O projeto de purificação de Donald Trump

Uma pausa para nossas aflições. Quanto mais bizarras as propostas de Donald Trump mais popular se torna e mesmo que Hillary Clinton vença não se pode desconsiderá-las. Um mês atrás Hillary liderava com 55% dos votos válidos contra 39% para Donald Trump. Em 19/08, logo após a divulgação de um documento de 1.900 palavras esclarecendo sua posição quanto aos imigrantes ilegais a diferença caiu para 51% (Hilary) versus 46% (Trump).

Para o mundo o projeto de Trump parece bizarro, mas para metade dos norte-americanos é o que deve ser feito, o que tornaria o ambiente para qualquer estrangeiro significativamente hostil.

Donald Trump entrou na campanha para a presidência dos Estados Unidos em 16/06 e, de saída, declarou que o México estava mandando estupradores, ladrões e traficantes de drogas num ritmo crescente. Era preciso por um fim a isso. No dia seguinte liderava na lista de 17 candidatos do Partido Republicano. Continua liderando.

O projeto de Trump é uma tentativa de purificação da população norte-americana e metade dela concorda. Teria três etapas.

1) Construção de uma parede ao longo da fronteira entre o México e os Estados Unidos. O México seria obrigado a pagar o custo. A parede, obviamente, impediria a entrada ilegal nos Estados Unidos, por terra, mas Trump não discute o que fazer no caso de entradas cruzando a fronteira com o Canadá nem as entradas pelo ar ou em navios, como turistas. Estes, possivelmente, cairiam na etapa 3.

2) O chamado “birthright citizenship” (direito à cidadania norte-americana aos nascidos em solo norte-americano) seria extinto. Nesse caso, o filho(a) de um casal de imigrantes legais não teria direito à cidadania norte-americana. O filho de um casal, um deles não-americano, também não teria esse direito. Seria concedido através o processo de naturalização.

3) Os atuais 11,3 milhões de imigrantes ilegais seriam deportados para seus países de origem. O custo estimado está entre 400 e 600 bilhões de dólares e levaria 20 anos para ser concluído.

Seria válido especular a necesidade de “campos de retenção” para imigrantes ilegais aguardando deportação.

A ideia não é nova. Em 2010 foi estimado que custariam 12,5 mil dólares para deportar um imigrante, incluindo prisão, retenção, processamento e transporte. Usando 15 mil dólares o projeto de Trump custaria cerca de 170 milhões ao longo de 20 anos. Baratíssimo para os Estados Unidos. O custo de manter um imigrante ilegal era 25 mil dólares. (Os alemães optaram por matar os judeus, ciganos, etc.).   

Donald Trump ainda não esclareceu se seu projeto seria retroativo. Não seria exagero supor que ultrapasse Hillary se o for para casos específicos, como os filhos de imigrantes ilegais, nascidos em território norte-americano: perderiam a cidadania e seriam deportados.

O mundo imaginava que seria impossível o surgimento de um segundo Hitler, mas tudo é possível. O impossível demora mais.
Ernesto Lindgren
CIDADE ONLINE
19/08/2015

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