OPINIÃO > ARTHUR SOFFIATI: A humanidade e os manguezais antes do ocidente II

Aspecto do manguezal do rio Indo
Arthur Soffiati
Continuamos a análise das relações de sociedades humanas com manguezais pelo mundo. Depois da introdução na primeira parte, examinamos agora as civilizações da Europa que atingiram a zona intertropical, da África e da Ásia.

Civilização egípcia

A civilização egípcia formou-se a partir de aldeias-estado (os nomos) no vale do médio e baixo Nilo. Por uma série de lutas sucessivas, os nomos se agruparam em dois estados maiores que, por fim, uniram-se num grande Estado, em fins do quarto milênio a.C. A civilização egípcia, desenvolvendo-se em lugar mais protegido de invasões que o Oriente Médio, expandiu-se para o sul, alcançando a Núbia.
Arthur Soffiati
Em direção ao norte, o poderoso Estado egípcio alcançou terras da Palestina, que não dominou por muito tempo. Na Núbia, desenvolveu-se uma civilização-satélite da egípcia que Toynbee denomina de meroítica.
Antes mesmo da unificação, o rio Nilo era o eixo aquático da civilização egípcia. É certo que os egípcios alcançaram o mar Vermelho por terra e tiveram contato com manguezais, embora, ao que se saiba, não tenham registrado em sua arte um exemplar de qualquer espécie desse ecossistema.
Pela Núbia, o oceano Índico era conhecido. Talvez até egípcios e meroíticos empreendessem expedições comerciais no que era chamado genericamente pelos gregos de mar Eritreu. O mar Mediterrâneo era mais conhecido dos egípcios, mas nele não existem manguezais.
Modelos de embarcações egípcias
O contato dos egípcios com os fenícios (membros da civilização siríaca, segundo Toynbee) foi bastante intenso. Sabe-se que eles eram grandes navegadores. O historiador grego Heródoto escreveu que, no reinado do faraó Necau II (660 a.C.- 593 a.C.), pretendeu-se abrir um canal para ligar o mar Vermelho ao rio Nilo.
DO MESMO AUTOR
– A humanidade e os manguezais antes do ocidente I
– Peixes das nuvens
– O manguezal como cenário
– Foi um rio que passou em minha vida
Indiretamente, esse canal ampliaria o delta do rio, fazendo-o desaguar tanto no mar Mediterrâneo como no mar Vermelho. O empreendimento exigia tecnologia ainda não desenvolvida num mundo pré-industrial.
Não conseguindo seu intento, consta que Necau II patrocinou uma expedição fenícia para circundar a África, partindo do mar Vermelho, contornando o cabo da Boa Esperança (que ainda não tinha esse nome), navegando a costa ocidental da África e alcançando o delta do Nilo pelo mar Mediterrâneo.
Heródoto narra essa viagem e desconfia de sua existência: “A Líbia mostra ser envolvida pelo mar, exceto do lado em que confina com a Ásia. Necau, rei do Egito, foi o primeiro, ao que sabemos, a provar isso. Quando renunciou à ideia de abrir o canal que deveria conduzir as águas do Nilo ao golfo Arábico, escolheu experimentados navegadores fenícios e, embarcando-os em seus navios, deu-lhes instruções para que, na volta da viagem que iam fazer, passassem pelas colunas de Hércules, no mar setentrional, regressando desta maneira ao Egito. Os fenícios, embarcando no mar da Eritreia, navegaram pelo mar Austral. No outono, desembarcaram na Líbia, no ponto onde se achavam, e semearam o trigo. Chegada a época da messe, colheram o trigo e fizeram-se novamente ao mar. Depois de dois anos de navegação, dobraram as colunas de Hércules e regressaram ao Egito. Contaram, ao chegar, que navegando em torno da Líbia, tinham o sol a sua direita, o
que não me parece crível, embora a muitos possa parecer. Foi assim, pois, que a Líbia
tornou-se conhecida pela primeira vez”.
Líbia era o nome dado ao continente africano na antiguidade. Ainda no século XIX de nossa era, o continente era chamado por este nome. Colunas de Hércules era a expressão usada para denominar o estreito de Gibraltar. Genericamente, golfo Arábico, golfo Pérsico e mar austral recebiam o nome de mar da Eritreia.
Um périplo como esse seria possível, mas não provável. Se realmente aconteceu, trata-se de uma façanha, pois, conforme Heródoto, os fenícios tiveram de parar demoradamente em pontos da África a fim de produzir alimentos que lhes permitissem continuar a viagem.
Com ela, os navegadores devem ter esbarrado em vários bosques de mangue. Não se conhece nenhum diário de bordo dessa expedição. Mesmo se houvesse, o registro de manguezais era raro, como veremos adiante com os registros feitos por muitos e muitos viajantes.
De qualquer maneira, sabia-se já que a África era um continente cercado de água marinha por todos os lados, menos pelo istmo do Sinai, que a liga à Asia. Essa estreita faixa de terra impede que a África seja uma grande ilha. Esse istmo também separa duas províncias marinhas: o mar Vermelho tem manguezais e o mar Mediterrâneo não. Enfim, sabemos que o manguezal já era conhecido dos egípcios e dos fenícios, mas ele não merece atenção.
Esta a grande dificuldade encontrada pelo eco-historiador que se propõe estudar as relações de sociedades humanas com manguezais.
Manguezal no Mar Vermelho

Civilização Índica

Na bacia do rio Indo, entre a Mesopotâmia e a Índia, foi construída uma civilização pujante. Sua vida se estendeu de 2500 a 1500 a. C. aproximadamente. Duas cidades construídas pela civilização índica nada deixavam a desejar em relação às cidades mesopotâmicas e egípcias. Mohenjo-Daro e Harappa constituíram dois centros urbanos poderosos.
A primeira evidência do uso do algodão foi encontrada na civilização índica. Ela também desenvolveu um sistema de escrita e redes de esgoto.
Segundo Mortimer Wheeler, a civilização do Indo se desenvolveu independentemente da civilização mesopotâmica. As relações comerciais entre ambas não eram intensas. Talvez até pudessem se estender ao Egito. Contudo, em direção à Índia, a leste, foram íntimas.
Pelo mapa abaixo, a civilização índica alcançou o delta do Indo, chegando ao mar da Arábia. Desse ponto, a navegação permitia tanto atingir o golfo Pérsico quanto a costa oeste da Índia. Impossível não haver relações com o manguezal, pois no delta do Indo cresceu uma das mais extensas áreas cobertas com esse ecossistema.
Área de expansão da civilização índica
Os estudiosos dessa civilização são unânimes em considerá-la como tendo se desenvolvido de forma autônoma a partir de uma sociedade neolítica da bacia. Se ela não deriva de nenhuma outra, sua influência sobre a civilização hindu é notória. Segundo Jean Dorst, uma das mais antigas crises ambientais da humanidade contribuiu para o colapso da civilização índica. Sendo a pedra era escassa, os índicos usaram a argila para suas monumentais edificações:
“As terras foram por demais exigidas, submetidas que estavam a intensa pastagem e à erosão eólica. A quantidade de chuva diminuiu, reduzindo a produtividade vegetal. Então, na tentativa de conservar sua rentabilidade agrícola e pastoril, o homem intensifica sua empresa, agravando cada vez mais os efeitos da erosão e lançando na atmosfera uma massa ainda mais pesada de poeiras arrancadas do solo. As chuvas diminuem. Está lançado o ciclo infernal. Nada mais será capaz de detê-lo.”

Civilização siríaca

A civilização siríaca deriva de uma combinação cultural mesopotâmica, egípcia, egeia e hitita. Os dois povos mais conhecidos da civilização siríaca são os hebreus e os fenícios. O primeiro pela construção da mais antiga e indiscutível concepção monoteísta, e o segundo pelas navegações comerciais.
Nunca existiu um duradouro império siríaco, mas os fenícios fundaram várias colônias no mar Mediterrâneo, sendo Cartago a mais importante. Foi desta colônia que partiu o navegador Hanon, na primeira metade do século V a.C., em direção à costa ocidental da África. Ele deixou um texto sobre a expedição que chegou ao rio Geba, na atual Guiné-Bissau.
Rotas fenícias de navegação
Embora originalmente colônia fenícia, Cartago adquiriu autonomia e se transformou em feroz adversária do império romano. Houve guerras entre ambos. No final, Roma venceu e se apropriou do relato de Hanon. O texto, que chegou aos dias atuais, mistura realidade com mitologia, mas parece crível em grande parte:
Roteiro de Hanon na costa africana fora do Mediterrâneo
“Navegando de lá na direção do oeste, chegamos a Soloeis, um promontório africano, que está coberto por árvores (…) Aqui dedicamos um templo a Poseidon. Navegando para leste durante meio dia, chegamos a uma lagoa. Não era longe do mar e estava coberta com abundantes juncos longos, que elefantes e outros animais selvagens estavam comendo”.

Globalização persa

Com a dinastia Aquemênida (550-330 a.C.), a civilização persa formou um dos maiores impérios da antiguidade entre o rio Indo, no oriente, e o Egito e mar Egeu, no ocidente. A Pérsia ameaçou a civilização helênica. A ameaça foi rechaçada com as Guerras Médicas.
Ainda hoje se especula sobre o destino do ocidente se a civilização persa ou iraniana tivesse vencido as guerras, especulação que não cabe ao historiador. Mesmo que a civilização helênica na sua desunião interna tenho vencido a civilização persa, houve uma troca cultural acentuada entre ambas.
Manguezal em Guiné-Bissau
Existiam persas entre os helênicos e helênicos entre os persas. Scilax de Cirianda, por exemplo, foi um navegante grego que trabalhou para os persas. Ele desceu o rio Indo, explorou o golfo pérsico e o oceano índico. Coube a uma pessoa anônima relatar as viagens de Scilax pelo mar Mediterrâneo entre o estreito de Gibraltar e o mar Negro no fim do século IV ou início do século III a.C.
Por essa razão, o texto é chamado de périplo do pseudo-Scilax. Consta até que a viagem se estendeu à costa ocidental da África que, segundo se sabe, já havia sido explorada pelos egípcios no governo de Necau II e por Hanon, no século V a. C. a partir de Cartago. Ambos os périplos já foram examinados aqui.
Máxima expansão do Império Persa
*Athur Soffiati é professor aposentado da UFF e eco-historiador

Referências

DORST, Jean. A Força do Ser Vivo, cap. 3. São Paulo, Melhoramentos-EDUSP, 1981.
HERÓDOTO. História, Livro IV, XLIV. Rio de Janeiro: Edições de Ouro, s/d.
PIERROTTI, Nelson escreveu, como que arrancando água da pedra, sobre essa
hipotética expedição em La exploración de África en los textos egípcios. De Sahure a
Neco II. Biblioteca Virtual Miguel de Cervantes. Alicante, marzo de 2007.
JABOUILLE, Victor. Périplo de Hannon — tradução de um texto grego publicada no
Jornal de Coimbra (1813). Lisboa: Hvmanitas, vol. XLVII, 1995.
PIERROTTI, Nelson escreveu como que arrancando água da pedra sobre essa
hipotética expedição em La exploración de África en los textos egípcios. De Sahure a
Neco II. Alicante: Biblioteca Virtual Miguel de Cervantes, março de 2007.
TOYNBEE, Arnold Joseph. Um estudo da história. Brasília: Editora Universidade de
Brasília/São Paulo: Martins Fontes, 1986.
WHEELER, Mortimer. O vale do Indo. Lisboa; Editorial Verbo, 1971.
COMPARTILHAR