O bicentenário da expedição de Maximiliano de Wied-Neuwied III: de São Pedro dos Índios a Cabo Frio

O bicentenário da expedição de Maximiliano de Wied-Neuwied III: de São Pedro dos Índios a
O bicentenário da expedição de Maximiliano de Wied-Neuwied III: de São Pedro dos Índios a

O bicentenário da expedição de Maximiliano de Wied-Neuwied III: de São Pedro dos Índios a Bodoque. Ilustração de “Viagem ao Brasil”, de Maximiliano de Wied-NeuwiedDe imediato, o que chamou atenção de Maximiliano em São Pedro da Aldeia foi a grande Lagoa de Araruama, informando ele sobre sua salinidade e sobre a atividade econômica da extração de sal. Ele se volta para o antigo aldeamento missionário e escreve: “S. Pedro dos Índios é um aldeamento indígena (‘aldeia’), que parece terem os jesuítas primeiramente formado com os goitacás. Há aqui, como era de se esperar, uma bonita igreja, além de várias ruas, mas as residências são simples casebres de barro, todas elas, bem como a maior parte das habitações esparsas pelas cercanias, ocupadas por índios, que somente em parte conservavam o conhecimento da língua original”
Novamente exercitando seus dons de etnógrafo descreve o bodoque: “Este arco tem duas cordas separadas por dois pedacinhos de madeira; no meio, as cordas se unem por intermédio de uma espécie de trançado onde se coloca a bola de barro (‘pelota’) ou uma pequena pedra redonda.” O bodoque é arma indígena estudada por Luís da Câmara Cascudo e que conheci de perto quando comprei um no mercado municipal de São Fidélis. Confesso minha emoção ao encontrar essa arma ainda sendo usada por crianças e lamento ter perdido o meu

Em contato mais demorado com índios aculturados, o príncipe tece considerações a respeito deles e das relações que os europeus mantinham com eles. Ora, ele se revela compreensivo, ora os preconceitos europeus afloram. O naturalista não percebia que dois sistema econômicos estavam em conflito: a economia de mercado europeia, que valorizava o trabalho, o empreendedorismo e o lucro, e a economia de subsistência dos ameríndios, que buscava apenas atender às necessidades básicas de um ser humano. Leiamos o que ele escreveu: “… parte das acusações sobre a rudeza e o frequente mau caráter desses índios se deve descontar do tratamento errado e opressivo que outrora lhes dispensaram os europeus, os quais, muitas vezes, nem reconheciam neles criaturas humanas, associando, aos apelidos de caboclos e tapuias, a ideia de animais, criados apenas para serem maltratados e tiranizados.”

Contudo, em outro momento, ele externa seu preconceito: “… ainda mostram invariável tendência para a vida indolente e desregrada. Gostam de bebidas fortes e detestam o trabalho, não têm firmeza em suas palavras e são poucos os exemplos, entre eles, de caracteres dignos de nota. Não que tenham inteligência apoucada; compreendem rapidamente o que lhes ensinam, sendo além disso espertos e astuciosos. Um traço notável de seu caráter é o orgulho indomável e a forte atração pelas matas. Muitos deles ainda não se libertaram de velhas crenças, e os padres se queixam de que são maus cristãos.”

Em contrapartida, “Os negros têm mais capacidade e perseverança para aprender todas as artes e ciências; alguns chegaram mesmo a tornar-se homens muito notáveis (…) Enquanto os índios têm o suficiente para comer, não é fácil persuadi-los a trabalhar; preferem passar o tempo em danças e bebedeiras. As danças atualmente em voga foram tomadas aos portugueses.” Lendo essas linhas à luz dos estudos atuais, conclui-se que a análise é rasa. Os índios foram escravizados pelos europeus. No México e no Peru, a escravização indígena atendeu mais às expectativas dos espanhóis porque já havia uma tradição de sedentarismo e de produção de excedentes entre eles. No Brasil, os índios ou colhiam alimentos e matérias primas, praticando uma agricultura incipiente. Já os escravos africanos não apenas conheciam a instituição da escravidão na África, como também a agricultura e o pastoreio. Além do mais, o comércio de escravos africanos era muito mais lucrativo que o comércio com índios. A própria Igreja protegeu os índios mas aceitou a escravidão de negros.

Outra observação acurada de Maximiliano foi o uso de técnicas e tecnologias indígenas pelos portugueses para lidar com os ecossistemas brasileiros. O historiador Sérgio Buarque de Holanda vê nessa adoção um reconhecimento tácito da experiência dos índios com a natureza tropical: “Os portugueses adotaram muitas coisas deles e, entre outras, a preparação da farinha de mandioca.” Novamente, exibindo seus dotes de etnógrafo, ele descreve a canoa e a canoagem indígenas. Escreve ele: “Os Tupinambás e outras tribos aborígenes usavam embarcações desse tipo, que os portugueses depois adotaram. São feitas de um único tronco de árvore, e extremamente leves: os índios manejam-nas com admirável destreza. Variam muito de tamanho: umas são tão estreitas, que quem vai dentro precisa muito cuidado ao mexer-se, para não virá-las; outras, ao contrário, são de troncos de tamanha grossura, que oferecem segurança mesmo no mar, desde que não muito agitado.” Eis aí um belo exemplo de técnica e tecnologia adequados aos ecossistemas aquáticos tropicais.

Desenho de Maximiliano de Wied-Neuwid, em Biblioteca Brasiliana de Robert Bosch GMBH

Voltando o olhar para a natureza, Maximiliano encontra uma preguiça-de-coleira, que descreverá rapidamente em seu diário de viagem e, mais longamente, em obra científica escrita posteriormente sobre o Brasil. Ela também será representada em livro de divulgação editado na Alemanha. “A preguiça de coleira ‘Bradypus torquatus’ Illiger é uma forma nova, ainda não descrita. Difere muito pouco do “aí”, em tamanho e forma; a cor, porém, é uma mescla de cinzento e avermelhado; a cabeça pende mais para o avermelhado, e é misturada de branco. Na parte superior do pescoço há uma larga mancha de pelo comprido e negro. Essa espécie tem nos pés três dedos como o “aí” e não dois, como diz Illiger no seu ‘Prodromus’.” “Aí” é o nome que os indígenas davam à preguiça-de-óculos.

preguiça de coleira Preguiça-de-coleira (“Bradypus torquatus”). Ilustração de Abbildungen zur Naturgeschichte Brasiliens

Contudo, a grande informação fornecida pelo naturalista refere-se à biodiversidade vegetal encontradas nas florestas da Região dos Lagos. A lista de árvores é extensa: pau-brasil, ipê de várias espécies, piquiá, pitomba, óleo pardo, ipê-una, imbiú, jaquá, grubu, grumbari, maçaranduba, graúna, sergeira, jarraticupitaia, jacarandá, cuirana, peroba, canela, caubi, majole, sepepira, putumaju (araribá) e grande diversidade de plantas medicinais. Esta lista poderia servir aos botânicos da atualidade na procura destas espécies, pois as florestas da Região dos Lagos foram praticamente exterminadas.

Chegando em Cabo Frio, ele anota: “Esta cidade, embora pequena e mal calçada, possui diversas casas de bonita e asseada aparência. A língua de terra, em que está construída, é paludosa perto da lagoa e arenosa ao longo do mar (…) Toda a região circunjacente é cortada de lagos e pântanos, e por isso dizem ser sujeita a febres (…) Os habitantes do lugar vivem da exportação de certos produtos, como farinha e açúcar.” Quanto à Lagoa de Araruama, “… era pouco profunda, e tão transparente, que podíamos ver nitidamente a areia branca do fundo, com sua vegetação coralina.” Atualmente, a poluição alterou profundamente a lagoa.

Agora, um campo que muito me desperta interesse na Região dos Lagos: o manguezais, que, naquele longínquo ano de 1815, eram bem mais extensos. “Na beira das lagoas e pauis, principalmente perto dos mangues (‘Rhizophora’, ‘Conocarpus’ e ‘Avicennia’), descobrimos grande número de buracos cavados na terra. Servem de refúgio a caranguejos chamados aqui ‘guaimu’, e que não devem confundir com outra espécie, encontrada na areia da praia, conhecida por ‘siri’ (…) O guaiamu é maior do que o siri; apresenta cor de ardósia suja, tendendo um pouco para o plúmbeo, e sem manchas (…) É difícil de caçar, porque, ao menor ruído, se esconde na toca. (…) Constitui um alimento básico entre os brasileiros, cuja indolência é muitas vezes tão grande, que, tornando-se o peixe escasso, vivem apenas do guaiamu, regime que achamos miserável.”

Os três gêneros registrados são resistentes à salinidade. Na Lagoa de Araruama, permanecem ainda, com dificuldade, os gêneros “Conocarpus” e “Avicennia”. Na foz do Rio Una, por onde a expedição não deve ter passado, encontram-se “Rhizophora mangle”, “Laguncularia racemosa” e “Avicennia schaueriana”. Nenhum registro feito aos manguezais de franja, comuns na Enseada de Búzios, por onde a expedição não passou. O guaiamum, por sua vez, ainda é abundante na Região dos Lagos, embora obras de engenharia avencem rapidamente sobre suas áreas.

Ainda em Cabo Frio, Maximiliano colhe um exemplar de calango verde e outro de jiboia.

Exemplar de calango verde (“Ameiva ameiva”) colhida por Maximiliano de Wied-Neuwied em Cabo Frio. Ilustração de Abbildungen zur Naturgeschichte Brasiliens

 

 Arthur Soffiati é historiador ambiental e pesquisador do Núcleo de Estudos Socioambientais da UFF/Campos.

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