O bicentenário da expedição de Maximiliano de Wied-Neuwied II: de Maricá a São Pedro dos Índios

O bicentenário da expedição científica de Maximiliano de Wied-Neuwied II: de Maricá a São Pedro dos Índios
O bicentenário da expedição científica de Maximiliano de Wied-Neuwied II: de Maricá a São Pedro dos Índios

Depois de atravessar a Serra de Inoã, vinda de São Gonçalo, a expedição de Maximiliano de Wied-Neuwied chega à Freguesia de Maricá num povoado com uma população estimada em 800 pessoas. Nas margens do lago, ele explica: “O lago Maricá, junto ao qual levamos um dia a explorar-lhe as cercanias arenosas, tem cerca de seis léguas de circunferência. Suas margens são baixas e pantanosas, e o peixe é abundante.” Principalmente o bagre. Mas ele avista também muitas aves, grupo de sua predileção como naturalista. Uma delas, o urubu, leva-o a uma observação bastante pertinente, que, quase dois século depois de sua viagem, suscitará um belo poema de João Cabral de Melo Neto.

Ele escreve a respeito dele: “Esses abutres representam uma dádiva da natureza em todos os países quentes; porque eles limpam o chão, que, a não ser assim, encheria o ar de exalações deletérias. O seu olfato é tão agudo, que, morto um animal, logo se precipitam para o lugar, em grande número, embora um pouco antes nenhum fosse visto, mesmo à distância; por isso, nunca os perseguem, sendo igualmente numerosos nas regiões descampadas e nas matas.”

Ao chegar à Vila de Santa Maria de Maricá, sede da freguesia, ele observou que as casas eram acachapadas e tinham um andar apenas. Havia só uma igreja. As ruas eram regulares, mas sem calçamento. A população plantava mandioca, feijão, milho, café e cana. Era mais comum, no passado, a diversificação da economia porque as distâncias eram percorridas com dificuldade, obrigando cada núcleo populacional a produzir para o autoconsumo e para a venda. Assim, a mandioca e a cana eram empregadas na fabricação da farinha e do açúcar. O café servia para exportação. O feijão e o milho para consumo interno.

O que chamou muito a atenção do príncipe naturalista foram os cupins e as formigas. Ele anotou que as “Formigas e criaturas semelhantes são no Brasil extremamente danosas às plantações.” A tanajura é comida pela população. “Não existem meios de proteger esses alimentos, a não ser o de por os pés das mesas dentro de latas cheias d’água, ou untá-los com piche; mas, ainda assim, muitas vezes elas vencem esses obstáculos. Algumas espécies constroem, com certa qualidade de terra, nas paredes dos quartos, túneis multirramificados, por onde sobem ou descem. Nas trilhas das florestas vimos exércitos inteiros de grandes formigas, todas carregando pedaços de folhas verdes para os formigueiros.”

De Maricá, encaminhou-se para a fazenda Guarapina onde encontrou um importante engenho de açúcar. Maximilano exerce, então, suas qualidades de etnógrafo, embora esta área do saber ainda não estivesse constituída. Não apenas com relação aos índios semiaculturados ele se mostra um excelente observador, como também com as paisagens naturais e com as atividades praticadas por colonos. Com relação a um engenho, “A cana é colocada entre três cilindros verticais que se engrenam uns nos outros por meio de dentes de madeira dura, e assim a esmagam. A cana sai do outro lado como palha espremida e completamente achatada; e o caldo é recebido numa tina de madeira, colocada embaixo. Os cilindros são movidos a bois, burros ou cavalos por meio de um comprido varal. Em seguida, o caldo é fervido em caldeiras e posto depois para cristalizar em grandes potes afunilados, com um orifício no fundo, por onde se escoa o líquido em excesso; a superfície do açúcar que enche o pote é depois coberta com barro que se diz servir para clareá-lo.” Anota ainda que a cana vinda de Caiena estava sendo substituída pela cana do Taiti.

O bicentenário da expedição científica de Maximiliano de Wied-Neuwied II: de Maricá a São Pedro dos Índios Macaco Guariba. Desenho publicado em Abbildungen zur Naturgeschichte BrasiliensMas o que encantou verdadeiramente o príncipe foram as florestas luxuriantes das partes montanhosas da Região dos Lagos. Em 1815, a Mata Atlântica não estava confinada ao norte da região. Mesmo junto à costa, nas partes montanhosas, elas se desenvolviam com toda sua pujança. Ele nota que “O europeu vindo do norte não tem a menor ideia dessa magnificência, nem há palavras para descrever o quadro com tintas comparáveis às sensações despertadas (…)Muitas vezes penetrei naquelas matas sombrias que cobriam as montanhas, e onde poderia ficar o dia inteiro, extasiando-me com a quietude e o solene silêncio nelas reinante, e apenas quebrados pelo vozerio dos bandos de papagaios. Tanto mais satisfeitos e felizes vivíamos no meio desses prazeres, nos arredores de Guarapina, quanto havíamos obtido farto suprimento de provisões frescas.”

Embora a Região dos Lagos se destaque das demais do Rio de Janeiro pelos atributos turísticos, onde estão as deslumbrantes florestas visitadas por Maximiliano e seus companheiros de viagem?

Aí, ele encontrou o guariba, com sua voz roufenha, o lagarto teiú e muitas espécies animais extintas regionalmente. A caça científica e para alimentação ainda não era preocupante quanto aos impactos causados à biodiversidade, mas, sem dúvida, como bombas de efeito retardado, já estavam acionadas. Ao longo do seu trajeto entre o Rio de Janeiro e Salvador, a expedição encontrou com muitos caçadores.

Os índios aculturados eram, então, excelentes caçadores, por continuarem com os sentidos aguçados e por usarem agora armas de fogo.

Caçadores. Desenho original de Maximiliano integrante do acervo Robert Bosch GMBH

Em direção à Lagoa de Ponta Negra, a coleção de animais abatidos aumenta com jaçanã, anu grande, tiê, bacuraus, sabiá, falena e lagartos. Atravessando terreno arenoso de dunas, ele registrou uma vegetação intrincada, com plantas herbáceas e árvores mofinas varridas pelo vento. Estamos em plena restinga. Maximiliano encontra um morcego morto mas com o corpo íntegro, o único exemplar da espécie que avistou em toda sua viagem de dois anos.

Morcego do gênero Phyllostoma. Desenho publicado em Abbildungen zur Naturgeschichte BrasiliensMorcego do gênero Phyllostoma. Desenho publicado em Abbildungen zur Naturgeschichte Brasiliens

 Após cruzar um colar de lagoas, bem característico da Região dos Lagos, a expedição chega à Lagoa de Saquarema. “O lago Saquarema -registra em seu diário- comunica-se com o mar e tem vasta extensão, cerca de 6 léguas de comprimento por 3/4 de largura (…) contém muito peixe.” Daí a existência de uma colônia de pescadores, que ele descreve em mais um exercício de etnografia: “… andam muito a frescata, como todos os brasileiros, usam largo chapéu de palha, calças leves e folgadas, camisa deixando o pescoço descoberto e os pés descalços. Todos carregam à cintura uma afiada faca de ponta, com cabo de latão ou de prata. Esta arma é de uso geral entre os portugueses; mas é muito perigosa, dando frequentemente lugar a assassinatos, mormente entre homens rudes como são os pescadores de Saquarema.”

Dessa colônia de pescadores, dirigiram-se à sede da Freguesia de Saquarema, mais ou menos a meia légua. Era uma pequena vila com uma igreja. Numa colina perto do mar, havia uma igreja, um cemitério e o posto telegráfico.

Embora Maximiliano não fosse um bom desenhista e pintor, sua mão segurava uma pena como quem segurava um pincel e descrevia paisagens como se as pintasse. Em Saquarema, na beira do mar, ele demonstrou sua habilidade em descrever grandes paisagens. Atualmente, só mesmo uma câmara fotográfica com ângulo de 3600 conseguiria tal efeito: “À nossa frente, o oceano imenso, espumejando aos pés do monte em que estávamos; à direita, nos longes do horizonte, as montanhas do Rio; mais próximo, o longo litoral recortado, e, mais perto ainda, Ponta Negra; atrás, a serra coberta de matas, que se estendem também até a baixada, e, de permeio, a vasta superfície espelhante do lago. Aos nosso pés a freguesia de Saquarema, e, à esquerda, a costa, aonde as vagas vinham rebentar com tremendo estrondo. Esse enorme cenário, iluminado pelos últimos raios do sol agonizante, e aos poucos esbatido pelas brumas do crepúsculo, despertou em nossas almas a saudade da pátria longínqua (…) …sentimos com intensidade quantas privações tem que arrostar o viajante, que, impelido por irresistível desejo de alargar os seus conhecimentos, sente-se sozinho num mundo desconhecido.”

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O bicentenário da expedição científica de Maximiliano de Wied-Neuwied: introdução

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Ao deixar Saquarema, ele anotou: “Deixando o lugar acima, entrávamos agora em florestas cheias de belíssimas flores. A maior beleza dessa zona está na quantidade de lagos espelhantes, que se estendem de Maricá às cercanias de Cabo Frio.” Na costa, ele registrou dunas e pântanos em terreno arenoso coberto do coqueiro anão guriri, ainda tão abundante. Ao chegar na Fazenda Pitanga, os naturalistas da expedição entenderam que deviam passar ali alguns dias. Funcionava então uma fábrica de farinha, que o pendor do príncipe para etnografia descreve: “Para preparar a farinha, as raízes da mandioca são a princípio perfeitamente descascadas; depois, levadas a uma grande roda girante, em pouco se reduzem a polpa fina. A massa é colocada em seguida em grandes sacos, feitos de taquara ou de embira, que são pendurados e esticados ao comprido, desse modo espremem-se os sacos, expulsando o líquido existente na polpa. A parte sólida restante é posta em seguida em grandes tachos, de cobre ou de barro cozido, nos quais fica completamente seca pelo calor; porém a espessa maça, para não queimar, deve ser constantemente mexida por meio de um pau, tendo na extremidade, transversalmente, uma tábua. O pó seco, assim preparado, é chamado ‘farinha’.”

O saco a que se refere é o tipiti, instrumento de origem indígena incorporado pelos colonos europeus como tecnologia.

Nos arredores da fazenda, cercada de pântanos, campos e florestas muitos animais, animais foram abatidos para a coleção zoológica, entre eles tucanos e, pela primeira vez, foi caçada uma jacupemba. Segundo Maximiliano, a Fazenda da Pitanga era um velho convento.

De partida, penetraram numa daquelas “… florestas virgens, que durante a minha estada no Brasil sempre me proporcionaram as mais gratas emoções. Na orla da mata, altaneiros troncos de árvores mortas traziam a marca do fogo, por meio da qual se havia desbravado a região. A mata era uma escura selva formada por velhas árvores de porte colossal, tais como Mimosa, Jacaranda, Bombax, Bignonia e o pau-brasil, sobre que como sempre viviam, ou em que se enroscavam, Cactus, Bromelia, Epidendrum, Passiflora, Bauhinia, Banisteria e outras trepadeiras, cujas raízes se prendem ao solo, enquanto as folhas e as flores se expandem nos cimos das mais altas comas, motivo pelo qual só podem ser examinadas abatendo-se um desses gigantescos reis da floresta, cuja madeira, de extrema dureza, desafia o gume mais afiado (…) a vegetação é tão luxuriante nesses climas, que vemos em cada velha árvore um verdadeiro jardim botânico, muitas vezes difícil de atingir, e formado de plantas certamente na maior parte desconhecidas.”

Por mais frondosas que fossem as florestas, o fogo já estava sendo usado como a mais eficiente arma de desmatamento, e de maneira mais letal que os índios. Finalmente, para os objetivos do artigo de hoje, a expedição chegou a São Pedro do Índios, hoje São Pedro da Aldeia, às margens da Lagoa de Araruama.

Arthur Soffiati é historiador ambiental e pesquisador do Núcleo de Estudos Socioambientais da UFF/Campos.

 

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