O G R A U DE I N C E R T E Z A

Existe a certeza e a incerteza. Em todas as culturas existem estas duas palavras. O dicionário também as define bem. Mas o que importa não é a existência delas, mas como o cérebro de cada ser trabalha com o que seja a incerteza e a certeza, e que tem um significado muito forte na qualidade de vida dele.
Alguns sentem que a vida é cheia de incertezas. Outros, poucos, já acham que a vida quase que só tem certezas, e esse achar, não é um discurso, não são palavras, mas sim como eles sentem e se comportam.
A incerteza é inerente à vida e isto quer dizer que o cérebro sabe que para se obter qualquer resultado é necessário aprender, analisar, e escolher os passos a seguir. Ele sabe que não existe garantia de se obter o resultado correto ou certo, muito menos perfeito.
O que vamos ver a seguir é como isso tem o poder de desenrolar o tapete onde caminhamos e vivemos.
Ele parou em frente de um saguaro e ficou olhando um ninho de um tipo de pombinha num buraco a quase quatro metros de altura. Era um saguaro tão velho que possuía três galhos eretos com alguns buracos menores. Ao redor havia outros, mas aquele era o maior de todos. Naquele ambiente desértico só havia eles de plantas, além do chão seco e alguns outros insetos e muitos escorpiões.
Napoleon nasceu e cresceu naquele ambiente e se tornara um Xamã. Seu pai era e também seu avô. Era conhecido como Napoleon de Las Barrancas Suaves Del Riacho Luna Seca.
Ele morava às margens de um riacho onde a água só corria uma pequena parte do ano e assim durante quase todo o ano não se via o reflexo da lua, d’ai o povo passou a chamá-lo de riacho luna seca.
Depois de algum tempo olhando a pombinha entrar e sair do ninho, ele falou,
-Aqui nesse ambiente com poucas distrações você fica tentado a pensar e refletir sobre a vida.
Aparentemente é um local onde há pouca vida, de fato pouca vida visível, mas, onde a vista não chega há muita vida, e tão diferentes do padrão que estamos acostumados, que imediatamente surge a pergunta, o que é a vida?
Semanas, meses se passaram, e numa outra ocasião, caminhando naquele mesmo deserto ele parou e ficou olhando dois escorpiões numa luta de morte e como se fosse naquele dia ele continuou,
-A resposta varia conforme a percepção de cada um do que está ocorrendo internamente no cérebro e do que está acontecendo externamente, seja pertinho ao lado, ou sejam as notícias da mídia.
A percepção está de acordo com a idade de cada um e assim uma criança interage com a vida de acordo com suas experiências até aquele momento e um jovem igualmente, mas ambos são impulsionados para conhecer mais da vida, para novas experiências por forças invisíveis no cérebro que variam conforme o tempo vai passando e a idade vai aumentando.
Semanas e meses se passaram e novamente caminhando naquele deserto que agora já não era o mesmo, porque a estação era outra e havia muita vida visível, ele parou observando uma vespa arrastando uma enorme aranha para a sua toca, e falou como uma continuação,
Isto parece difícil de perceber em sua profundidade. O que se vê nas aparências são as crianças , os jovens, os adultos, os idosos se comportando de forma tão variada e às vezes assustadoras que pode surgir uma incompreensão. Mas, o que todos estão fazendo chama-se “interagir com a vida” e essa interação segue regras construídas pela própria vida. Toda vez que você olha algo do seu ambiente, olha, sente, cheira, prova, escuta ( sinais dos cinco sentidos), uma comunicação ocorre em seu cérebro.
Essa comunicação tem duas partes, sendo que a única importante são as sensações, as emoções que você pode sentir, pode ser um eu gosto ou não gosto, ou um desprazer, ou um interesse, ou desinteresse, ou um desanimo, ou motivação, etc. As possibilidades são muitas e se encaixam em qualquer uma das emoções possíveis, tanto boas como as ruins como o medo e a tristeza.
Sentir o meio ambiente inclui também sentir o seu interior,pois todos nós temos também um meio ambiente dentro do cérebro que é talvez muito mais percebido do que o exterior.
-Quando você vê alguém, você cria essa comunicação interna de acordo com experiências anteriores. Quando você olha algo, qualquer coisa animada ou não, como uma mesa, uma casa, uma planta, ou esse velho saguaro, você cria sensações e ideias, mas sempre de acordo com suas vivências anteriores. Quando você vê aquele escorpião ali procurando algo, sua imaginação rapidamente gera possibilidades ou possíveis resultados, todos conectados por alguma lógica de acordo com seus conhecimentos e ou experiências.
Nossa imaginação está sempre criando resultados futuros, criando possibilidades, que podem gerar ações ou inações, isto é comportamentos para produzir de fato o resultado ou para evitar, se for ruim, ou para não fazer nada se ele não desperta interesse.
A comunicação gerada por um dos cinco órgãos dos sentidos, vai produzir sensações e emoções que incitam a imaginação a criar imagens e filmes de possível resultados futuros carregados com a emoções. Lembranças são também geradas pelos sentidos internos, podem ser visuais, olfativas, etc. e despertam comunicações internas, e muitas vezes são repetições tanto de resultados bons ou ruins.
Se a comunicação for gerada pelo aroma de uma comida, a emoção que acompanha, poderá se boa ou ruim de acordo com a experiência anterior em relação a essa comida. Se for muito boa, a imaginação vai gerar uma ação virtual, isto é, um filme com você saboreando a comida com a emoção do prazer e certamente sua boca vai salivar. Essa experiência é facilmente repetida quando você imagina um limão sendo espremido.
Experiências desse tipo são conhecidas de todos, bastando pensar(criar imagens) de qualquer coisa ou pessoa. Estamos fazendo isso o tempo todo, e essa é a maneira de como interagimos com a vida, de como vivemos.
Isto é tão automático que não tomamos consciência do processo de comunicação que está acontecendo a todo momento, e por isso não nos perguntamos, porque é assim?
Qualquer ser vivo está em constante comunicação com o meio ambiente externo ou interno e gerando possibilidades ou resultados futuros que poderão acontecer se houver alguma ação, isto é, se o ser se sentir motivado pelo resultado prazeroso, ou então gerar ações para evitar que aconteça se for um resultado desastroso.
O cérebro da criança está altamente curioso para novas experiências prazerosas, para conhecer o meio onde vive. O cérebro do adolescente também, mas agora existe um fator novo que é se tornar independente, ele está quase se tornando um adulto e tem de se preparar para tal.
Para cada fase da vida existe uma motivação mais forte, isto quer dizer que a comunicação interna será orientada para produzir possíveis resultados de acordo com as motivações da fase da vida do indivíduo.
Esta variação é fácil de ser percebida quando se olha a vida das crianças, dos adolescentes, do adulto jovem, do adulto maduro, dos aposentados e dos idosos.
A geração de possíveis resultados varia de quantidade e de intensidade não só pelas experiências passadas, mas também de acordo com o DNA, como não podia deixar de ser.
Nesse dia estávamos almoçando num restaurante mexicano na Av El Camino Real, na altura da Av El Embarcadero em Palo Alto, Califórnia. Depois de tanto tempo, ele às vezes repetia um pouco, como uma introdução. Nosso almoço durou cerca de seis horas, não porque comemos muito, mas porque ele falava sem parar.
A imaginação vai construir possíveis resultados futuros sob a forma de imagens e filmes com um conteúdo de formas e tecnologias e um conteúdo emocional, assim como são os sonhos. Este processo não é inconsciente, mas é automático. A pessoa, se quiser, pode usar a consciência e saber de que maneira está construindo suas imagens ou filmes.
Um jovem filho de um astronauta vai imaginar filmes com novas tecnologias, diferente de um jovem criado no campo, filho de um agricultor. Mas o conteúdo emocional será do mesmo tipo. As emoções são as mesmas sempre em qualquer ambiente e com qualquer forma e tecnologia.
Tanto no deserto como num centro urbano, os ambientes externos são diferentes, mas o conteúdo emocional das criações da imaginação são os mesmos, variando apenas de intensidade de acordo com as experiências anteriores e pelo que está acontecendo naquele momento.
Nesse ponto, o Xamã fez uma pausa prolongada
Não me lembro de quanto durou essa pausa. Olhando para traz, tenho a impressão de que foram vários anos. Uma enorme mancha branca invadia seus cabelos e ele já não comia mais tanta pimenta. E ele continuou,
-Existe um fator comum a todos nós, muito poderoso que determina como as ações serão geradas.
Esse fator foi desenvolvido pela vida durante o processo da evolução. Desde o inicio, com os primeiros seres, que foi criada a sensação de que os resultados possíveis podem não dar certo, isto é podem ser desastrosos. Podem dar certo ou não. O bom nome para isso é “incerteza”, e essa incerteza pode variar de um cérebro para outro, gerando o que podemos chamar de “grau de incerteza”. Cada indivíduo gera um grau de incerteza próprio.
Acontece que esse grau de incerteza é o responsável pela geração da emoção conhecida como ansiedade. Algumas tarefas simples e rotineiras podem não ter grau de incerteza, mas isso é muito pessoal.
A importância do possível resultado futuro vai determinar o grau de incerteza e, portanto o grau da ansiedade. Ser reprovado no exame para motorista pode gerar um tremendo grau de incerteza, uma enorme ansiedade quase chegando ao pânico, e um estresse de dar dor de barriga, aumentar a pressão, e tirar o sono. Tudo isso ocorrendo com o possível resultado futuro gerado pela imaginação.
Experiências anteriores desde quando se é um bebê, e passando pelos cinco aninhos, tem uma grande influência nesse comportamento.
A evolução nos criou para viver, para sobreviver, mas viver bem. Não nos criou para nascer e morrer logo, nem nos criou para sofrer, mas para sermos felizes e é por isso que existe a emoção chamada de felicidade.
Para garantir o mais possível um bom resultado de nossas ações, ela nos dotou com o maravilhoso mecanismo da imaginação, para criar os possíveis resultados futuros e permitir uma análise dos riscos e ameaças e assim diminuir muito o grau da incerteza. E toda essa imaginação vem acompanhada das emoções, sem as quais não seria possível saber se será bom ou ruim.
As emoções são a força que faz o sujeito agir. Não havendo a certeza de que os resultados serão conseguidos, foi anexada ao processo a emoção ansiedade, que tem como objetivo fazer o indivíduo se concentrar em produzir ações corretas. A ansiedade gera um desconforto que faz o ser se movimentar.
Mas não satisfeita com esse recurso, a evolução criou também outra emoção, o sentimento de culpa que surge quando o resultado bom não é obtido. Ele também produz um desconforto que faz o indivíduo analisar as falhas das ações executadas e garantir que dará certo da próxima vez. Acontece que a simulação construída pela imaginação pode ser tão real como estivesse mesmo acontecendo, que o sentimento de culpa também surge quando o resultado é ruim. O prazer também acontece quando o resultado simulado é bom.
Parece tudo perfeito, mas existe um problema com o grau de incerteza quando ele se torna tão grande que ele passa a ser a certeza de que o resultado vai dar errado. Quando isso acontece, o possível resultado futuro se torna uma certeza de que será ruim. Pessoas assim são os chamados pessimistas de carteirinha. Nesses casos o grau de ansiedade aumenta muito, demais, e também o sentimento de culpa e se essa situação acontece com freqüência a pessoa vai viver num inferno, com um estresse constante e altamente prejudicial à saúde. A pessoa cria uma realidade das simulações que seu cérebro estlá construindo e vive com essa realidade virtual como se fosse real.
Resultados ruins ou não desejados tem muito a ver com os critérios que o individuo usa para analisar e julgar, e acontece com frequência a chamada busca da perfeição, quando nenhum resultado satisfaz. Assim um grau de insatisfação também foi incorporado nesse processo pela evolução. Seu objetivo muito nobre é fazer com que os resultados sejam sempre os melhores possíveis.
Para alguns chamados de otimistas, cuja mente acredita na certeza de bons resultados a vida flui bem, com momentos bons e alguns maus, para outros chamados de pessimistas a vida será mais uma luta do que um prazer.
Naquela noite decidimos dormir no deserto. Acendemos uma boa fogueira para aquecer e espantar as ameaças. A paz interior aparece quando as ameaças são eliminadas.
No dia seguinte logo que começou a clarear, ficamos de pé aguardando e olhando com grande prazer o amanhecer, juntamente com os centenas de saguaros parecendo gigantes se dobrando fazendo reverencias ao deus Sol que estava prestes a aparecer, e eu estava num veiculo especial que flutuava acima do solo. Ao meu lado estava sentado um outro eu sorridente e eu perguntei a ele, qual é o rumo Capitão?
Acordei e escutei o Xamã falar quase sussurrando, as forças que determinam nossas ações e nossa qualidade de vida são as emoções, a imaginação, e a consciência. As emoções comandam nossas ações e a intensidade delas, a imaginação gera os resultados futuros e o rumo, e a consciência está sempre verificando se estamos seguindo o rumo certo.
Mas elas não atuam separadamente. As emoções interferem na imaginação, e esta também modifica as emoções, e a consciência está alerta a todo momento para evitar um desastre. Este é o projeto da natureza, mas nem sempre acontece desse jeito. Mas assim é a vida
Olhamo-nos com um sorriso e eu pensei com os meus botões, qual é o rumo Capitão?

21/09/2017

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