O manguezal sob a lente de câmeras fotográficas

Não é de hoje que os fotógrafos se voltam para o manguezal. Desde a segunda metade do século XIX, eles fotografaram esse ecossistema. A mais antiga foto que conheço data de 1858. Ela foi tirada pelo fotógrafo alemão Augusto Stahl num manguezal próximo a Recife. Além de João Cabral de Melo Neto, Recife tem esse outro trunfo. Desconheço fotos anteriores a essa data. Nos primórdios do século XIX, não existia ainda a fotografia. Por essa razão, os naturalistas aprendiam a desenhar e a pintar.

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Não estou aqui falando de fotos de cientistas, mas de artistas. Poucos tiveram interesse pelo manguezal por conta de sua reputação: sujo, fétido e insalubre. Além do mais, não era um tipo de vegetação considerada bonita para desenho, pintura, fotografia e cinema.

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Os fotógrafos dos séculos XIX e XX fugiam dos manguezais movidos pelas mesmas razões que as demais pessoas. Daí minha estranheza em deparar, no arquivo do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, com uma foto de um manguezal já rarefeito pelo corte de árvores, sem nenhuma indicação de autor, data e lugar. Numa exposição de fotógrafos alemães que viveram no Brasil, ela figurou como sendo de autoria de Augusto Stahl, tomada nas cercanias de Recife, em 1858.

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Dando um salto no tempo, registro o trabalho de Paullo Lobato, que ilustrou poemas de Valdemar Vergara Filho com fotos. O interesse maior volta-se para o ser humano que vive dos manguezais. Gosto de pessoas lambuzadas pela lama, contudo meu interesse pelo manguezal sem pessoas é inegável. André Alves também escreveu um excelente livro unindo antropologia e fotografia.Ressalto ainda o trabalho do fotojornalista Egberto Nogueira, que dedicou uma exposição aos manguezais e àqueles que dele vivem.

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Registrei esses quatro autores no meu livro “O manguezal na história e na cultura do Brasil”, de 2006. Na época, não tomei conhecimento de Maureen Bisiliat, fotógrafa britânica que se fixou no Brasil e ilustrou com suas fotos obras de vários autores brasileiros, entre eles João Cabral de Melo Neto. Ela escolheu “O cão sem plumas”, de 1950, que acaba de merecer montagem coreográfica de Deborah Colker que já comentei no artigo “Bailarinos Enlameados no Capibaribe . 

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Os créditos do livro são: “O cão sem plumas”. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984. Todos os poemas do livro figuram nessa edição, ilustrados por Bisiliat. O enfoque dela é o mesmo do poeta: forte humanismo. Nada contra. A questão ambiental ainda não havia alcançado o patamar atual. Assim, nas fotos de Bisiliat, o manguezal nunca é fotografado pelo seu valor intrínseco. O homem sempre está presente. Recife passou a ser a capital do manguezal associado à pobreza. De todos os manguezais do Brasil, é o que mais mereceu atenção das artes. João Cabral e Josué de Castro escreveram sobre ele em poesia e prosa. Maureen Bisiliat registrou-o em fotos artísticas e o movimento Manguebeat o cantou em suas melodias.

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Leituras
ALVES, André. Os argonautas do mangue: uma etnografia visual dos caranguejeiros do município de Vitória – ES. Campinas: Unicamp, 1999 (Dissertação de mestrado).
LOBATO Paullo e VERGARA FILHO, Waldemar Londres. Movimento da Maré. Brasília: Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis, s/d.
MELO NETO E BISILIAT, Maureen. O cão sem pluma. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.
SOFFIATI, Arthur. O manguezal na história e na cultura do Brasil. Campos dos Goytacazes: Faculdade de Direito de Campos, 2006.
VASQUEZ, Pedro Karp. Fotógrafos Alemães no Brasil do Século XIX. São Paulo: Metalivros, 2000.

Arthur Soffiati é historiador e pesquisador ambiental

 

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