OPINIÃO > ARTHUR SOFFIATI: A humanidade e os manguezais antes do ocidente I

Origem e dispersão planetária do ecossistema manguezal segundo Chapman. O ponto assinalado com a letra M indica a região em que se originaram as plantas exclusivas deste ecossistema. Fonte: SCHAEFFER-NOVELLI, Yara. “Manguezal: ecossistema entre a Terra e o Mar”. São Paulo: Caribbean Ecological Research, 1995. Como a expansão dos manguezais ocorreu apenas na zona intertropical, pouco acima e pouco abaixo dos trópicos, nem toda a humanidade teve contato com eles, conforme o mapa a seguir, mostrando a distribuição das espécies exclusivas de ambientes estuarinos ou semelhantes, assim como assinalando o aumento de espécies.
Arthur Soffiati
Antes da Europa, várias civilizações se expandiram por vastos territórios do mundo. Porém, antes dos humanos, a vida conheceu processos de expansão que alcançaram todo o planeta. Há 60 milhões de anos, nos primórdios da Era Cenozoica, algumas espécies vegetais angiospermas (com raiz, caule, folhas, flores, frutos e sementes), no atual Sudeste Asiático, empreenderam um processo de retorno ao mar. Para tanto, era necessário um longo período de adaptação. Essas plantas receberam futuramente, em português, o nome de mangue, formando o seu conjunto um manguezal.
Arthur Soffiati
Suas adaptações ao novo meio consistiram em raízes com geotropismo negativo (que crescem para cima) com células respiratórias (lenticelas), mecanismos de barragem, diluição e extrusão do sal, ramificações do caule para sustentar a planta, raízes aéreas e viviparidade. As plantas exclusivas de manguezal ocuparam o espaço intertropical do planeta e promoveram uma globalização especial, pois que dentro de limites climáticos e ambientes estuarinos, de preferência, embora possam se fixar em costas de baixa energia marinha.
Um propágulo não corresponde exatamente a semente, mas, para os fins deste artigo, um propágulo funciona como uma espécie de semente. As espécies típicas de manguezal produzem propágulos que se desprendem da árvore-mãe prontos para germinar. Se caírem na água, eles conservam poder germinativo por muito tempo. São grandes navegadores.
DO MESMO AUTOR
Peixes das nuvens
O manguezal como cenário
Foi um rio que passou em minha vida
Partindo do Sudeste Asiático, as plantas de manguezal devem ter se disseminado pelo oceano Índico em direção à África, descendo a costa oriental desse continente até imediações do trópico de Capricórnio. Elas também rumaram em direção ao mar de Tethis, que permitia passagem para o oceano Atlântico. Desceram então pela costa ocidental da África e pela costa oriental da América. Como ainda não existia o istmo do Panamá, as plantas colonizaram a costa pacífica da América, chegando ao arquipélago de Galápagos.
Em direção ao oriente, as plantas navegaram até a Polinésia. Ao longo dessa grande viagem de navegação, novas espécies se desenvolveram. Elas descreveram um verdadeiro périplo.
Distribuição dos manguezais pela zona intertropical segundo a diversidade de espécies

Paleolítico inferior e médio

Edgar Morin, numa palestra, sustentou que “a primeira globalização começou há 100 mil anos, com os primeiros humanos: os caçadores coletores. Eles foram à América, eles andaram por toda a parte e, ao que parece, partiram da África”.
Ponderemos sobre este breve trecho. De fato, o “Homo sapiens” colonizou o mundo a partir da África. Ele saiu deste continente já conhecendo o fogo, a sepultura e ferramentas ligadas a uma atividade coletora, pescadora e caçadora ainda simples. Os cientistas denominam essa longa fase de paleolítico inferior e médio.
Nessa demorada expansão pelo mundo, o ser humano certamente teve contado com manguezais e deles extraiu recursos. Nenhum registro pictórico, porém, registra esse contato.

Paleolítico superior

O processo de aprimoramento de ferramentas destinadas à coleta, pesca e caça foi longo. Em torno de 40 mil anos antes do presente, artefatos especializados ou foram produzidos em cada grupo ou disseminados entre eles e ressistematizados por cada um de acordo com suas peculiaridades. As novas técnicas e tecnologias se expandiram entre os grupos humanos por todo o mundo.
Quanto à América, existe uma discussão sobre a data em que ela foi colonizada pelo “Homo sapiens”. Sabe-se que ele chegou ao novo continente proveniente da Ásia ou da Oceania ou de ambos, já dominando a tecnologia de coleta, pesca e caça do Paleolítico Superior. No novo continente, ele se disseminou por todas as partes. Na faixa intertropical da África, Ásia, Oceania e América, grupos humanos tiveram contato com manguezais, já que esse ecossistema é pródigo em alimentos que podem ser colhidos com relativa facilidade.
No Brasil, estudos arqueológicos em sambaquis, mostram a importância dos manguezais para povos de economia paleolítica.
Mas essa primeira globalização humana planetária deve ser entendida como a colonização do mundo por um tipo de economia comum e, ao mesmo tempo, restrita a cada sociedade. A partir de uma economia paleolítica comum, os esquimós, por exemplo, adaptaram-na a um rincão particularmente frio do planeta. Os polinésios a adaptaram para a navegação no oceano Pacífico.
Significa isso que todos os grupos sociais contavam com o pacote genérico de instrumentos do Paleolítico Superior, mas esse pacote era modificado de acordo com o meio, e cada adaptação não era exportada para o mundo todo, como atualmente.
Expansão dos hominídeos pelo planeta

Neolítico

A partir das culturas do Paleolítico Superior, algumas sociedades desenvolveram culturas distintas de agricultura e pastoreio, que permitiram sua sedentarização. Toynbee recorre ao processo de desafio-resposta para explicar a passagem de uma cultura à outra. Culturas neolíticas se desenvolveram no Oriente Médio, África, Europa, Índia, China, Japão, América Central e região Andina, além de em outros lugares do mundo, de forma independente como resposta ao desafio do aquecimento global no final do Pleistoceno, em torno de 11.500 anos antes do presente (AP).
Alterações ambientais representaram um desafio a todos os povos paleolíticos, mas poucos o responderam de forma criativa com uma economia que permitiu a sedentarização. Por que? A resposta fica por conta do imponderável. Toynbee não admite a raça nem o determinismo geográfico no processo de desafio-resposta.
As sociedades neolíticas deixaram o manguezal à margem de sua economia. Como os alimentos passaram a ser obtidos na agricultura e no pastoreio, o manguezal passou a ser uma fonte secundária. Ele foi marginalizado, mas não abandonado. Recorre-se a ele, agora, como fonte para suplementação de uma economia de subsistência e não de mercado, pois essa só se desenvolve na Europa ocidental a partir do século XI d. C.

Civilizações

Na segunda metade do Holoceno (de 5.000 AP em diante), algumas sociedades neolíticas passam à condição de civilizadas. Entramos num terreno pantanoso do ponto de vista conceitual. É preciso definir civilização. Vários autores se debruçaram neste esforço, tais como Frankfort, Whitehead, Bagby, Kroeber, Spengler, Childe, Dawson e o próprio Toynbee. Mais recentemente, Braudel e Huntington retornaram ao conceito. Recentissimamente, Niall Ferguson fez o mesmo.
No geral, entende-se que civilização é uma sociedade neolítica que criou cidades. Entre todos, Toynbee parece ter definido civilização de forma ampla, “como um estado da sociedade no qual uma minoria da população, ainda que pequena, fique liberta da tarefa não apenas de produzir alimentos, mas de trabalhar em qualquer outra atividade econômica – por exemplo, a indústria e o comércio – que tenha de ser realizada a fim de manter a vida da sociedade no plano material, ao nível de civilização.
Estes especialistas não-econômicos – soldados profissionais, administradores e talvez, principalmente, sacerdotes – têm certamente sido habitantes das cidades no caso da maioria das civilizações que conhecemos. Toynbee ainda esclarece que houve sociedades civilizadas sem cidades, como os nômades das estepes da Ásia Central.
Civilização é, portanto, um tipo de sociedade que implica em divisão técnica, sexual, territorial e social do trabalho. As ideologias são fundamentais para a coesão, a existência e a história das civilizações. Diríamos que a religião é uma manifestação imaterial que assegura, até certo ponto, a unidade da civilização.
A primeira sociedade neolítica a se transformar em civilizada vivia no sul da Mesopotâmia, lidando com o excesso de água. Mais tarde, ela receberá dos estudiosos o nome de Suméria. Para Toynbee, ela é o ponto inicial da civilização mesopotâmica. Também no caso das civilizações o processo do estímulo-resposta é válido.
As primeiras civilizações parecem nascer tanto de respostas a ambientes hostis quanto do acúmulo de recursos produzidos. Não é mais possível que a sociedade toda lide com a produção. Assim, começam a se desenvolver grupos sociais, depois classes, que cuidam da organização da produção (nobres e escribas), da religião (sacerdotes) e da defesa (soldados).
Mapa-múndi mesopotâmico datado entre os séculos IX e VIII a.C.
A civilização mesopotâmica, na sua extremidade meridional, deve ter lidado com os manguezais do golfo Pérsico. O mais antigo mapa do mundo até hoje conhecido provém da Mesopotâmia. Ele representa montanhas e um rio entre elas, provavelmente o Eufrates, que desemboca no Golfo Pérsico, onde se encontram manguezais. E epopeia de Gilgámesh, talvez a mais antiga do mundo, narra a história de um herói semideus que parece ter andado no golfo e mergulhado para colher plantas que prolongavam a vida. Não existe, porém, notícia explícita de manguezal.
Outras civilizações desenvolveram-se em todos os continentes. Na África, a egípcia, a meroítica e outras que as pesquisas recentes trouxeram à luz. Na Europa, a danubiana, a egeia, a helênica e a ocidental cristã. Na Ásia central, a mesopotâmica, a índica e a indiana. Na Ásia oriental, a chinesa, a coreana, a japonesa e a khmeriana. Na Oceania, a polinésica. Na América, a andina, a maia, a mexicana e, recentemente, a amazônica.
As situadas em zona tropical ou expandindo-se em direção a ela, devem ter lidado com manguezais. Carecemos de estudos sobre esta relação quanto à maioria. Por esta razão, temos de enxergar manguezais de forma indireta nos documentos.

Globalizações

Parece existir uma tendência à expansão das civilizações, mas é preciso andar com cuidado nesse terreno. As civilizações mesopotâmica, egípcia, siríaca, persa, helênica, islâmica e ocidental cristã se expandiram. Todas criaram Estados Universais, que são entidades políticas com governo centralizado, integrando regiões da mesma civilização ou de outras civilizações.
Nenhum Estado Universal teve amplitude planetária. Mas um processo de globalização não exige, necessariamente, a fundação de um Estado global centralizado. Ela, a globalização, pode ser econômica e cultural.
Decifração do mapa: 1- montanha; 2- cidade; 3- Urartu; 4- Assíria; 5- Der; 6-?; 7- pântano; 8- Elaru; 9- canal; 10- Bit Yakin; 11-cidade; 12- Hebban; 13- Babilônia; 17- oceano; 18-22- objetos mitológicos
Não se pode afirmar que a Europa ocidental tenha formado um Estado planetário. Contudo, sua influência econômica e cultural está presente hoje em todo o mundo. Basta verificar que todos os Estados do planeta foram ocidentalizados. A própria instituição ocidental do Estado Nacional disseminou-se por todo mundo.
Direta ou indiretamente, a economia do mundo é capitalista. Mesmo que os centros de dominação do capitalismo tenham se deslocado da Europa ocidental para os Estados Unidos, Japão e China, o mundo hoje se encontra ocidentalizado, ainda que várias regiões conservem suas culturas ancestrais no porão. Na superfície, quem dá as cartas é o ocidente.
Mas houve processos de globalização anteriores ao da Europa ocidental. Examinemos apenas alguns, por terem incorporado terras tropicais e por serem mais conhecidos.
CONTINUA…
*Athur Soffiati é professor aposentado da UFF e eco-historiador

Obras consultadas

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