O contador de estórias

“Olhei pra aquilo tudo e me perguntei, ´O que vou fazer com tudo isso? ´ Aí uma agência do Banco do Brasil se ofereceu e colocou tudo num cofre. Tinha coisas de ouro. Tinha um relógio de ouro. Eu não preciso de um relógio de ouro”. Segurando um microfone, continuou, “Olha aqui meu relógio. Deve ter custado 800 reais”. Enxugou o rosto com um lenço e olhando à sua volta continuou. “Sabe, eu recebi mais presentes do que qualquer outro presidente na história do Brasil”. Fez uma parada dramática e olhando fixamente para um expectador, anunciou, em tom dramático, “Se provarem um ato meu de corrupção, vou a pé para a prisão”.

Esse contador de estórias, obviamente, um dia será conduzido para uma delegacia de polícia depois que ficar constatado que a estória que contou é uma forma de se auto iludir, de se apresentar como um ser perfeito, como o “homem mais honesto neste País”.

O TCU constatou que dos 568 itens recebidos por Lula durante seus dois mandatos, apenas nove foram destinados ao Patrimônio da União.

Ao aprovar o pedido do PGR para que seja feita uma inspeção dos itens encontrados no cofre citado pelo contador de estórias, o juiz Sérgio Moro foi gentil ao escrever, “mais razoável é que os presentes recebidos, excluídos os de consumo, por sua própria natureza depreciativa, e os de caráter personalizado, façam parte do patrimônio da União e não da pessoa física que, naquele momento, a representa oficialmente”.

Em bom português, talvez, 559 itens encontrados no cofre teriam sido afanados, subtraídos fraudulentamente, roubados, apresentados como sendo propriedade de Lula e não da União. Ou seja, o homem mais honesto do Brasil seria um gatuno, um vigarista, corrupto. Não deveria ir a pé para a prisão. Deveria engatinhar.

Esse contador de estórias, muito provavelmente, será convocado para se explicar, mas não será surpresa se agir como se segue, ao ser questionado pela PF: “P-Nome? R-Vou ficar calado. P-Endereço? R-Vou ficar calado. P-Sabe onde está? R-Vou ficar calado. P-Tomou banho hoje? R-Vou ficar calado”. Etc.

“Eles vêm pra cima do PT”, disse o contador de estórias, em outra ocasião, ao saber da prisão de seu ex-ministro da Fazenda. Pergunta-se: o que espera ele diante de tantas notícias escabrosas sobre desvio de dinheiro público que a Operação Lava Jato vem revelando?

E, finalmente, quem poderá acreditar em qualquer coisa que o contador de estórias decida dizer, em qualquer lugar, em qualquer momento?

Ernesto Lindgren
CIDADE ONLINE
25/09/2016

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