O piscinão de Búzios

esgotojorrandomanguinhos

Passei por Armação de Búzios algumas vezes, mas a primeira vez em que pousei na cidade foi nos anos de 1980. Eu estava muito estressado com o ativismo ambiental. Então, meu irmão me levou para passar uma semana na casa que alugou por um ano numa das praias de Búzios. Não lembro mais de qual delas. Lembro que meu irmão me emprestou seu equipamento de mergulho e me sugeriu apreciar as belezas do fundo da praia.

Coloquei máscara, pés de pato e respirador. Vi fundo, pedras, algas e peixes. De fato, tudo muito encantador. Mas voltei logo à tona e perguntei se ele teria um saco e uma corda. Prontamente, ele me cedeu o que eu pedira e esperou para ver o que eu iria fazer. Voltei a mergulhar várias vezes. No final, pedi sua ajuda para arrastar o saco. Ele estava cheio de plásticos, garrafas, objetos de metal, sandálias etc. Sua exclamação foi sintomática: “nem nesse paraíso, você esquece que é ecologista!” O paraíso começava a se desencantar.

Daí em diante, voltei muitas vezes à Búzios, principalmente para estudar as relações das sociedades humanas com os manguezais, mas também notei logo, caminhando pelas praias da enseada, e não pelas charmosas ruas, vários escoamentos de esgoto para as praias. O que mais me chamou a atenção foi o de Manguinhos, que, bem mais tarde, conheci melhor. Do foz do Rio Una até Barrinha, encontrei vários. O próprio Rio Una recolhe esgoto de alguns municípios da Região dos Lagos e o carreia para o mar. Pensou-se mesmo em usar o rio como coletor de esgoto para desviá-lo da Lagoa de Araruama e criar uma wetland que, na verdade, seria uma lagoa de esgoto.

esgotojorrandomanguinhosEsgoto jorra na praia de Manguinhos Canal da Malhada recebe efluentes da ETE de BúziosCanal da Malhada recebe efluentes da ETE de Búzios
ESGOTObUZIOSEsgoto corre a céu aberto em diversos pontos da cidade DESPEJODEESGOTOINNATURABUZIOSE chega ao mar sem tratamento

Do Una em direção ao centro da cidade, o antigo Rio do Trapiche foi alargado e canalizado para a construção da marina de Búzios. No ponto final da marina, junto à estrada, o esgoto escorre pelas águas do antigo riacho e chega ao mar. Mais adiante, encontra-se o Córrego de Manguinhos, todo cercado de casas, mas ainda com grande árvores de mangue branco em suas margens, mostrando que houve, ali, um manguezal expressivo.

Já dentro da cidade, um pequeno curso d’água foi utilizado para lançamento de esgoto. A ideia original parece ter sido canalizar e esconder o córrego sob o solo. Como um manguezal significativo se desenvolveu nele, creio que o projeto de enterrar o riacho foi modificado. Hoje, existe o leito exposto, com as árvores de mangue sendo aproveitadas por um restaurante, e outra parte oculta.

Em ambas, corre esgoto. O agravante no riacho foi seu barramento na barra para que a água doce fique represada. Assim, o esgoto também fica retido. Para renovação, bombeia-se água salgada para o interior do curso. Assim, ele fica muito salinizado, pois o sistema não mais funciona normalmente.

RIOUNAESGOTOBUZIOSRio Una recebe grande volume de esgoto PRAIADAGORDAque chega in natura na praias de Búzios

Vários outros pontos de lançamento de esgoto no mar existem em Búzios. Mas o que aconteceu com a cidade? Ela cresceu num promontório onde existem partes altas e baixas. Nas baixas, ainda existem lagoas que acumulam água da chuva principalmente. A urbanização processou-se de forma descontrolada. Hoje, a produção de esgoto e de lixo é muito grande. A empresa de saneamento não cuida devidamente da coleta de esgoto e de seu tratamento em nível terciário. Assim, o esgoto se acumula nessas lagoas interiores e, delas, toma canais que chegam ao mar.

Búzios está perdendo seu encanto. A natureza que fascinou os europeus está sendo destruída e contaminada. O protesto da população por saneamento é mais do que correto. Afinal, Búzios não é um piscinão para acumular esgoto e lançá-lo no mar.

Arthur Soffiati é historiador ambiental e pesquisador do Núcleo de Estudos Socioambientais da UFF/Campos

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