O Manguezal e a Cultura

Comparado à Mata Atlântica e à Amazônia, o Manguezal tem inspirado muito pouco as artes. A produção contemporânea costuma assumir um caráter de denúncia.

1- Poesia
Na poesia ao gosto popular, a maior contribuição cabe a Waldemar Londres Vergara Filho. Criado na literatura de cordel, ele compõe incessantemente trabalhos que podem ser classificados de romances, ou seja, cantos poéticos narrativos, bem diversos da outra vertente da poesia popular nordestina, o desafio. Em vários cadernos, ele tem dedicado versos aos manguezais de todo o Brasil. Outros autores são José Carlos Oliveira e Roquelina Souza Almeida.
Na poesia chamada culta, o manguezal raramente aparece como pano de fundo. Joaquim Cardozo fala eventualmente nele. Na poesia de Joaquim Cardozo, as raras aparições do manguezal são envolvidas pela ternura e pelo lirismo.
Não assim com seu conterrâneo João Cabral de Melo Neto, o poeta que mais dedicou, em sua obra, espaço a este ecossistema, numa visão negativista. Em seus livros, o mangue aparece em sua conotação de ambiente associado à podridão social. Mangue, lama, caranguejo, ostra, pobreza se conjugam para formar um mundo de miséria. A associação entre o manguezal e a pobreza estabeleceu-se em forma de denúncia sem abdicar do rigor estético. A lama do mangue passa a ser vista como lugar de degradação humana, não ficando claro se se trata da lama em seu estado normal ou se já poluída por dejetos de atividades antrópicas.
No final de sua criação poética, no poema “Aventura sem caça ou pesca”, João Cabral faz as pazes com o manguezal, visto agora como reminiscência da infância e sentido com o seu lirismo árido de sempre.
Arthur Soffiati reuniu 25 poemas em O Direito e o Avesso do Mangue. Registre-se também o livro De um Buraco a Outro: do Mangue aos Cosmos, de Flávia Mochel.

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2- Ficção
Raras são as obras de ficção em que o manguezal aparece. Originários do Maranhão, estado que conta com uma das maiores áreas de manguezal do mundo, os escritores Josué Montelo e José Sarney não poderiam evitar este ecossistema em suas obras.
Na linha de João Cabral de Melo Neto, o renomado médico Josué de Castro escreve o romance Homens e Caranguejos. Mangue, de Osório Peixoto Silva, centra-se na questão social. O livro apresenta forte afinidade com o realismo da geração de 30 da literatura brasileira. O manguezal da foz do rio Paraíba do Sul serve apenas como ambiente para sua trama ficcional. Winston Churchill Rangel, em Do Grande Medo: o Tentáculo, ambienta um romance nitidamente político na vila de Gargaú, também na foz do Rio Paraíba do Sul.

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3- Artes visuais
Nas artes visuais, igualmente, o manguezal não tem sido assunto dos artistas. Na expressão popular, ele aparece entre pintores primitivos e ingênuos que, o mais das vezes, vivem neste ambiente. Por suas obras simples e convencionais, não ganham destaque nacional e, portanto, vivem no desconhecimento. No Pará, registrem-se os nomes de Cavalcante e Miguel Lira, concebendo pinturas ao gosto popular com manguezais como motivo. No Piauí, o artista popular Antônio Carlos retratou um manguezal devastado em óleo sobre tela de grandes dimensões.

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O manguezal segundo Miguel Lira, pintor näif do Pará

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Bosque de mangue vermelho com guarás, na visão do pintor näif Cavalcante, do Pará

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Óleo de Antônio Carlos Amorim, pintor näif do Piauí

Na esfera culta, o manguezal foi representado por Guilherme Piso, Gaspar Barléus, Maurício Rugendas, Thomas Ender, Hércule Florence, Benjamin Mary, Magalhães Corrêa e Percy Lau, quase sempre com fins ilustrativos.

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Detalhe de manguezal do Rio Inhomirm, Baía de Guanabara, por João Maurício Rugendas

Na escultura destaca-se o nome de Irineu Ribeiro, com seus caranguejos expressando grande fidelidade a seus modelos. Frans Krajcberg tem sabido aproveitar com grande senso artístico troncos, galhos e outros elementos vegetais, inclusive de árvores de mangue, para realizar suas obras. Mais recentemente, o escultor e fotógrafo Augusto Ferrer, passou a usar o caranguejo como motivo de monumentais esculturas concebidas em materiais diversos, como uma homenagem ao compositor Chico Science.

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Caranguejos de Irineu Ribeiro

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1. Escultura em madeira de mangue de Frans Kracjberg / 2. Escultura monumental de Augusto Ferrer representando pinça de caranguejo

Os fotógrafos dos séculos XIX e XX fugiam dos manguezais movidos pelas mesmas razões que as demais pessoas. Augusto Stahl fotografou um manguezal estropiado nas cercanias de Recife, em 1858. Paullo Lobato dedicou um trabalho à fotografia de arte em manguezais com poemas de Vergara Filho. André Alves escreveu um magnífico livro com a proposta de unir antropologia e fotografia, obtendo excelentes resultados. Já o fotojornalista Egberto Nogueira mostrou, na exposição “Caranguejeros – Um dia no Mangue”, uma série de fotos sobre a vida de catadores adultos e adolescentes de caranguejo no manguezal do rio Parnaíba.

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1. Manguezal perto de Recife. Foto de Augusto Stahl em 1858 / 2. Foto de Egberto Nogueira no manguezal do Rio Parnaíba

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O manguezal na lente de André Alves

No cinema, o manguezal aparece incidentalmente. Está presente em alguns poucos fotogramas de O Descobrimento do Brasil, filme épico de Humberto Mauro, de 1937. Com mais vagar, ele aparece em Como era gostoso meu francês, de Nelson Pereira dos Santos. Em Tieta do Agreste, de Carlos Diegues, o manguezal povoa o filme todo, mas não ainda como assunto principal. Nem mesmo o documentário Terra do Mar, de Mirella Martinelli e Eduardo Caron, de 1997, dedicado à pesca artesanal, olha o manguezal por tempo suficiente. Em Cidade de Deus, de Fernando Meireles, há longas e detalhadas cenas de manguezais.

4- Música popular
Há um grupo na Bahia que se especializou em produzir música popular cujas letras retratam as qualidades e os problemas enfrentados pelos manguezais. Trata-se do “Cantarolama”, com três discos compactos lançados. Também Gilberto Gil gravou “Vendedor de caranguejo”, música e letra de Gordurinha. Vergara Filho e Alcyr Guimarães lançaram um disco compacto com o nome de Magia das Marés, explorando bastante a temática do manguezal.

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Numa nova formação, Carlinhos de Tote e Gegê Caldas saem do Cantarolama e se reúnem a Tatay e Zé Moreira para criar a banda Filhos da Maré. Seu primeiro CD, sempre com Vergara Filho como letrista, intitula-se Sonhos de Meninos, com músicas já gravadas e algumas inéditas. Vergara, unindo-se a Paulo Ró, lança Olhos de Proa, com novas composições versando sobre o manguezal e seus dependentes.

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Cumpre destacar, porém que o mangue inspirou um movimento cultural que começou na música e se espraiou por outras manifestações estéticas. Trata-se do Mangue Beat ou MangueBit, que tem em Chico Science sua expressão mais conhecida. Não sem razão, ele brotou em Recife, como caranguejo que sai da toca, a cidade mais intrinsecamente ligada a este ecossistema, visto ter sido construída sobre ele.

Conheça mais
ALVES, André. Os argonautas do mangue. Campinas: Unicamp/São Paulo: Imprensa Oficial, 2004.
GRUPO CANTAROLAMA. CD PLCD 51154. Brasília: Ibama, s/d.; Festa no Manguezal. CD 13D804051474B08. Brasília: CNPT, Ibama, Pnud, s/d., e Encontro. CD+0800 855252. Caucaia: Ibama/CNPT/Pnud, s/d.
SCIENCE, Chico e NAÇÃO ZUMBI. Da Lama ao Caos. Manaus: Sony Music, 1994; Afrociberdelia. Manaus: Sony Music, 1996; e CSNZ (duplo). Manaus: Sony Music, 1997.
SOFFIATI, Arthur. O Manguezal na História e na Cultura do Brasil. Campos dos Goitacases: Faculdade de Direito de Campos, 2006.
VERGARA FILHO, Waldemar Londres. Manguezal em Cordéis, vols. 1, 2, 3 e 4. Rio de Janeiro: Universidade Estadual do Rio de Janeiro/Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis/Centro Nacional de Desenvolvimento Sustentado das Populações Tradicionais, s/d; Manguezal em Poesia. Belém: Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente/Divisão de Educação Ambiental, s/d.

(15 de Novembro de 2014)

(*) Arthur Soffiati
Articulista, doutor em História Ambiental e pesquisador da UFF/Campos

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