O rio

O ônibus balançou
A magia começou
E o rio falou
O ônibus corria velozmente. Eu já estava viajando há quase cinco horas quando apareceu o rio. Estava bastante cheio, volumoso, invadindo as margens, com um colorido escuro de café com leite. Era o que eu esperava, depois das fortes chuvas. Desde maio passado que eu o via com pouca água. O fundo do leito aparecendo em grande parte. Leito de pedra todo marcado como se fosse costelas de um imenso ser vivo.
Então criei um desejo de vê-lo ocupando todo o leito, volumoso, majestoso, como que fazendo parte completa da paisagem.
Até então a viagem transcorria calma com paisagens bastante conhecidas por mim.
Estava viajando com frequência por aquelas bandas e a partir de certa data, que não me lembro qual, passei a ter um interesse especial por aquele rio . Parecia que ele queria me transmitir alguma coisa. Parecia que ele queria me dizer algo. Pensei comigo mesmo: “Será possível uma coisa dessas?” Senti uma sensação diferente! Um rio não fala!
Naqueles dias de estiagem, o rio estava com muito pouca água. O fundo do leito aparecendo; num longo trecho, todo o leito de pedra esculturada com valas, buracos, saliências, corredeiras quase delicadas, inúmeras pequenas ilhas de pedras talhadas. Algumas ilhas maiores de terra com capim e arbustos.
Agora o via majestoso, volumoso, as águas ocupando todo o leito. Naqueles trechos em remanso, sua superfície calma e tranquila não dava a perceber o que se passava no seu íntimo, lá nas profundezas.
Olhando-o nesta parte tranquila (como na fotografia), não se pode imaginar como ele estava agitado e com momentos de intensas emoções.
Enquanto o ônibus seguia ao longo da margem do rio, às vezes lento, às vezes rápido , eu o olhava, lembrando-me de que nas últimas viagens já esperava com uma alegria antecipada, o momento em que ele apareceria.
Quase sempre eu me levantava da cadeira para olhar algum ponto com mais atenção. Sentia uma atração me invadindo. Depois sentava e ficava como que em transe.
As árvores de sua margem passavam rapidamente, passavam não tão rapidamente. Elas podiam passar na velocidade que quisessem, enquanto eu olhava o rio; enquanto eu percebia a luz e as sombras dos galhos e das folhas; enquanto algumas folhas brilham, fazendo contraste com outras que não brilhavam; enquanto o rio ia passando e passando por entre os galhos e troncos; enquanto o ônibus balançava e sacudia e fazia o quadro de minha percepção se movimentar ligeiramente para cima e para baixo, para cima e para baixo.
Parecia um jogo de esconde-esconde entre mim e ele. E naquele momento de êxtase, o rio falou:
– Não sou o mesmo rio sempre. A cada momento sou um rio novo.
– Fiz um ar de interrogação, e ele continuou:
– Existo há milhões de anos. Você pode perceber isso olhando as rochas de meu leito durante o período de seca. É fácil imaginar que leva muito tempo para marcar, talhar e esculpir as rochas. Você pode voltar atrás milhões de anos e imaginar este trabalho tão lento e maravilhoso. Eu sou muito antigo mesmo!
Todos olham e dizem: “Este é o rio Paraíba”, como se eu fosse sempre o mesmo rio. Mas na verdade, a cada instante eu sou um novo rio.
Você também é, a cada instante, um novo ser!
– Como assim, perguntei.
– Aguarde. Vou falar disso mais tarde.
-Hoje eu estou cheio, ocupando todo o meu leito. Alguns seres sentem temor, outros vêem beleza. Eu mesmo vejo isso como uma coisa normal que vem se repetindo todos os anos.
A cada ano minhas águas ficam mais escuras, vocês a chamam de poluídas e eu estou sempre sendo ajudado para equilibrar essa situação.
Em alguns trechos de corredeiras pode parecer que estou raivoso, mas não, eu estou me divertindo. Gosto do que faço. Deitar, correr, pular, percorrer um longo caminho e mergulhar no oceano.
É uma maravilha!!!!
Interrompi-o:
– Mas você ia falar a respeito de sermos, a cada instante, um novo ser!
-Sim, nós estamos em constante mutação e renovação. Para mim isto é mais visível, pois minhas águas estão sempre passando e mudando.
Aliás, nós dois somos muito parecidos!
Ele percebeu que meus olhos se abriram mais e enfatizou:
– Somos feitos quase que exclusivamente de água e também em você, as águas estão sempre passando, mudando e se renovando.
Parei para pensar sobre o que ele disse e me perguntei:”será que é?” Ele continuou:
– Penso que seria muito útil, você saber que está mudando a cada instante, porque você se interessaria em atuar na mudança e melhorar a cada instante.
Interrompi-o:
-Mas você está falando de mudanças físicas ou mentais?
– Estou falando de uma coisa só. Mudando um, o outro também muda. É automático e instantâneo. Você só percebe isso e só tem consciência da mudança após algum, quase sempre após um longo, longo tempo. Pode até não perceber e nem se interessar por isso, porque normalmente você não esta cuidando disso, e assim as mudanças podem ocorrer não para melhorar, mas para piorar.
Eu estou sempre atuando para melhorar minhas condições. Faz parte do meu papel. Às vezes leva tempo, muito tempo, dependendo da ajuda externa.
Apesar de eu ser sempre um novo rio, você sempre que me olha diz: “Este é o rio Paraíba!”
Você também todos os dias se olha no espelho e acha que é o mesmo sempre!!
Olha os outros e não observa as mudanças ocorridas, a não ser em alguns detalhes superficiais, assim como você me vê cheio ou raso, claro ou escuro, etc.
Esse costume de dar um nome para cada um ajuda a perpetuar esse engano de que é o mesmo ser ou a mesma pessoa. Mas não é. A cada instante é um novo ser, uma nova pessoa!!
Essas mutações ou mudanças são inevitáveis e constantes, mas você faz um esforço enorme para parecer o mesmo de sempre, para continuar a representar sempre o mesmo papel.
– Representar o mesmo papel? Perguntei.
Sim, todos estamos aqui representando, como num teatro!
Porém não sabemos disso. Achamos que estamos aqui para alguma função nobre, especial, etc. Para passar o tempo. Para sofrer. Para viver. Para alguma missão, e assim por diante.
– Você tem alguma missão?, Perguntei.
– Às vezes penso que tenho uma missão.
Levantei as sobrancelhas.
-“Você quer saber qual é?”
Eu realmente não estou certo sobre isso.
Por exemplo, poderia recolher as águas que estão sobrando por aí e levá-las para o oceano, para reiniciar um novo ciclo.
Poderia ser umedecer a terra, para permitir a vida das bactérias, plantas, animais, etc. Contribuir para o clima das regiões onde passo, gerando umidade e equilibrando a temperatura, etc.
– O que mais?, perguntei.
– No fundo, lá nas profundezas onde a luz não penetra, onde não existem ilusões, eu penso que somos atores. Somos atores atuando num palco, mas não sabemos disso e nem podemos saber. Se você pensar nisso não vai acreditar e vai descartar essa ideia como maluca. Talvez até seja melhor não falarmos mais nisso!!!
Fiquei quieto um longo tempo, findo o qual, eu disse:
-Fale mais sobre isso, por favor!
Após uma ligeira hesitação, ele continuou:
– Somos equipados, isto é, fomos projetados ou gerados ou qualquer outra coisa (podemos falar disso outro dia), para desempenhar um papel. E para não percebermos isso e podermos representar esse papel, fomos dotados das emoções do prazer e da dor.
BUSCAMOS O PRAZER.
FUGIMOS DA DOR.
Cada um com seu papel, mas sempre buscando o prazer. A busca do prazer é o veículo, é o ônibus onde você se acomoda para olhar a paisagem e tem a impressão de que está viajando, mas você está, na verdade, apenas representando seu papel!!!
Buscando o prazer e fugindo da dor, não temos consciência do papel.
Quando o papel não está proporcionando o prazer esperado, mudamos ou tentamos mudar o papel, mudamos o cenário, mudamos os atores, mudamos as cenas, mudamos de cônjuge, mudamos de emprego, mudamos de cidade, mudamos o canal da televisão, mudamos de bebida, mudamos a comida, mas nunca estamos conscientes de que somos apenas atores.
Nesse ponto da viagem, eu já estava quase entrando em órbita, pensei até em parar a conversa, mas não era mais possível, não estava mais em mim o poder de parar, e ele continuou:
-É interessante observar que o prazer exige mudanças e novidades. A monotonia traz a apatia, o tédio ou o desprazer. Por isso é que tudo está sempre em mutação, para proporcionar as novidades e então o prazer.
Há milhares de anos, as mudanças eram lentas, quase que difíceis de serem percebidas, mas vocês começaram a provocar mudanças, e cada vez mais aumentarem o prazer e cada vez mais acelerarem as mudanças para aumentar o prazer.
O universo inteiro está sempre mudando. Cada célula de um organismo está sempre mudando seguindo uma dinâmica geralmente organizada. As células e todas as menores partículas do universo estão também procurando novas formas e nessa busca, às vezes a mudança foge do padrão, foge dos limites razoáveis e então gera uma doença.
De acordo com a sua nomenclatura, cada parte por menor que seja em seu tempo morre e nasce outra ou outras.
Em minha nomenclatura, não existe morte nem nascimento. Existem apenas mudanças.
No universo, tudo está mudando. A cada instante milhões de unidades estão se extinguindo e outras estão surgindo, desde a menor célula dos seres aqui da terra, até as maiores estrelas e galáxias. Uma constante mutação.
Não existe início, nem fim. Essas são palavras que vocês inventaram para tentar entender e explicar o mistério.
EXISTEM APENAS MUDANÇAS.
– Fale mais do prazer, solicitei.
-Cada um busca o prazer a seu modo e dentro das possibilidades do papel que está representando.
Não existe assim um prazer melhor para uma do que para outra entidade, seja animal, vegetal ou qualquer outra.
Cada um sente a felicidade ou o prazer de acordo com os recursos que tem para representar o seu papel.
Aqui neste planeta, alguns acham que o prazer está em buscar o significado da vida.
Outros em estudar.
Outros em ajudar.
Outros em amar.
Outros em odiar.
Outros em dominar.
Outros em ser dominados.
Outros em desaparecer como o grão de pó da estrada.
Outros em beber.
Outros em ver TV.
Outros numa mistura de todos acima e assim por diante.
A busca do prazer é a força que nos faz aparecer e viver.
Mas o prazer só existe com coisas novas. Cada momento de prazer é acompanhado pela sensação de que é um prazer diferente de todos os anteriores.
Se não fosse assim, seria monótono e, portanto, sem prazer.
– A coisa foi muito bem imaginada, pensei, balançando a cabeça e sentindo prazer em ouvir o rio. E ele continuou:
– Em todo o universo é assim. UMA CONSTANTE MUTAÇÃO. Mutação da energia. A energia é uma só. A mesma energia sob várias formas, mas também ela precisa estar em constante mutação. Ela também precisa se divertir !!!!
– Você está dizendo que uma pedra também sente prazer e dor? Que uma estrela também sente prazer e dor?
Notando meu ar de incredulidade, ele desculpou-se e disse:
– Vou explicar o que está acontecendo:
Para poder conversar com você, e você me entender, eu estou usando o seu meio de comunicação, que são as palavras, ou linguagem de palavras.
Para poder desempenhar seus papéis, vocês inventaram as palavras e entre elas existem as palavras início, fim, nascimento, morte, prazer, dor, Deus, universo, entidades, pedras, estrelas, etc.
Mas fora de seu mundo nada disso existe!!!! As pedras e as estrelas e todas as outras entidades tem equipamentos e recursos diferentes de vocês. Eles desempenham seus papéis de outras maneiras com outros recursos que vocês não podem imaginar e nem têm palavras para definir e que não podem ser percebidos pelos seus sentidos.
Fechei momentaneamente os olhos sob o peso destas palavras.
-Você tem tanta sabedoria, como desenvolveu essa sabedoria?
– Bem, lembre-se de que eu existo há muito tempo e venho observando e aprendendo por todos esses milhões de anos.
Você também já sabe que eu sou sempre um novo rio e, portanto, a cada momento este novo rio, vê coisas diferentes, porque é em si diferente do anterior.
Se eu fosse sempre o mesmo, não perceberia coisas novas.
SE VOCÊ NÃO MUDA SEU MAPA, VOCÊ VERÁ SEMPRE O MESMO TERRITÓRIO, não é ?
– Pare um pouco, eu disse. Respirei fundo, e ele continuou:
– A percepção de coisas novas só é possível se o observador é novo a cada momento.
Se você tomar consciência de que é sempre um observador novo, então você passará a ver sempre coisas novas nas coisas já conhecidas. As pessoas que o cercam serão sempre diferentes a cada dia. Você perceberá as diferenças e as novidades em cada um.
Só você perceberá isso e você ficará em silêncio, olhando e dizendo para você mesmo: “È realmente outra pessoa”. Não será necessariamente uma pessoa melhor ou pior. Não será uma árvore melhor ou pior. Não será uma pedra melhor ou pior. Serão todos parte deste universo maravilhoso onde você acabou de renascer!!!
Respirei fundo novamente, e sorri.
– Você é mesmo um rio? Quem é você?
– Para você eu sou um rio antigo de milhões de anos. Para você eu não sou um rio apenas.
– Fale um pouco mais sobre tornar-se um novo ser a cada instante.
– Você se olha no espelho e vê a mesma pessoa sempre. Você olha seu parceiro e vê a mesma pessoa, e assim por diante.
Pela manhã, você sai para viver num mundo já conhecido e igual, a mesma rota, o mesmo trabalho, os mesmos caminhos. Você é o você de ontem e será o você de amanhã.
Sendo assim, você só verá as mesmas coisas ou os mesmos vocês.
Você dirá: Eu sou o Orlando Grudando, sempre fui e sempre serei até a morte. Sou casado com a Andorra Grudando e tenho os filhos… e assim por diante.
Agora se olhe novamente no espelho e pense o seguinte: Desde que nasci eu venho mudando. Ultimamente tenho a sensação de que estou parado, mas não é verdade. Sei que cada célula de meu corpo muda a cada momento. Muda dentro de seu padrão, mas muda. Tudo em meu corpo está sempre mudando. O conteúdo de meu cérebro, de minha mente também está sempre mudando, desde que nasci. Meus filhos crescem e mudam a cada instante, meu cônjuge também muda e, se eu olhar bem, todos estão mudando.
-De onde vem então esta sensação de que não sou novo a cada instante?
-A resposta é: Você precisa ser o Orlando Grudando de sempre para se sentir seguro. Para ser você. Para ser um ator desempenhando seu papel. Para receber os aplausos e as vaias.
Esta fixação nesta sua identidade torna-se quase que uma necessidade e tira sua flexibilidade. Você vive dentro de uma zona de conforto, zona de segurança.
Se você se convencer de que a cada momento você é outra pessoa, então você se tornará flexível e o mundo abrirá suas portas para você ou você abrirá as portas do mundo.
– Pare, eu disse. Sentia meu coração acelerado.
Após algum tempo. ele continuou:
– Você diz: “O mundo está mudando muito rapidamente. As coisas já não são mais as mesmas”. Geralmente você nota mais as mudanças com as quais você não está de acordo ou que pioraram e diz:
“Está cada vez mais difícil viver neste mundo!!”
Embora as mudanças sejam provocadas por você mesmo, na necessidade de mais prazer, você reage contra elas e se enrijece cada vez mais. Você gostaria de poder controlar as mudanças, mas não pode.
Interrompi-o mais uma vez e perguntei:
– O que fazer então?
– É necessário ser flexível. Aceitar. Aceitar não, porque implica que você está reagindo. Fluir é a palavra certa.
Flexibilidade é uma de minhas mais fortes características. Sigo meu curso, onde é possível. Os obstáculos não existem. Contorno-os, sempre em frente, sempre em direção ao meu maior objetivo, que é chegar ao oceano.
Digo maior objetivo porque, para chegar lá, é preciso ter objetivos menores e um dos meus objetivos menores é descobrir opções a cada momento. Alternativas que melhorem meu papel, que permitam maiores prazeres.
Se você pensar na idéia da representação, do seu papel neste teatro da vida, ficará mais fácil ser flexível e será possível fluir em vez de enrijecer.
Será possível contornar os obstáculos. Eles deixarão de ser obstáculos e serão partes da paisagem da vida, do fluir da existência.
Serão apreciados enquanto você passa, ficarão para trás e serão lembrados. E você poderá plantar neles árvores floridas, jardins, pomares com frutas deliciosas. Serão sempre lembrados com alegria e lhe darão a sensação de riqueza e poder.
Comentei:
– Parece fácil. Fale um pouco mais sobre isso.
Uma das razões para você se enrijecer, isso é, ficar preso em suas convicções limitantes, é o medo da derrota, o medo de arriscar, o medo de uma mudança desconhecida, pois você busca o prazer e foge da dor. Uma mudança pode significar desprazer!!!
Alguma experiência antiga negativa que está viva e forte,segura-o como que para protegê-lo de repetir a dor. Experiência de frustração, de derrota, de desilusão.
Alguém lhe diz: “Não existem derrotas, somente resultados”.
Você balança a cabeça em aprovação e gosta. Mas dentro de você existem as emoções que, por serem emoções, são poderosas. Certamente uma delas tem medo de correr o risco e se frustrar ou sofrer novamente.
E aí não adianta muito você pensar em ter força de vontade, porque quem comanda quase sempre são as emoções .
– Da maneira como você fala, não parece fácil!
– Você está se esquecendo de que existem as emoções que trazem uma visão da felicidade e do prazer e com estas você pode contar para conseguir o que quiser !
Vou lhe contar uma história que ocorreu há pouco tempo:
O nome dele é Sr. Galdino. Todos os dias ele cruzava de uma margem do rio à outra pela manhã e, ao pôr-do-sol, ele voltava para casa.
Alí.
Ele era hábil com o pequeno barco. Carregava várias coisas, ferramentas, às vezes, bananas, abóboras, etc. e eu notei que sempre havia uma barrica de madeira.
Apesar de hábil no remo, ele às vezes tinha que fazer um grande esforço. Mesmo quando só havia a barrica de madeira, o esforço era grande.
E eu estava sempre curioso sobre o que havia na barrica, mas não conseguia descobrir.
Interrompi-o e comentei:
-Mas você com sua capacidade de ler a mente das pessoas não conseguiu descobrir o conteúdo da barrica?
– Pois é, por isso mesmo é que fiquei cada vez mais intrigado. Nem ele sabia qual o conteúdo da barrica!
Eu pensava: “Se ele não sabe o que contém a barrica, para que ele a carrega sempre?”
Um dia não resisti e perguntei lhe: Sr. Galdino, para que você está sempre carregando esta barrica?
Ele largou o remo, levantou o chapéu ligeiramente, coçou a cabeça, olhou para cima e para o lado, pensou um bom tempo e disse:
-Não estou bem certo, mas sinto que ela equilibra o barco. Já tentei várias vezes me livrar dela, mas não consegui. Alguma coisa, uma espécie de força interna me força a recolocá-la no barco. Sinto que ela é como se fosse uma parte de mim e do barco.
Naquele momento eu descobri o conteúdo da barrica. Mas fiquei quieto. Não adiantava dizer a ele, porque ele tinha de descobrir por si.
E o Sr. Galdino continuou por vários anos remando com grande esforço, carregando sempre aquela barrica, que parecia que estava cada vez maior.
Até que um dia, uma tempestade o colheu bem no meio da travessia. O pequeno barco balançava, jogava e se empinava e o Sr. Galdino, agarrado à barrica, não sabia se remava ou se segurava a barrica, se segurava a barrica, ou se remava, e com uma mão segurava a barrica e com a outra tentava remar. Às vezes largava a barrica e remava, e logo a seguir tinha de largar o remo e segurar a barrica…
O Sr. Galdino, com seus longos anos de prática sabia que precisava remar para sair da tempestade, mas ele não podia soltar a barrica, se não ele iria junto com ela para a água, porque a barrica era uma parte dele .
Após anos e anos de travessia, às vezes em noites escuras como breu, tinha aprendido a confiar em sua intuição e agora, rapidamente como um relâmpago, ele sentiu a intuição lhe dizer: “SOLTE A BARRICA E PARE DE LUTAR”!, e foi o que ele fez.
De lutar parou
A barrica afundou
A tempestade acabou
A mente clareou
E aconteceu um quase milagre! No instante exato em que a barrica se foi, a tempestade terminou, o vento se acalmou, as nuvens ameaçadoras desapareceram, o sol surgiu, e o bem-te-vi cantou.
Primeiramente ele sorriu, depois deu sonoras gargalhadas, respirou fundo, encheu o peito com aquele ar gostoso do rio, sorriu novamente e nunca mais perdeu aquele sorriso maravilhoso.
O barco agora, sem a barrica, fluía leve, fácil de manobrar e de remar, fácil de contornar os obstáculos e fácil de chegar ao seu objetivo.
E o Sr. Galdino compreendeu o que tinha dentro da barrica !!
E eu impaciente perguntei:
– O que tinha dentro da barrica?
O rio respondeu:
-Tinha as experiências ruins do Sr Galdino.
Tinha suas crenças limitantes e negativistas .
Tinha aquelas sensações que faziam ele ver dificuldades em quase tudo,
Tinha aquelas partes que criavam conflitos.
Tinha os medos injustificados.
Tinha os medos de errar.
Tinha os medos de mudar.
Tinha as forças que o enrijeciam e
Que não lhe permitiam ser flexível.
Tinha os obstáculos da travessia da sua vida.
No momento em que ele se desfez do grande peso que era a barrica, ele mudou e se tornou outro Sr. Galdino. Ele RESNASCEU .
Então o rio fez uma pausa, como que aguardando uma pergunta minha. Timidamente perguntei:
– O que mais tinha na barrica?
Ele disse pausadamente:
Tinha o raciocínio lógico do Sr Galdino!
Abri a boca, pasmado, e repeti:
-O raciocínio lógico do Sr Galdino?
Explica isso, por favor:
O raciocínio lógico a que me refiro é aquele diálogo interno que estava sempre justificando a necessidade de carregar a barrica com toda aquela tralha. Estava sempre provando por A mais B que os obstáculos existiam mesmo.
Que os medos se justificavam, que ele estava certo e os outros errados, ou vice-versa. Que ele não estava se comportando como devia para seu bem-estar, ou então eram os outros.
Que ele tinha que agüentar, que a vida é uma luta contínua, que o mundo não estava dando a ele as oportunidades que ele merecia, que os culpados de tudo ou quase tudo eram os governos ,seus pais, etc.
Se você olhar agora para mim, você verá o Sr. Galdino sentado calmamente no pequeno barco , pescando , sem a necessidade de fazer a travessia. Ele não tem mais que chegar lá. De fato não há travessia a ser feita. Ele já tem todos os recursos aqui.
Nesse ponto o ônibus passou rápido demais por um quebra molas e
O ônibus balançou
A magia se acabou
O rio se calou
Por ter um novo amigo
E por ter mais opções
E meus olhos umedeceram de alegria

José Augusto Sathler
CIDADE ONLINE
16/10/2014

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