O bicentenário da expedição de Maximiliano de Wied-Neuwied (final): de Cabo Frio a Macaé

Cobra cipo verde

No dia 7 de setembro de 1815, a expedição científica de Maximiliano de Wied-Neuwied parte de Cabo Frio em direção a Macaé. Na travessia da Lagoa de Araruama, o príncipe registra “florestas de árvores altas e esguias, entremeadas constantemente de trechos escampos, com brejos e caniçais, onde vivem grandes quantidades de garças, marrecas, maçaricos e outras espécies análogas (…) Várias espécies arbustivas de Eugenia estavam carregadas dos frutos, maduros e muito gostosos, do tamanho mais ou menos de pequenas cerejas. Olivério Pinto, que faz os comentário científicos de “Viagem ao Brasil”, diário de campo de Maximiliano, sustenta que se trata de jabuticabas. Da minha parte, acho que são pitangas. Em todas as restingas por onde andei, nunca encontrei uma jabuticabeira. Já pitangueiras, ainda existem muito, malgrado a destruição da vegetação típica desse substrato. E elas frutificam em setembro.

Até Campos Novos, ele escreve: “Cavalgamos por florestas majestosas de árvores de casca esbranquiçada ou avermelhada, que despertam admiração pelo seu porte altaneiro e ereto, enquanto, em plano subjacente, mimosas e justícias floridas espalham delicioso perfume.”

Nesta altura, os membros da expedição foram picados por marimbondos num vasto campo pantanoso. Temos motivos para supor que o grupo esteja na bacia do Rio Una, ainda que ele não seja mencionado. Neste ponto, ele também colhe uma cobra cipó verde para sua coleção. Dela, figura um desenho em “Abbildungen zur Naturgeschichte Brasiliens”, coleção de desenhos dos animais caçados no Brasil.

Cobra cipo verdeCobra cipó verde em Abbildungen zur Naturgeschichte Brasiliens MuriquiMuriqui em Abbildungen zur Naturgeschichte Brasiliens

A expedição passou vários dias na fazenda Campos Novos, que pertencera aos jesuítas. Ela continua de pé atualmente e, nas suas cercanias, descobertas de valor paleontológicos têm sido feitas. Maximiliano não deve mesmo ter passado pela Enseada de Búzios, mas, sem dúvida, cortou o grande pântano formado pela Rio Una que atravessava uma grande depressão. No século XX, este pântano será drenado para incorporar suas terras à agropecuária. No entorno da fazenda, Maximiliano consegue também caçar um exemplar de muriqui, que ele considera o maior macaco da região entre Rio de Janeiro e Salvador, mas que é, na verdade, o maior símio das Américas.

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Logo após a partida de Campos Novos, o naturalista anota: “Pequenas eminências, cobertas de mata, cercavam a planície verdejante; moitas de um raro e lindo verde vivo lembravam-nos as cores da nossa primavera da Europa (…) A soberba e imponente floresta primitiva, ‘mato virgem’, que se estende, quase sem interrupção, de Campos Novos ao rio S. João, numa distância de quatro léguas, e em cujos frescos e umbrosos recessos penetramos (…) Cedo atingimos um lugar pantanoso e pitoresco, cercado de coqueiros novos e touceiras de helicônias. Formam estes a mataria baixa acima da qual se altanam, imponentes, frondosas e sombrias, as grandes árvores (…) O percurso pelo solo arenoso era fatigante, mas o cenário esplêndido da floresta pagava-nos generosamente as canseiras.”

Há indícios de que a expedição atravessou uma vasta floresta até o Rio São João. Devia ser de natureza estacional semidecidual até o substrato arenoso, onde medra a vegetação de restinga. E Maximiliano, como todos os naturalistas europeus, apreciava a Mata Atlântica e certamente admiraria e Floresta Amazônica. A vegetação de restinga e os manguezais eram desprezíveis aos olhos dos europeus. No entanto, a mata de restinga, da qual ainda resta um fragmento na margem esquerda do Rio Una, era de tal magnitude, que o naturalista se encantou com ela. Atualmente, a mata serve de campo de provas de tiro da Marinha. Contudo, há proposta de transformá-la numa Unidade de Conservação.
Pouco mais adiante, a expedição passou por um exemplar enorme de muçurana, serpente devoradora de outras serpentes. Ela se manteve imóvel. Maximiliano ordenou que um caçador brasileiro de sua equipe voltasse e a abatesse. O homem ficou horrorizado, mas cumpriu a ordem.

MucuranaMuçurana em Abbildungen zur Naturgeschichte Brasiliens

No Rio São João, ele escreveu: a “Vila da Barra de S. João, lugar pequeno, com algumas ruas e construções sofríveis, segundo a moda do país. Tem uma igreja, obra dos jesuítas, isolada num rochedo da praia.” A igrejinha continua lá. A economia, em 1815, era representada pelo cultivo de arroz e mandioca. O príncipe nota o uso do fogo para abrir clareiras na floresta. Ele não faz nenhum comentário crítico a esta prática, como fará Auguste de Saint-Hilaire três anos depois, passando pelo mesmo local. O processo de destruição já estava em marcha há muito tempo.

Ele faz referência ao Morro de São João, mas sem comentários. Sabe-se que fez um desenho da paisagem, mas ela não foi publicada. Mais adiante, na caminhada do grupo, cruza-se “… um riacho, chamado Rio das Ostras, desemboca no oceano (…) A água desse riacho é clara, e as margens aprazíveis; numerosos ramos entrelaçados pendiam sobre ele, encimados pelos coqueiros esbeltos.” A paisagem é pouco ocupada pelo ser humano. Quando conheci Rio das Ostras, em 1959, só havia uma colônia de pesca. Hoje é uma cidade altamente adensada, já se ligando a Macaé, a Barra de São João e a Unamar.

Antes de Macaé, o grupo pousa na Fazenda de Tapebuçu: “… logo por detrás erguem-se veneráveis florestas, dela separadas apenas por um lago, no qual as árvores se espelham encantadoramente (…) Serra de Iriri, serra isolada e digna de nota, de quatro ou cinco picos cônicos, também cobertos pela mataria.” A lagoa é a de Itapebussus. Na fazenda, cultivam-se mandioca, arroz e café. Em “Viagem ao Brasil”, há um desenho desse local de autor desconhecido.

O bicentenário da expedição de Maximiliano de Wied-Neuwied (final): de Cabo Frio a MacaéLocalização da fazenda de Itapebussus. Vê-se o mar, a lagoa, a Serra de Iriri e a vegetação

Em 16 de setembro, o grupo parte da fazenda de Tapebuçu. Maximiliano anota: “O caminho de Tapebuçu ao rio Macaé segue por vasto areal na extensão de 4 léguas, quase sempre ao longo da praia litorânea; aqui e ali, pequenos rochedos entravam pelo mar, nos quais descobrimos conchas e musgos em não muito grande variedade (…) Da praia arenosa sobe uma série de morros, onde bonitas árvores e arbustos, enfezados pelos ventos, parecem cortados: entre eles, vimos pés de maracujá com flores grandes e brancas.”

Os morros referidos são falésias. Como Maximiliano e seus companheiros, cruzei sozinho e a pé o trecho costeiro entre a Lagoa de Imboacica e o Rio São João, em 2001. Por cerca de dez quilômetros, andei sozinho admirando essas falésias com sua vegetação. Em breve, o belo local está fadado à destruição.

Finalmente, a expedição chega a Macaé, que já analisei em outro artigo. A excursão de Maximiliano revela que a natureza no Brasil estava sendo destruída, mas não a ponto de tal destruição chamar a atenção dos três naturalistas que integravam o grupo. Ela já fora mais pujante ainda nos anos anteriores e se tornará mais pobre nos anos subsequentes a 1815. Hoje, a Região dos Lagos é apenas uma sombra do que foi quando da passagem do príncipe. No futuro, será mais degradada ainda.

Arthur Soffiati é historiador ambiental e pesquisador do Núcleo de Estudos Socioambientais da UFF/Campos.

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