O bicentenário da expedição de Maximiliano de Wied-Neuwied: do Rio de Janeiro a Maricá

A expedição de Maximiliano partiu de São Cristóvão em 4 de agosto de 1815, considerado então um vilarejo nos arredores do Rio de Janeiro, em direção à Praia Grande, hoje incorporada a Niterói. De lá, começou a sua longa viagem no dia 6. Neste artigo, transcrevo muitos trechos de seu diário de viagem para que o leitor possa saborear seu belo estilo e suas impressões sobre um mundo que hoje não mais existe.

Visão geral da expedição. Desenho de Maximiliano de Wied-Neuwied

Maravilhado com o que hoje denominamos de Bioma Atlântico, os insetos luminosos, as rãs e as aves foram um espetáculo inédito para o príncipe. “Anima os bosques uma multidão de pássaros que iniciavam os cantos matinais. Se, de um lado, nos deliciávamos com as notas melodiosas de uns, de outro tínhamos a atenção chamada pela vistosa e brilhante plumagem de outros (…) A estrada seguia entre montanhas, cuja magnífica vegetação despertava grande admiração; plantações de mandioca, canas-de-açúcar, laranjeiras, cercando as casas de arvoredo, alternavam com pequenos brejos. Espessas touças de bananeiras, mamoeiros, altos e esbeltos coqueiros adornavam as habitações esparsas, enquanto várias e policrômicas flores desabrochavam sob as moitas baixas.”

Na condição de etnógrafo amador ele descreve o cavalo mais comum no Brasil e a maneira de se vestir e de cavalgar do cavaleiro: “Os cavalos do Brasil são bons e ligeiros, se bem que pequenos; são originários da Espanha, e têm geralmente o corpo bem feito e pernas elegantes. As selas são ainda, como antigamente, pequenas e pesadas, revestidas de veludo, e muitas vezes curiosamente trabalhadas: têm um par de velhos estribos franceses de cobre ou ferro, trabalhados em filigrana; muitos trazem mesmo um completo sapato de madeira para receber o pé.”

cavaleiros maximiliano Cavaleiros paramentados representados a partir de um desenho de Maximiliano, por autor desconhecido, em “Viagem ao Brasil”l”

Ele passou por São Gonçalo e se encantou com o Rio Guaxindiba: “O Guaxindiba (ele escreve Guajindiba) é um riacho que serpeia, num gracioso leito de areia, entre densas matarias.”

A expedição cruzou outro rio com o mesmo nome no norte fluminense, no hoje município de São Francisco de Itabapoana, cujas matas também o fascinaram, mas ele não se refere a esse curso d’água. Na bacia do Guaxindiba do norte fluminense, foi criada uma Estação Ecológica Estadual para proteger o último fragmento significativo da antiga floresta estacional semidecidual de tabuleiro e parte da bacia. Em seu plano de manejo, explica-se que Guaxindiba significa local de muitas vassouras. Na Estação Ecológica prolifera a ave de nome guaxe, cujo ninho tem a forma de um coador de café. Tiba, em tupi, significa “muito”. Assim, uma das acepções possíveis e plausíveis de Guaxindiba é “muitos guaxes”. Maximiliano chama essa ave de inondé. Pode corresponder ao guaxe.

Acostumado às bem comportadas florestas da Europa, Maximiliano teve dificuldades em marchar no interior das intrincadas florestas tropicais. “Todos os arbustos, especialmente as mimosas, são cheios de espinhos, e as muitas espécies de trepadeiras (‘cipós’) se entrelaçam tão estreitamente em volta dos troncos das árvores, que se não consegue varar tais brenhas sem uma grande faca de mato, ‘facão’. É também necessário usar fortes calçados de sola grossa, ou botas de caça (…) Os mosquitos atormentam extremamente o caçador, tanto no interior da mata como próximo da água. Conhecem-se esses minúsculos animais pelo nome de ‘maruim’; são muito pequenos, mas sua picada causa violenta comichão.”

Os espinhos eram capazes de perfurar grossas solas de sapato e furar os pés do europeu. A presença do mosquito maruim é indicativo da proximidade de manguezal. Trata-se de um pequeno inseto, quase imperceptível, cuja picada é perfeitamente suportável. No entanto, o local afetado logo incha por um dia ou mais.

baia guanabaraBaía da Guanabara em mapa do Sargento-Mor Vieira Leão, desenhado em 1767, mostrando o formoso Rio Guaxindiba, hoje uma vala de esgoto, assim como os demais rios que desembocam na baía.Continuando o percurso, ele anota: “Não longe daí alcançamos uma grande floresta: altas e esguias mimosas de casca branca, cecrópias, cacaueiros e outras árvores se entrelaçavam tão intimamente com inumeráveis trepadeiras (‘cipós’ dos portugueses, ‘lianas’ dos espanhóis) que o conjunto parecia formar uma só e impenetrável massa (…) Passamos, depois, por trechos em que a floresta fora queimada em alguns lugares para fins de cultivo, ou, como se diz aí, para fazer um roçado, ou uma roça.” O ponto em que Maximiliano e seus companheiros se situam no tempo não permitia ainda perceber que a rota das relações entre sociedades humanas e natureza se dirige à destruição da natureza. Portanto, ainda não causava espanto a supressão de vegetação nativa pelo fogo, a sua substituição por cultivos inadequados e a matança de animais.

Sua sensibilidade de etnógrafo registra o carro de boi usado no Brasil, que ainda é construído de modo mais grosseiro e elementar: pesadas e maciças rodas de madeira, com duas pequenas aberturas redondas, giram com forte atrito em torno do eixo, produzindo agudo e áspero ruído, que se ouve a grande distância (…) parece se ter tornado para os lavradores uma necessidade o ouvir esta maviosa música.”

Na Serra do Inoã, divisor de águas entre a Baía de Guanabara e a Região dos Lagos, ele informa que “Entramos num profundo vale, em que a água muito límpida ora corre sobre um leito de pedra, ora descansa em lagoa tranquila. Pouco além de uma floresta imensa, da qual nenhuma imagem pode dar uma ideia adequada (…) Naquelas sombras espessas, próximo às frias correntes da montanha, o viajante afogueado, especialmente o nascido nos países do norte, goza de uma temperatura absolutamente refrescante, aumentando o encanto que essas cenas sublimes trazem ao espírito, incessantemente arrebatado pelo selvagem panorama (…) Até as rochas se cobrem de milhares de plantas carnosas e de criptógamos entre estes belíssimos fetos, que em parte pendem das árvores, de maneira pitoresca, como fitas emplumadas (…) As árvores das florestas brasileiras são tão colossais que as nossas espingardas não lhe alcançam o cimos, de modo que muitas vezes atirávamos baldadamente em magníficos pássaros (…) A luxúria e a riqueza do reino vegetal na América do Sul é consequência da grande umidade que prevalece em toda parte. É uma nítida vantagem sobre todos os demais países quentes.”

Eis o depoimento arrebatado de um europeu e naturalista em contato com uma manifestação da natureza quase inimaginável a alguém que toma contato com um país ainda pouco conhecido. A expedição do príncipe se constitui na primeira tentativa de conhecer uma porção considerável do território brasileiro à luz do que se podia entender como ciência pós-Linneu ou ciência iluminista.

No alto da Serra do Inoã, ele encontra o papagaio de cabeça vermelha e a Fazenda de Inoã. Usando o mapa de Arrowsmith e a observação científica, ele explica que “A Serra de Inoã é um braço que se projeta para o mar da altaneira cadeia montanhosa que corre paralela à costa. Cobrem-na densas florestas, onde existem muitas qualidades úteis de madeira e em que o caçador encontra abundante variedade de caça.” Assim como o maciço da Tijuca é uma ramificação perpendicular que parte da Serra do Mar, esta paralela à costa, também assim a Serra de Inoã. Foi neste ponto que “… o Sr Freyreiss atirou em vão no pequeno macaco vermelho e dourado, conhecido por ‘mariquina’ (‘Simia rosalia’, Linn.) ou sauí-vermelho. “Vive nas matas mais espessas e somente se encontra no sul, nas vizinhanças do Rio e Cabo Frio; pelo menos, nunca mais o encontramos para o norte.” O pequeno macaco não mais era senão um exemplar do mico-leão-dourado (“Leontopithecus rosalia”), como bem observou o professor e médico veterinário Sávio Freire Bruno.

A expedição prosseguiu em direção a Maricá, já na Região dos Lagos, colhendo papagaios-maracanã, aranha caranguejeira, o sapo “Bufo bimaculatus” (nomenclatura da época) e arapongas. E mais adiante: “A ensombrada floresta que agora atravessávamos era extremamente aprazível; bandos de papagaios voavam em derredor, numa ensurdecedora algazarra; entre eles era particularmente abundante belo periquito, de rabo pontudo, chamado ‘tiriba’ nessa região.” Nesse ponto, Maximiliano abateu uma espécie de esquilo (“Sciurus aestuans”, Linn) que não mais encontrará na sua expedição.

leontopithecus“Leontopithecus rosalia” em foto do Dr. Savio Freire Bruno, da UFF O esquiloO esquilo (“Sciurus aestuans”, Linn) abatido por Maximiliano na Serra do Inoã. Estampa publicada em “Abbildungen zur Naturgeschichte Brasiliens”

A partir de Maricá, o autor já publicou três artigos sobre o percurso da expedição pela Região dos Lagos e Macaé. O trecho entre Macaé e Itapemirim com incursão em São Fidélis mereceram cinco artigos do mesmo autor, que prepara agora um ou dois artigos sobre o transcurso entre Itapemirim e Vitória. Tais artigos podem ser acessados nos links abaixo:

{slider Leia Também }

>> O bicentenário da expedição científica de Maximiliano de Wied-Neuwied: introdução

>>O bicentenário da expedição de Maximiliano de Wied-Neuwied II: de Maricá a São Pedro dos Índios

>>O bicentenário da expedição de Maximiliano de Wied-Neuwied III: de São Pedro dos Índios a Cabo Frio

>>O bicentenário da expedição de Maximiliano de Wied-Neuwied (final): de Cabo Frio a Macaé

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Arthur Soffiati é historiador ambiental e pesquisador do Núcleo de Estudos Socioambientais da UFF/Campos.

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