Não podemos desistir

Regimes de exceção, de 15 e de 21 anos, bastam para demonstrar que nenhum sistema é melhor do que a democracia, mesmo “ao modo brasileiro”, com toda a sua esculhambação, roubalheiras e ex-presidente que abre mão de um tríplex que jamais comprou. Mesmo que essa democracia “ao modo brasileiro” seja associada a um regime republicano, presidencialista, onde o/a presidente pareceria andar pela sede de seu governo como que perguntando, “Onde é eu estou? Por favor, alguém, me ajude e me diga, onde é que eu estou? ”

Pelo menos, apesar de toda a esculhambação e roubalheiras, numa democracia “ao modo brasileiro” é possível vislumbrar o fim do túnel e ver um ex-presidente ser considerado como “investigado” e, por consequência, ser interrogado por um juiz federal que irá lhe perguntar: “Diga-me, prezado ex-presidente, que história é aquela de ter mandado transportar os seus pertences para um sítio que não lhe pertence, entre tais pertences uma carroça? E lembre-se, ex-presidente, sua resposta está sendo gravada e transmitida para que 204 milhões de brasileiros saibam o que tem a dizer, uma vez que esta audiência é pública. Entendeu ou quer que eu repita?“

Quer-se melhor coisa do que essa? Ou porventura haveria alguém que acreditaria, piamente, que Getúlio Vargas ou um dos generais dos regimes de exceção seria nesta ou em qualquer outra encarnação posto na mesma posição que agora ocupa nosso eminente, “o cara”, ex-presidente Lula?
Nem morto seria ou foi.

Alguém, por aí, assim, por acaso, ouviu algum sussurro de entre 1930 e 1945 e, depois, entre 1964 e 1985, de se ter dito, até mesmo no condicional, que Getúlio seria o maior cafajeste que passou pela presidência da República ou, no segundo caso, de se ter dito, até mesmo no condicional, que Geisel seria o maior pilantra que pisou no Palácio do Planalto?

Pois sabemos todos que, no condicional, é possível, sem risco de se ser processado, escrever, ou dizer aos berros, em praça pública, que Lula seria o maior safado, canalha e ladrão que já pisou no Palácio da Alvorada. Note-se bem: seria. Não se está a dizer que é, foi ou será.

Não fosse a certeza de se ser processado, dir-se-ia que a presidenta Dilma seria o que se consideraria uma “barata tonta”. Não se está a dizer que é. Apenas está-se a dizer que seria o que se diria não houvesse o risco de se ser processado, multado e colocado numa cela de uma prisão com condições que, comparada com as que ocupam os alegados canalhas, safados e ladrões denunciados, julgados e condenados no contexto da chamada Operação Lava-Jato seria um lugar que nem mesmo um rato ali se sentiria bem.

Todas essas coisas que se diria, mas que não se diz, só são possíveis porque sobre nós impera uma democracia “ao modo brasileiro”.

Cá entre nós, essa é uma condição muito legal. Afinal, até que se invente outro, não há melhor sistema do que a chamada “democracia”, mesmo escrachada, pisada, atormentada, maltratada por alguns que seriam dos bandos de imbecis nas duas casas do Congresso Nacional.

Ernesto Lindgren
CIDADE ONLINE
16/02/2016

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