uma girafa aparecesse na China.
Girafa que teria sido trazida à China em 1415 por uma das expedições navais
Quanto à sustentação de Menzies de que Zheng He tenha chegado à América em 1421, 51 anos antes de Cristóvão Colombo portanto, trata-se de algo a ser demonstrado com muita documentação. Mesmo com 2.000 toneladas, uma embarcação de junco seria extremamente vulnerável ao mau tempo no mar.
Cabe lembrar que a China não estava desenvolvendo um modo de produção capitalista, embora seu comércio fosse presidido pelos princípios do mercado. Por mais poderoso que o império fosse, não havia concorrência que motivasse a expansão marítima chinesa. Também as oscilações políticas eram frequentes na China. Assim, viagens como as atribuídas a Zheng He são possíveis mas não prováveis.
Os manguezais se desenvolvem no sul e no sudeste da China. Os habitantes do império os conheciam, mas eles não foram importantes para a economia geral do país. Apenas localmente devem ter sido explorados.

Civilização japonesa

A cerâmica foi inventada no neolítico, assim como a agricultura e a pecuária, nos primórdios do Holoceno, há cerca de 10.000 anos. A cerâmica Jomon, do Japão, é considerada a mais antiga do mundo. O imenso arquipélago com cerca de 6.000 ilhas contava com pontes naturais quando o nível do mar era mais baixo no Pleistoceno. Com a elevação do nível no Holoceno, as ilhas se tornaram mais numerosas.
A cultura japonesa apresenta afinidades com a cultura chinesa. O Xintoísmo é a religião original do Japão. O Budismo, nascido na Índia, migrou para leste, alcançando o Sudeste Asiático, a China e o Japão. A primeira unificação política do país ocorreu no século VI da era cristã. O império japonês incorporou a Coreia. À unidade sucedeu-se a fragmentação política, que deu poderes locais aos daimiôs. Com a Revolução Meiji, em 1868, o império triunfou. No entanto, o ocidente já estava exercendo influência sobre a civilização japonesa.
Ilha de Tanegashima, onde crescem os manguezais mais afastados da linha equatorial ao norte
Os manguezais mais afastados da linha equatorial, ao norte, encontram-se no Japão. Mais precisamente na foz do Minatogawa, na ilha de Tanegashima. Nessa ilha, cujas coordenadas são 30°34′26″N 130°58′52″L, ocorreu o primeiro encontro entre japoneses e portugueses, no século XVI. Nela, os nativos conheceram as armas de fogo pela primeira vez.
A confiar na informação de Gerard Taaffe, que não parece ser um especialista em manguezais, a espécie que aí ocorre, é a “Kandelia candel”, cujo sinônimo é “Rhizophora candel”. Os estudiosos sabem que as plantas de manguezal diminuem de porte à medida em que se afastam da linha do equador.
O manguezal não é um ecossistema familiar aos japoneses, exceto da ilha de Tanegashima para o sul. No arquipélago de Okinawa, onde ocorrem sete espécies de mangue, ele integra mais a vida do japonês.
Ilhas de Yakushima e Tanegashima: limite setentrional dos manguezais do planeta
Bosque de mangue no Parque de Tanegashima
*Athur Soffiati é professor aposentado da UFF e eco-historiador

Referências

CHRISTIE, Anthony. Las tierras unidas por el mar: las diversas tradiciones del Sudeste asiático. PIGGOTT, Stuart (org.). El despertar de la civilización. Barcelona: Editorial Labor, 1973.
DORST, Jean. A força do ser vivo. São Paulo: Melhoramentos-EDUSP, 1981.
MENZIES, Gavin. 1421: o ano em que a China descobriu o mundo. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2006.
NOVELLI, Yara Schaeffer. Mangue e manguezal. Atlas dos manguezais do Brasil. Brasília: Ministério do Meio Ambiente – Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, 2018.
TOYNBEE, Arnold Joseph. Um estudo da história. Brasília: Editora Universidade de Brasília/São Paulo: Martins Fontes, 1986.
WHEELER, Mortimer. La civilización del subcontinente índico. PIGGOTT, Stuart (org.). El despertar de la civilización. Barcelona: Editorial Labor, 1973.
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