O futuro do Rio Una (I)

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(02 de Maio de 2013)

Em 1934, Hildebrando de Araujo Góes informava em seu livro “Saneamento da Baixada Fluminense” (Rio de Janeiro: Ministério da Viação e Obras Públicas, 1934) que, ao norte da Lagoa de Araruama, estendia-se uma grande área embrejada entre os Rios Trapiche e São João. Alguns desses brejos e banhados são mencionados pelo autor, um dos fundadores da Comissão de Saneamento da Baixada Fluminense e do Departamento Nacional de Obras e Saneamento (DNOS). Entre eles, contavam-se os brejais de Itaí, Pau Rachado, Trimunurum, Angelim e Campos Novos. Os três rios que cortavam esses banhados eram o São João, o Una e o Trapiche.
E o mais notável registrado por Góes é que a Baixada de Araruama, onde ele encontrou esta imensa área de banhado, não havia sofrido significativas intervenções humanas com vistas à drenagem e ao “saneamento”, como nas Baixadas de Sepetiba, da Guanabara e dos Goytacazes. Certamente que algumas mudanças foram operadas por particulares, pelo governo da Vila de Cabo Frio e sobretudo pelos jesuítas, que se instalaram na fazenda Campos Novos.
Tais intervenções, porém, não acarretaram transformações de grande monta. Assim, no que concerne aos ecossistemas aquáticos continentais, a Baixada de Araruama, em 1934, pouco diferia do ambiente conhecido pelos naturalistas europeus Maximiliano de Wied-Neuwied e Auguste de Saint-Hilaire, que passaram pela planície em 1815 e 1818, respectivamente.
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Mapa com as quatro baixadas do Rio de Janeiro segundo Hildebrando de Araujo Góes, 1934.

Em seu diário de excursão, o alemão Maximiliano fala de belas florestas, de pântanos e de uma biodiversidade animal admirável. Valados, brejos, caniçais, lamaçais e pântanos são palavras que abundam nos seus registros ao percorrer os terrenos que se estendem de Cabo Frio a Barra de São João (“Viagem ao Brasil”. Belo Horizonte, São Paulo: Itatiaia/Edusp, 1989). Saint-Hilaire, traçando o mesmo itinerário, anota que “No meio da mata existem grandes trechos pantanosos: neles não se vê nenhuma árvore.”

Pousando na fazenda Campos Novos, agora pertencente à Coroa portuguesa, ele reflete: “A natureza aí conservou quase toda a sua potência; o homem isolado, lutando contra ela, mostra o quanto é ele fraco, e, após tantos esforços apenas deixa ligeiros traços de seu trabalho.” (“Viagem pelo Distrito dos Diamantes e Litoral do Brasil”. Belo Horizonte, São Paulo: Itatiaia/Edusp, 1974).

No tempo dos dois naturalistas, ainda não havia engenhos mecânicos que realizassem profundas incisões na natureza. A partir de 1935, com o início da ação da Comissão de Saneamento da Baixada Fluminense e do seu sucessor DNOS, o emprego de dragas causaria mudanças tão profundas que os dois naturalistas europeus não mais reconheceriam os caminhos por onde andaram, se lhes fosse facultado voltar a este mundo.

Os Rios Trapiche, Una e São João se alastravam em depressões que se alagavam com suas águas. Tinha-se a impressão que os rios despareciam para reaparecer na outra extremidade da baixada. Mas Saint-Hilaire adverte, 1818, que o arroz não podia ser plantado nas terras pantanosas porque a umidade não era permanente nelas. A seca que lhe sucedia tornava o terreno excessivamente duro.

Com o DNOS, a drenagem dos Rios Trapiche, Una e São João foi de tal forma radical que suas bacias passaram a se constituir de linhas retas e quebradas. O Rio Trapiche foi extinto, dando sua foz lugar à Marina de Búzios. O Rio Una teve todos os rios de sua bacia canalizados, com exceção de reduzido trecho dele entre a RJ 105 e o mar. A representação cartográfica de sua bacia fornecida pelo Comitê de Bacias VI (Lagos-São João) não corresponde mais à realidade quando comparada com as imagens do Google Earth.

una mapacomiteuna googleRio Una sem canalização dos rios segundo Comitê de Bacia da Região dos Lagos e São João. Na imagem do Google Earth, a mesma bacia aparece com os rios canalizados de forma geométrica (setembro de 2012).

As curvas sinuosas e sensuais do Rio São João foram substituídas por linhas retas, como se a natureza estivesse equivocada. O DNOS substituía a geometria fractal da natureza pela geometria euclidiana de uma cultura racionalista. Nem na Baixada dos Goytacazes, a maior e mais úmida do Estado o Rio de Janeiro, o órgão federal foi tão agressivo. Primeiramente porque o Rio Paraíba do Sul lhe ofereceu resistência com sua pujança. Depois, porque os alagadiços eram drenados por canais que transportavam suas águas para outra depressão e desta para outra até encontrar uma saída para o mar. É bem verdade que o órgão rasgou três canais em forma de tridente no leito da Lagoa Feia, mas sua finalidade não era drenar o ecossistema, e sim domesticá-lo. O Instituto Estadual do Ambiente (INEA) quer libertar o espírito torturado do DNOS para assombrar novamente as pessoas. Contudo, pescadores, proprietários rurais e ecologistas se uniram contra os objetivos do INEA.

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Rio São João antes da canalização efetuada pelo DNOS, na década de 1970. Foto: DNOS;

Nas Bacias do Trapiche, do Una e do São João, drenos foram abertos no fundo de várzeas, brejos e banhados para extingui-los em caráter definitivo. O resultado é que muita água doce verteu do continente para o mar sem poder retornar a suas casas por evaporação e por precipitação pluviométrica.

Ao mesmo tempo, a língua salina avançou pelas fozes até onde se faz sentir a influência das marés. Assim, os estuários se tornaram mais extensos e os manguezais ampliaram suas áreas. Não significa dizer que a perda de água doce foi compensada pela ampliação dos manguezais, pois que estes padecem de todo tipo de agressão. No Rio Trapiche, por exemplo, ele foi extinto junto com sua foz.

unaORioCanal da Malhada, que drenou extenso banhado para o Rio Una e deste para o mar. (Fotos do autor).

Agora, o governo do Estado do Rio de Janeiro anuncia uma novidade para o Rio Una, novidade esta cercada de informações desencontradas e conflitantes, o que vem gerando muita polêmica por parte da sociedade e do poder público de Búzios: o Rio Una vai receber esgoto de outros municípios da Região dos Lagos. É bem verdade que esgoto com tratamento terciário, que reduz a carga poluente a quase zero. Abordaremos o assunto no próximo artigo.

 

Arthur Soffiati é historiador ambiental e pesquisador do Núcleo de Estudos Socioambientais da UFF/Campos.

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