O M O S T E I R O

Ela estava falando sobre amigos comuns. O tema da conversa eram fatos significativos que aconteceram com eles. Alguns eram coisas boas, outros, ruins. Fatos sem explicação de porque tinham acontecido. Ela tentava e tentava entender e explicar, mas o máximo que conseguia era: coisas da vida, destino, sorte para uns, azar para outros, etc.
As noites aqui em Nova Friburgo, e em especial nesta área, são frescas e temos de usar uma roupa leve. Se sentarmos no deck, após algum tempo precisaremos de um agasalho também leve.
O céu estava limpo e estrelado e naquela hora viam-se a Via Láctea, as Três Marias, o planeta Marte, ligeiramente avermelhado, e aquele céu pintado de centenas, de milhares de pontinhos tremeluzentes e, nesse momento especial, vimos uma estrela cadente. Ficamos olhando o céu, mas acho que olhando mais para nosso interior, até que eu disse: Tenho uma teoria que pode explicar em muitos casos, acredito essas coisas da vida.
Quase que imediatamente ela se ergueu e se sentou bem à minha frente. Levantou ligeiramente uma das sobrancelhas, franzindo suavemente a testa. Abriu um pouco mais seus olhos lindos assumindo aquela expressão de vivacidade e interesse, e inclinou o corpo levemente para frente mostrando uma grande expectativa. E eu continuei:
-Cada vez mais e já quase com certeza eu penso que as coisas ditas inanimadas não são totalmente inanimadas. Elas contêm uma energia ou outra coisa que não sei definir, além da energia dela própria por ser matéria, uma energia ou força adquirida do meio ambiente, das pessoas que conviveram com elas, que as usaram ou que as fabricaram.
Ela balançou a cabeça, não que estivesse concordando comigo, mas apenas incentivando-me a continuar, e eu continuei:
-Há muitos anos atrás li em algum livro de misticismo, ou alguém me disse, não sei ao certo, que não se deve comprar coisas usadas, tais como livros, móveis, etc.
Naquela ocasião eu já era um rato de livraria e alguns livros só se encontravam nos sebos. Alguns até todo riscado e marcado de observações do antigo dono.
Continuei comprando livros usados, e às vezes abria o livro, olhava-o desconfiado e pensava com meus botões: será que é verdade mesmo? Que tipo de espírito ou força este livro terá? Mas eram pensamentos rápidos, sem profundidade e eu então esquecia o assunto. Móveis usados eu não comprava mesmo. Até hoje não gosto de comprar moveis usados por este motivo. Sinto uma desconfiança grande, um receio indefinido em relação a moveis usados.
E tem mais, se você comprar objetos usados, deve fazer algum trabalho para livrar os objetos dos espíritos de seus antigos donos. Não me lembro de que tipo de trabalho. (talvez o melhor trabalho seja tacar-lhes fogo!).
Na ocasião eu não dei importância ao fato. Pensei: se você ficar pensando nisso você se sugestiona e aí acontece de acordo com seu pensamento. Mas agora, hoje, estou seriamente inclinado a acreditar nessa força oculta.
Fiz, sem querer, uma pausa prolongada, você sabe, tentando ajustar as idéias na cabeça.
Ela, percebendo o que estava acontecendo, perguntou: Em que você está pensando agora?
-Estou pensando naquele mosteiro dos Maristas,
-Querido, interrompeu-me ela, vamos falar um pouco mais sobre objetos usados? Eu também já li sobre isso. Acho fascinante pensar que objetos usados carregam espíritos.O que acontece é que este assunto é sempre tratado de uma forma supersticiosa, sem profundidade, sem estatísticas, sem uma argumentação clara e comprovada.
-É você tem razão, continuei, este assunto deveria e pode ser tratado de uma forma mais séria!
– Como? Perguntou ela.
Levantei o rosto, direcionei o olhar para um ponto um pouco acima de sua cabeça, trouxe a voz para a garganta e disse pausadamente:
-Primeiramente cada objeto deveria ter obrigatoriamente uma ficha que o acompanhasse, contendo informação de sua origem, de seus antigos donos e o que aconteceu a cada um deles.
Pasma, Michelle conseguia somente abrir a boca. Não conseguiu articular nenhuma palavra.
E eu continuei: – Por exemplo, fala-se sempre de livros e móveis, mas eu penso que os apartamentos e casas são importantíssimos, porque você e sua família vão passar dias e anos naquele ambiente que pode estar carregado de maus espíritos. Cada imóvel, por exemplo, os apartamentos construídos, deveriam ter informação do construtor, dos proprietários, tais como de onde veio a grana para a construção, porque se, para conseguí-lo, houve danos ou malefícios a outros, então aqueles apartamentos poderão causar malefícios aos novos donos, podendo até o edifício desabar.
E em situações de informação duvidosa, deveria haver uma rotina ou um trabalho adequado para anular aquela carga negativa perigosa dos imóveis ou objetos usados.
Aproveitei que ela continuava calada e emendei:
Como hoje em dia se faz pesquisa sobre quase tudo, alguns órgãos do governo, ou das Universidades, pelos seus departamentos de Efeitos Paranormais, deveriam criar projetos sobre isso.
¬¬ ¬-Querido, acho que você esta exagerando!
-Não acho não, porque, por exemplo, se isto for realmente verdade, explicaria uma serie de desgraças que estão acontecendo com tanta gente, pessoas que passam a vida lutando e nadando contra a maré, tudo sem uma explicação. Já pensou na quantidade de pessoas que ficam incapacitadas para o trabalho por doenças psíquicas, ou somáticas e tudo causado por objetos usados?
E tem mais, continuei elevando minha voz, se eu fosse eleito governador, deputado, ou outra posição forte no governo, eu criaria a S.E.G.U. – Secretaria Especial de Governo dos Usados, para estudar e pesquisar este assunto e um de seus objetivos primordiais seria definir e preparar os trabalhos necessários para livrar os usados de sua carga maléfica!
Às gargalhadas ela disse: – E eu que pensei que você estivesse falando sério!
-Querido, vamos voltar ao Mosteiro Marista. Eu o interrompi quando você ia dizer…
-Sim, o MOSTEIRO!
De acordo com o que estamos conversando, os espíritos e ou energia dos usuários, passam para as coisas, objetos, moradias etc.
Assim sendo, um local que durante anos foi habitado por monges e sábios de alta espiritualidade deve ser um local com alta carga de energia positiva e benéfica. Em cada sala, quarto, moveis, paredes, portas, jardins, enfim, em tudo deve haver uma energia positiva e muito forte.
Em cada coisa que você toca, nas maçanetas das portas e janelas, nas torneiras, nas cadeiras, nas roupas de cama, nas toalhas, nos copos, nos talheres, tudo, mas tudo mesmo, até o ar que você respira lá, deve produzir um resultado benéfico que advém dos espíritos e energia daqueles monges e sábios que habitaram a área.
Digo mais, naquele mosteiro existe algo mais a ser observado e analisado. Por que razão você pensa que os sábios Maristas escolheram aquele local?
-Continua, falou Michelle.
-Penso que aquela área tem algum poder, tem uma energia que passa para quem lá estiver. Alguns fatos chamaram minha atenção:

A CAPELA
Lá naquele alto, uma capela toda aberta , pintada de um azul clarinho, sem adornos a não ser uma pequena cruz e com a frente aberta dirigida para o LESTE onde o sol nasce!
Eu subi lá sozinho na tardinha de nossa chegada. Estava chuviscando. Não havia nenhuma razão para sair do prédio, devido ao mau tempo. Não sei mesmo porque eu fui lá em cima. Mas lembro-me de que foi naquele momento na capela que comecei a sentir alguma coisa diferente, difícil de explicar, talvez um estado de tranqüilidade, um estado em que você perde a curiosidade, mas sem entrar em apatia, ao contrário, um estado de grande interesse em tudo, um estado de certeza, um estado muito bom.
Na subida para a capela eu passei por uma mangueira carregada de frutas e fiquei parado olhando-a com aquela enorme quantidade de frutas fáceis de apanhar, bem disponíveis, algumas que pelo colorido da casca já estavam quase maduras e eu pensei comigo mesmo “esse mosteiro tem muitas frutas!”
Olhei ao redor da mangueira e vi algumas mangas maduras no chão. Peguei algumas. Lembro-me de ter lido no livro a “Índia Sagrada”, que se você vai visitar um mestre é hábito levar frutas.
O segundo fato que me chamou a atenção foi:

AS TRILHAS
São trilhas largas que suportam um carro e que cortam as matas, ligando as pequenas áreas também construídas no meio da mata. Você caminha sozinho ou em grupos naquele ambiente de altas árvores quase que escondido. Você caminha em silêncio ouvindo a natureza, sentindo tudo que está ali para você.
Não sei por que, quando penso naquelas trilhas no meio da mata, penso que lá a natureza tem algo mais a oferecer.
O terceiro fato foi:
O CAMPO DE FUTEBOL
Um lugar muito belo e muito místico. Cercado de morros cobertos de matas com altas árvores, totalmente protegido de qualquer visão exterior , a não ser do alto, do céu.Como disse, é um lugar que faz você voltar para dentro de si. Da próxima vez que eu voltar lá, vou deitar bem no meio do campo e fazer uma meditação prolongada. Vou levar uma manta para deitar ,para não ser incomodado por formigas!
Será que os monges gostavam tanto assim de futebol?
Outro fato: Durante o passeio do ritual do Xamã havia aquele pé de alamanda carregado de lindas flores lilases, todas viradas para o lado da luz, e você parado na frente delas, fechava os olhos por alguns minutos e em seguida olhava as flores, abria bem os braços e todas elas se balançavam como que lhe saudando e sorrindo para você.
Uma parte do ritual era caminhar pela praca ao redor da capela, abraçando as árvores como automóveis carregando o tanque de “combustível”. Algum de nós subiu em galhos altos e ficaram lá abraçados ao galho sugando uma seiva espiritual. Seriam, naquele momento, árvores humanas?
Ao ouvir isto Michele quase que deu um salto!
E tem mais: Na primeira noite alguns não conseguiram dormir. Alegaram que foi o calor, o colchão, etc, mas eu penso que eram os espíritos dos sábios clérigos fazendo um trabalho de arrumação de casa preparando-nos para o que viria a seguir. .
Houve também gente que lá pelo final do curso, ficou um tempo enorme de pé no pátio central com a testa apoiada num esteio, provavelmente buscando um apoio para as mudanças que estavam acontecendo e também para descarregar as correntes inconvenientes, usando o esteio como fio terra.
Algumas pessoas e que eram sisudas e eram por demais sérias lá pelo segundo dia, começaram a mudar e ao final do seminário mais pareciam crianças alegres e brincalhonas.
A energia era tanta que trabalhávamos até às 23:30 horas e ainda ficávamos conversando até às vezes 1:30 da manhã e no dia seguinte às 9:00 era só entrar naquela sala de aula mágica e pronto, estávamos novos.
Aquela sala mais parecia uma unidade cósmica, com 17 partículas de energia vibrando! E o que acontecia com uma, acontecia com todas as outras.
Até hoje fico pensando na energia mostrada pelo mestre Jairo: 10 dias praticamente de pé o dia todo, dando aquelas aulas maravilhosas, supervisionando, acompanhando os trabalhos e no final ainda estava aceso para as ultimas conversas da madrugada. Nunca demonstrou o mínimo cansaço.
E já ia me esquecendo do Cemitério.O Campo Santo na colina, lindo com aquelas dezenas de cruzes brancas, não é um local para tristezas. Fiquei alguns minutos olhando e andando e ia embora quando senti um impulso para voltar e ficar um pouco mais. Quando desci a ladeira de volta tive a sensação de que não estava pisando no chão. Daquele local deve fluir uma forte energia e uma grande espiritualidade que se espalha em todas as direções.
Michelle olhava-me pasmada, provavelmente pensando “que imaginação fértil” Não se conteve e disse: – Tudo isso parece tão irreal. Você já parou para pensar na realidade desses fatos?
Fechei os olhos, inclinei levemente a cabeça e respondi: Os mestres dizem, todos dizem, enfatizei que o primeiro passo para a sabedoria é o conhecimento de que a realidade externa não existe, só existe a realidade interna.
O segundo passo é que a realidade interna também não existe. Como pode existir uma realidade interna de uma realidade externa que não existe?
É por isso que a meditação conduz à iluminação!
O terceiro passo é…
Michelle interrompeu-me e disse amorosamente, – “Meu sábio”: vamos voltar ao Mosteiro?
Meio derretido continuei:
-Por que você acha que eles construíram o mosteiro naquela área e POR QUE você acha que eles se mudaram de lá?
Michelle balançou a cabeça indicando não ter a menor idéia.
Eu também não sei a resposta a essas perguntas, mas imediatamente veio à minha cabeça a próxima pergunta:
Por que você acha que o mestre escolheu aquele local para os workshops? Ele certamente dirá uma série de argumentos favoráveis, mas que serviriam perfeitamente para outros locais.
Michelle, parecendo um pouco confusa perguntou: – Existe alguma outra razão especial para você estar abordando este assunto?
-Bem, já que você perguntou, vou dizer, mas não vou dizer agora. Já são três horas da manhã. Vamos dormir e outro dia eu conto o resto.
No dia seguinte não pudemos conversar. Eu estava “atolado” com coisas urgentes e Michele também teve de resolver assuntos no Rio.
A seguir viajei para Minas Gerais para visitar minha mãe onde fiquei cerca de uma semana. Na volta lembrei-me novamente do Mosteiro.
Eram 08h10min da manhã e estive meditando desde as 07h15min. Logo que termino a meditação eu costumo ficar mais uns 10 minutos deitado sem travesseiro, como se fosse uma continuação, ou melhor, uma transição para um estado alerta e energético, uma preparação para ir para a estrada fazer o jogging.
Nesse dia, porém, fui direto para a mesa e comecei a escrever: O MOSTEIRO
ATÉ MAIS

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