O papel timbrado foi forjado ou furtado?

Quatro e-mails relacionados a uma suposta associação entre o ministro Dias Toffoli, do STF, e Léo Pinheiro, ex-presidente da empreiteira OAS, foram reproduzidos em uma folha que parece idêntica a uma de papel timbrado da PGR. A folha foi reproduzida pela revista VEJA na edição de 24/08/2016.

Como o ministro nega ter ou ter tido relação com o empreiteiro, e Rodrigo Janot (PGR) nega existir um anexo onde o ministro teria sido citado numa delação que Léo estaria negociando, a reprodução que aparece na revista seria de um documento forjado?

Se o anexo não existe, segue-se que:
1) Alguém, perito em computação gráfica, forjou várias folhas timbradas do MPF onde membros do órgão digitam cartas, memorandos, os termos de delações e seus anexos;
2) invadiu os computadores dos quatro personagens citados na matéria: Léo Pinheiro, Benito Gonçalves e dois assessores do empreiteiro. Deles copiou os quatro e-mails que aparecem na matéria da revista. Sabia o que estava procurando;
3) tendo conhecimento da reforma feita na casa do ministro copiou aqueles que sugerem uma proximidade entre o ministro e o empreiteiro;
4) redigiu o que seria um anexo à delação de Léo Pinheiro, colando em uma ou mais folhas forjadas as cópias dos e-mails;
5) imprimiu o texto nas folhas timbradas que forjou, fez cópia do texto, que fez chegar à revista VEJA.

Pronto. Estava completa a farsa que induziu a revista a afirmar ter tido acesso a um documento do qual só o MPF tinha conhecimento. Nesse documento consta uma conversa entre o ministro e o empreiteiro tratando de problemas na casa do ministro. A partir daí, por inciativa própria, ou a convite do ministro, o empreiteiro teria tomado as providências para que o problema fosse resolvido.

O ministro nega que a conversa aconteceu, mas sendo notório que uma ampla reforma foi feita na sua casa, com a participação da OAS, o ministro afirma que pagou todas despesas. Portanto, não obteve favores da empreiteira.

Com a suspenção das tratativas entre o empreiteiro e o MPF, que afirma peremptoriamente que o anexo sequer existe, e não tendo o ministro se disposto a prestar qualquer esclarecimento como, por exemplo, a) o nome da empresa que realizou a reforma; b) o nome da arquiteta responsável pelo projeto; c) a confirmação de que Mário Augusto Fernandes foi o engenheiro responsável pela supervisão da obra, que nada cobrou pelo serviço, uma vez que o ministro é seu conterrâneo de Marília (SP), mas não sabia que a casa era do ministro; d) uma explicação da relação entre Mário Augusto, o advogado Carlos Ribeiro e sua mulher, que foi a arquiteta do projeto; e) solicitar que Carlos Ribeiro tente se lembrar de como tomou conhecimento da obra, do que se seguiu a indicação da sua mulher, a arquiteta, que, a seguir convidou o engenheiro Mário Augusto para supervisionar a obra.

Como Carlos Ribeiro afirma não conhecer o ministro seria interessante juntar todas as pessoas envolvidas no que se tornou numa charada e entender de que modo Léo Pinheiro, Dias Toffoli, Mario Augusto Fernandes, Carlos Ribeiro e sua mulher, vieram a gravitar em torno de um evento corriqueiro – a reforma de uma casa – uns se conhecendo e outros não. Isso, porém, provavelmente não acontecerá e a charada não será esclarecida, o que parece ser danoso, a não ser que a revista VEJA revele a sua fonte ou o PGR consiga identificar o autor do anexo que, segundo ele, é falso.

O problema nesse imbróglio é que se a delação prosseguir e for aprovada, tornar-se-á um documento público. E, se o contestado anexo existir, também, o que seria bastante embaraçoso para todos os envolvidos.

Criou-se um ambiente desagradável na Operação Lava Jato. Léo Pinheiro, que vinha fazendo delações que eram confirmadas e tornadas públicas, calou-se perante o juiz Sérgio Moro quando foi depor nesta data, 24/08/2016. 

Ernesto Lindgren
CIDADE ONLINE
24/08/2016

COMPARTILHAR